Mesmo com pouco tempo para treinar, Zé Ricardo continua fazendo o time evoluir, mas a teimosia acerca da escalação tem cobrado um alto preço. Nova vitória por 1 a 0 mostrando solidez defensiva e as grandes limitações do poder ofensivo do Flamengo.

Repetindo a escalação pelo 3° jogo seguido, Zé Ricardo foi a campo com Alex – Rodinei, Réver, Rafael Vaz, Jorge – William Arão, Márcio Araújo – Marcelo Cirino, Alan Patrick, Éverton – Felipe Vizeu.

 

Times bem postados e com problemas no meio-campo

Tanto Flamengo quanto Santa Cruz se posicionam muito bem em campo, principalmente no último quarto defensivo, e possuem uma lenta transição da defesa para o meio-campo. Ambos os times investiram muito em lançamentos ligando a defesa ao ataque, tanto que dos 27 passes de Muralha, 20 foram longos.

O Santa Cruz durante o 1° tempo começou a marcação em seu campo, deixando apenas para o 2° uma marcação mais forte na saída de bola. A defesa também não se recuperava com grande velocidade deixando espaços pelos lados para contra-ataques, porém uma vez recomposta o time se mantinha compacto.

Já ofensivamente o Santa Cruz era bem mais eficiente, possuindo boas jogadas de triangulação e tendo em Keno o principal construtor de ataques em suas subidas em cima de Rodinei. Grafite recebeu boas bolas, ganhou algumas jogadas em cima dos zagueiros e fez Muralha suar, principalmente no 1° tempo e início do 2° tempo.


 

Quanto mais perto do gol adversário, pior fica o Flamengo

Rei do 1° quarto

A defesa do Flamengo é o setor que mais evolui com Zé Ricardo. As principais mudanças foram o recuo no posicionamento do 2° volante e do lateral direito, mantendo-os um pouco mais presos, e a troca dos jogadores de zaga com as saídas de Wallace e César Martins e chegadas de Vaz e Réver.

Com Arão mais recuado e com Rodinei subindo apenas “na boa”, os zagueiros não ficam tão expostos e o 1° volante não precisa cobrir 3 ou 4 jogadores como Cuéllar fazia na época de Muricy. Portanto, Márcio Araújo tem jogado num cenário mais fácil e, apesar de ter suas qualidades defensivas, não é a chave do sucesso da defesa e ainda compromete a saída de bola.

Fora a maior proteção e o melhor desempenho na bola aérea com a chegada de Réver, faz-se necessário destacar a entrada de Muralha que tem atuado em altíssimo nível. No último jogo fez ao menos 3 defesas difíceis e parou Grafite, que briga pela artilharia do campeonato.

2° Quarto – Zona da câmera lenta

O Flash tem um vilão, chamado Tartaruga, que faz com que uma determinada área fique em slow motion, tirando a velocidade das pessoas e objetos. E o 2° quarto de campo do Flamengo é como a zona do Tartaruga, já que os jogadores tocam despretensiosamente, não se movimentam corretamente para receber e atrasam o ataque do time, permitindo que a defesa adversária se recomponha. Nessa zona morta, quando Cuéllar está em campo é praticamente o Flash lutando contra as forças do Tartaruga, como podemos ver no vídeo abaixo.

Observaram a movimentação do Cuéllar pelo campo? Sempre se movendo na diagonal, se desmarcando e na direção de quem tem a bola para dar opção de passe. Quando recebe a bola procura tocar rápido e para frente, armando a jogada, a menos que não tenha espaço para isto. O porquê de Zé Ricardo cismar em continuar com Márcio Araújo é um mistério, não faz o mínimo sentido.

3° Quarto – Dinâmica e efetividade

Essa faixa do campo que vai da linha central até perto da área adversária é onde Alan Patrick mais se movimenta, pega a bola e passa, distribuindo o jogo e acionando os laterais e meias abertos. Porém, ao contrário de Arão, Alan Patrick não é vertical, atua muito mais na amplitude de campo fazendo uma primeira armação de jogo e não criando situações de gol.

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Na imagem acima, relativa ao jogo do São Paulo em que fez boa partida, vemos como a esmagadora parte de seus passes é para os lados e no 3° quarto do campo. As setas em diagonal mais agudas são de cobranças de falta e escanteios, jogadas ensaiadas por Zé Ricardo e que têm levado perigo ao gol adversário. Ótimo que Alan Patrick seja bom na bola parada, mas não pode o armador do time só dar assistências para finalização em lances de bola parada, precisa ser mais criativo.

Já William Arão é um jogador extremamente agudo, porém não tem os recursos de passe de Alan Patrick ou Mancuello, de modo que sua principal força é a triangulação com Rodinei e Cirino em passes curtos e rápidos ou ainda a condução de bola em velocidade. Contra o Santa Cruz compensou a má atuação de Alan Patrick e foi muito ativo no meio-campo fazendo a primeira armação, com direito a uma bomba do meio da rua que não deu chances ao goleiro e concedeu o gol da vitória.

Aliás, o bom aproveitamento ofensivo e qualidade na finalização de fora da área ou dentro da área em complemento a sua velocidade e agudez, o tornam muito mais efetivo e adequado ao posto que hoje Cirino ocupa. Não à toa o lado direito ficou muito mais forte depois que Zé Ricardo colocou Cuéllar em campo, passando Cirino para o comando do ataque e Arão para a meia direita.

