Contra o Vitória, o Flamengo finalmente foi um time

Contra o Vitória, o Flamengo finalmente foi um time

Analise

A estreia contra a Ponte Preta foi conservadora pela falta de tempo para trabalhar, mas contra o Vitória haveria 3 dias para Zé Ricardo estudar o adversário, conhecer melhor o plantel e treinar o grupo. Em campo, vimos o Flamengo começar a ser tornar um time minimamente organizado e, apesar de magra, a vitória garante estabilidade para Zé Ricardo continuar o bom trabalho.


Na escalação a única mudança foi a entrada de Mancuello no lugar de Fernandinho, expulso no último jogo. Paulo Victor e Emerson Sheik continuam no departamento médico; Cuéllar segue poupado até estar 100% e Éverton voltava de suspensão.

O esquema sofreu alteração, indo do 4-3-3 para o 4-2-3-1 com Muralha, Rodinei, Léo Duarte, César Martins, Jorge – William Arão, Márcio Araújo – Cirino, Alan Patrick, Mancuello – Vizeu.


Habemus Time!

Mesmo com pouco tempo para treinar, o Flamengo foi um time bem postado em campo. Zé Ricardo conseguiu mostrar aos jogadores o espaço de campo que deveriam ocupar, a função que deveriam desenvolver e os limites.

Talvez o melhor exemplo dessa mudança seja Arão. Muito criticado por seus constantes avanços ao ataque, chegando a ser mais um atacante que um volante, o jogador segurou mais contra a Ponte Preta e ontem esteve bem posicionado, fazendo perfeitamente o papel de 2° volante ao cobrir as subidas do lateral e, por vezes, subir para apoiar o ataque, inclusive dando a assistência para o gol de Vizeu.

Os dois laterais também estão com dinâmicas diferentes, que ainda precisam de muito mais trabalho para encaixar. Rodinei fica um pouco mais e sobe “na boa”, apesar de ainda ser o lateral mais acionado. Jorge, que tinha obrigações muito mais defensivas com Muricy, foi liberado por Zé Ricardo para atacar e começa a se soltar mais no apoio, porém isso expõe a lateral esquerda, que precisa de cobertura.

A troca de um atacante pelo Mancuello não foi uma mudança de nomes, mas sim uma nova proposição de dinâmica no meio-campo de Zé Ricardo. Como Alan Patrick estava sobrecarregado na criação contra a Ponte Preta, a ideia de colocar Mancuello era dividir a responsabilidade e, em parte, deu certo.

O argentino estava se movimentando bem em campo, ajudando bastante na marcação e, não por acaso, Jorge rendeu mais no 1° tempo que no 2°. Tentando se posicionar entre as linhas de marcação do Vitória, acabou não recebendo muitas bolas pela limitação de passe dos volantes, mas chegou a fazer algumas boas jogadas e apareceu na área para finalizar. A atuação abaixo do esperado é normal para alguém que começa nova função e precisa se adaptar, assim como teria rendido muito mais se recebesse mais bolas.

No intervalo, Éverton entrou no lugar de Mancuello, que havia sentido uma pancada no joelho. Com a troca de jogadores o esquema voltou a ser o 4-3-3 e o jogo passou a ficar mais aberto, deixando Alan Patrick mais isolado e aumentando a intensidade do jogo pelos lados.

O problema dos volantes

Tanto Arão quanto Márcio Araújo fizeram um importante trabalho defensivo. Inclusive, as coberturas na lateral direita e o combate no campo de ataque, onde o Flamengo perdia a bola, renderam a Arão impressionantes 8 desarmes. Já Márcio Araújo teve apenas 3, apesar de o lado esquerdo ter sido tão atacado quanto o direito.

Márcio Araújo, elogiado por muitos, de fato se entrega 100% durante o jogo, um corredor incansável, sempre buscando o adversário e marcando de modo técnico e não bruto, mas só corre tanto por estar no lugar errado no início da jogada. Sem leitura do jogo, Márcio Araújo não consegue se antecipar à jogada, não está posicionado para marcar o adversário de frente, por isso acaba por chegar atrasado em alguns momentos.

Outro problema, ainda mais grave, é a movimentação de Márcio Araújo quando o Flamengo tem a bola. Seja se colocando entre os zagueiros em linha ou de forma triangular, Márcio Araújo raramente se desmarca para receber e geralmente devolve a bola para os zagueiros, praticamente nunca tenta um passe vertical e rápido para gerar um contra-ataque ou para “achar” um jogador que esteja se movendo entre as linhas. Resumindo, a saída de bola do time com Márcio Araújo em campo é muito lenta, improdutiva e mantem a bola por muito mais tempo no campo de defesa.

Arão também não executa a saída de bola tão bem quanto deveria. Quando há espaço na marcação ele conduz bem e com velocidade a bola para o ataque, porém quando a marcação está encaixada costuma deixar a desejar. Seu repertório de passe é básico, toques curtos para Rodinei ou Cirino e quando Alan Patrick encosta também é uma via, mas tampouco Arão é um volante que tenha um ótimo passe e ajude aos meias fazendo a primeira armação do jogo.

Falta poder de criação

Criação não é função só do armador. O time como um todo trabalha para abrir espaços na marcação e fazer com que a bola chegue a um jogador bem posicionado e o mais livre possível para finalizar, mesmo que exija um ou dois dribles dentro da área, onde a marcação é limitada pelo risco do pênalti.

Se o time demora para fazer a saída de bola da defesa para o setor de criação no meio, o time adversário se recompõe e fecha os espaços, obrigando os jogadores a se movimentarem mais para receber e assim sofrendo mais desagaste físico. Além da perda de intensidade, a transição deficitária obriga os meias de criação a recuarem mais para pegar a bola, se afastando da zona em que podem fazer o passe diferenciado que coloca o companheiro na “cara do gol”.

No 4-2-3-1 armado por Zé Ricardo, a ideia era que na direita Arão e Rodinei pudessem triangular e sair rapidamente com Cirino, principalmente em contra-ataques explorando o poder de explosão dos jogadores do setor. Principalmente com Cirino sendo não só rápido, como forte fisicamente. Já na esquerda o setor é mais técnico, apesar de Márcio Araújo, tendo Jorge e Mancuello com muitos recursos de passe e finalização, o que ajuda na construção de jogadas.

Nesse contexto, Alan Patrick tem a função de encostar com um lado ou outro fazendo tabelas e dando dinâmica ao jogo. Infelizmente na maior parte do tempo ele é lento, quando o time precisa de intensidade, o que torna ainda mais difícil das jogadas saírem pelo centro, empurrando o jogo para as laterais, o que continua deixando o ataque funcionar na base do chuveirinho, explorando o pior fundamento do time: o cruzamento.

E é incompreensível que o ataque funcione na base dos cruzamentos para a área, contra o Vitória o Flamengo acertou apenas 10% das tentativas. Rodinei, como lateral, deveria ser um especialista, mas errou 85% dos cruzamentos, o campeão de erros ao lado de Alan Patrick. Somados, os dois foram responsáveis por 44% dos cruzamentos errados.

Quais os próximos passos de Zé Ricardo?

Houve de fato uma grande melhora no time, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Agora que o time sabe bem seu posicionamento, passa a ser necessário trabalhar a movimentação, ocupação de espaços, para dar maior dinâmica de jogo e velocidade ofensiva. Parte disso passa pelo retorno de Cuéllar no lugar de Márcio Araújo, pois além de se posicionar muito melhor na cobertura, ainda faz uma saída de bola mais eficiente e rápida, tendo mais recurso de passe.

A manutenção de Mancuello é importante para que o time se adapte a jogar dividindo mais a criação entre o meio e os lados, ganha-se pelo lado técnico e ainda na bola parada. Do outro lado, não dá para Cirino continuar titular com a sequência infindável de más atuações, sempre sai de campo como o pior do time, o que abre espaço para Ederson e Gabriel disputarem a posição. Contra o Vitória, Gabriel entrou e muito bem no 2° tempo.

Outro ponto importante é que ter na linha de 3 jogadores com características de meia-atacante e não de atacantes de movimentação, pode deixar que Vizeu fique mais na área ao invés de sair todo o tempo para buscar jogo e assim possa trabalhar mais no pivô e sendo a referência para marcar os gols, usando seu faro artilheiro característico.

Saudações Rubro-Negras

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