4° Quarto – Zona do acerto mínimo

Se o Flamengo vai bem nos quartos ímpares, nos pares é desastroso em suas funções primordiais. Como um navio que se perde no Triângulo das Bermudas, o ataque do Flamengo sofre seguidas panes ao cruzar a linha da meia lua.

Cirino e Éverton deveriam ser a principal via de ataque ao receber os contra-ataques e avançar usando a força física para superar a marcação, entrando em diagonal para finalizar ou indo ao fundo para cruzar. Caso algum companheiro encostasse, deveria tabelar para sair mais facilmente da marcação ou aparecer na área para finalizar usando o espaço deixado pela inteligente movimentação de Vizeu.

Contudo, existe uma distância enorme entre o que Éverton e Cirino deveriam fazer, o que eles podem fazer e entre o que conseguem fazer. Não só os dois como seus suplentes mais usuais, Fernandinho e Gabriel, não possuem recursos para fazer metade do que deveriam como não conseguem concretizar aquilo que possuem habilidade para fazer. Simplesmente erraram tudo no ataque, como vêm errando há vários jogos, o que torna incompreensível a manutenção de ambos quando há jogadores com muito mais recurso como Ederson e Mancuello no banco.

 

O resumo do diagnóstico acima em um lance

Vejam como a maioria dos jogadores escolhe a opção errada ao ter a bola. No momento chave, em que poderíamos ter um ataque vantajoso, Vizeu se movimentava por fora da linha de zaga a direita, por onde Cirino subia. Já Éverton vai para ataque se colocando entre os zagueiros. Alan Patrick poderia tentar o passe mais agudo, usando a habilidade que possui, para deixar qualquer um dos dois companheiros em condições de finalizar, mas prefere ser burocrático e acionar Jorge que vinha mais atrás na lateral.

Quando Jorge recebe a bola, a defesa já está bem postada, são 4 defensores contra Éverton, Vizeu e Cirino, com outros 3 adversários entre Jorge e os companheiros no ataque, que ficam esperando ao invés de se movimentar para tentar receber mais perto. Alan Patrick, que deveria ter se movido a frente para receber, está mais recuado que Jorge e acaba por virar a opção de passe.

No 2° momento chave, Alan Patrick recebe novamente e poderia passar para Arão que estava livre e poderia partir com liberdade para o ataque, estando toda a marcação do Santa Cruz na esquerda rubro-negra. Arão teria ainda as opções de Cirino, que poderia abrir para cruzar, e Vizeu pelo meio. Mas Alan Patrick faz a pior escolha e volta o jogo para Márcio Araújo, cujos passes foram em 43% das oportunidades para trás.

 
O ferrolho de Zé Ricardo
Como contra o Cruzeiro e sem o agravante de estar com um a menos, as substituições de Zé Ricardo foram para recuar o time. Aos 12 minutos colocou Cuéllar em campo no lugar de Vizeu, que apesar de estar melhor que Cirino foi novamente preterido. A alteração fez Cirino ir para o comando e Arão para a posição que era de Cirino.

O efeito psicológico da alteração fez o time recuar mantendo o 4-1-4-1 com Márcio Araújo entre as linhas enquanto estava sem a bola, deixando o Santa Cruz dominar as ações do jogo. Porém, a abertura de Arão na direita praticamente anulou Keno, principal escape ofensivo do time, o que de fato diminuiu drasticamente as chances de perigo criadas pelo time da casa, mas não ofereceu os contra-ataques de risco que poderia já que Cirino perdia muitas bolas e, quando esta chegava ao ataque, poucos eram os jogadores do Flamengo que acompanhavam.

O acerto da marcação na direita com Arão e Cuéllar fez o Santa Cruz investir mais nos ataques pela esquerda, onde Alan Patrick e Éverton pareciam cansados e já não ajudavam como deveriam na marcação. Assim, aos 29 minutos do 2° tempo, Mancuello entrou no lugar de Alan Patrick para melhorar a marcação e tentar alguém que pudesse puxar contra-ataques. E, de fato, Mancuello tentou algumas subidas rápidas, mas a demora em ter companhia o deixava sem opção que não prender a bola no ataque.

No final do jogo, Fernandinho ainda entrou no lugar de Éverton e não fez muito mais do que tentar ajudar a marcação. Tal substituição só deixa ainda mais longe a possibilidade de devolver o improdutivo atacante, que já tem 5 jogos pelo Flamengo.

Novamente é possível ver a lógicas nas substituições de Zé Ricardo, elogiar a postura defensiva do time, mas apesar de ser ótimo contabilizar mais 3 pontos, não dá para ficar feliz com o time jogando mal e produzindo tão pouco. Não é falta de jogadores, no 2° tempo o time melhorou com a entrada de Cuéllar, não custaria nada efetivar essa formação com a troca de Márcio Araújo por Mancuello. Com o argentino ajudando na armação, Alan Patrick poderia jogar mais avançado e com o colombiano fazendo a saída de bola, a transição seria mais rápida, os meias teriam mais espaço e chances de gol clara seriam criadas com mais frequência.

 

Saudações Rubro-Negras