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Luiz Filho | Twitter: @lavfilho

Prosseguindo com o Centro de Treinamento como assunto da coluna, gostaria de questionar a “a cultura do ‘faraonismo’” x CT possível. Insistimos em um CT faraônico, monumental, mas megaestruturas são fundamentais? O foco está correto? Talvez o futebol do Flamengo (e o CT) estejam no caminho errado em relação à preparação. Penso que o foco deva ser nas pessoas; funcionários e atletas. Pra exemplificar o que penso, traçarei paralelos com o atletismo e natação, os esportes que distribuem mais medalhas olímpicas, discutiremos modelos, que possam ser aplicados no futebol brasileiro, no futebol do Flamengo.

Pensando na estrutura, nos funcionários que trabalham no clube, penso sim que devam ser o foco do trabalho do clube na criação de uma filosofia esportiva, logicamente apoiada em tecnologia e conhecimento, investindo-se na qualificação dos serviços prestados dentro do departamento de futebol em todos os níveis. Do “chão de fábrica” ao executivo top, porém formando, formar é importante, cria identidade, desde que não haja acomodação. A demissão de José Luiz Runco pode ser uma oportunidade de reformulação interna, porém não sabemos o que acontece dentro do departamento de futebol.

Utilizando a natação como campo de conhecimento esportivo, é válida a experiência americana no esporte. Depois do fracasso nas olimpíadas de 1972 (Austrália 8 x 2 EUA, em ouros conquistados), resolveram massificar de vez, tornando a natação em um dos mais populares. Investiram em novas técnicas de treinamento, em todos os níveis da creche à universidade. E não é exagero. Hoje existem 330 mil nadadores federados, num país de 300 milhões de habitantes. No Brasil são 10 mil numa população de 200 milhões. Dá pra fazer um paralelo com o futebol, nossa modalidade mais popular, ok? Da quantidade se faz a qualidade.

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O exemplo australiano, que derrotou a equipe americana na olimpíada 1972, também é bacana. Como sede das olimpíadas de 2000, detentora de grande tradição na natação mundial, a Austrália (confederação e comitê olímpico) resolveu criar um centro de excelência em natação único no mundo. O investimento em tecnologia do esporte foi muito grande. Foi o primeiro centro desse porte específico para um esporte. Cuidava do dedo mindinho até o último fio de cabelo (passando pela cabeça, as mentalidades). Formaram um “exercito de superatletas”, dentre eles Ian Thorpe, o mais famoso. Também dá pra trazer pro futebol atual, a captação, a formação e a lapidação do talento ao extremo.

O clássico EUA x Austrália na natação é a comprovação de que não existe caminho perfeito, mas existe um caminho. Um encontrou na popularidade e o outro na técnica a excelência, a competitividade. A natação é extremamente popular na Austrália e há nos EUA uso massivo de tecnologia, também. O que há em comum nestes exemplos: nos dois países há competições semanais, com rivalidades individuais, municipais, estaduais, nacionais, entre colégios, universidades, etc. No Brasil não existem tantas competições, não há essa competitividade natural, em fases de treinamento. Sem entrar na “questão do esporte natação”, os caras competem em todos os períodos físicos, técnicos, táticos, tem na competição algo natural, mentalidade vencedora. O Flamengo deve buscar seu caminho.

No atletismo também existem dois modelos muito bacanas para se pensar na produção atlética. Não falarei dos EUA, que também produz atletas aos montes, de excelência, as vezes com métodos não ortodoxos (doping, inclusive uma grande investigação em nível mundial foi aberta semana passada), fixarei com foco no ser humano, nos métodos de treino, com dificuldades semelhantes às que temos no Brasil. Pode ser no atletismo, futebol, ou qualquer outra coisa. Quênia e Jamaica são escolas tradicionalíssimas do atletismo mundial. Sem tantos recursos tecnológicos, nem financeiros.

No Quênia, tudo é favorável ao atletismo quando se refere às provas de longa distância, de resistência atlética, as provas de fundo, como são chamadas. O treinamento é executado em grandes planícies, na verdade em altiplanos. A altitude melhora o desempenho atlético em comparação ao “nível do mar”, o biótipo dos quenianos também favorecem ao tipo de competição. Altos, longilíneos, com tendões e ossos longos. Não se trata de “dádiva de Deus”, o “povo escolhido para tal tarefa”, tem muito trabalho ali. Treinadores locais foram estudar na Europa, principalmente e disseminaram os métodos de treinamento simplificado e eficaz. Extraem a qualidade da quantidade, com qualificação, excelência.

Na Jamaica é parecido. O biótipo é favorável, porém para as provas de velocidade, explosão muscular. Os caras treinam e treinam muito! Competem desde criança, extraindo a qualidade da quantidade. Há uma competição escolar, a maior do país, onde crianças de 12 a 16 anos competem no estádio nacional. São aproximadamente 6 mil competidores de todo o país. Lembremos que a Jamaica é pequena, e tem muitas medalhas em jogos olímpicos e mundiais de atletismo.

Lá o atletismo é currículo escolar e extraem da quantidade, a qualidade. Lá o foco está nas pessoas, não pura e simplesmente no treinamento. O exemplo máximo é o fenômeno Usain Bolt. O homem mais rápido de todos os tempos, um superatleta que nunca correu em seu potencial pleno, já que comprovou-se em estudos que poderia correr 0.08s abaixo do recorde mundial se não se soltasse, se “corresse até o fim”. Faria 100m em 9.46s não 9.58s (tente correr 100m). Monstro! Esse mito do esporte mundial, pasmem, treina em pistas de grama até hoje. GRAMA.

Como pode um superatleta treinar na grama? Bolt quase não corre em pistas, somente em fase de polimento e as competições. Logicamente ele tem estrutura, mas o país talvez não tenha para dar o suporte que imaginamos daqui, principalmente quando pensamos em dinheiro. Pois é, o foco é nas pessoas, na preparação. No atletismo: Jamaica x Quênia o foco é na técnica, característica do povo, a falta de recursos faz os campeões o ser humano preparado, não mimado. Tenho me questionado: será que o investimento no futebol brasileiro está certo? Será que o melhor investimento é mesmo na estrutura? Pra lapidar é necessitaria uma megaestrutura? Talvez, não. Sei que a estrutura ajuda, contudo o foco deve ser nos profissionais, os que aparecem na ponta do processo (jogadores, treinador) e os de base, os que não aparecem (analistas de desempenho, preparadores físicos e técnicos, médicos…).

Devemos pensar na preparação dos futebolistas (atletas do Flamengo) com os exemplos que dei acima, os de natação e atletismo e os dos países, mas estudar a fundo caso a caso, não superficialmente como acabo de fazer. Trago o tema à reflexão. As condições existem por aqui e o Flamengo não deve ser o “salvador da pátria de chuteiras”, longe disso, o problema é mais grave, e não se impede que façamos nossa parte. As escolinhas devem competir constantemente, entre si inclusive, promovendo peneiras constantes, buscando talentos sempre Brasil à fora. Devemos qualificar nossos olheiros e professores, principalmente, para que possam perceber, lapidar aos talentos que surgem. O futsal deve fazer parte do treinamento, da preparação dos jogadores do campo, futebol se joga cada vez mais com tomadas de decisões complexas em tempo/espaço curtíssimos.

Vejo de fora e penso que o maior problema do Flamengo seja o RH. Falta qualificação dos funcionários, base, é essa impressão que se tem de fora, algo no processo está errado, o foco a avaliação, execução, algo que não se enxerga. Posso e devo ter sido injusto, porém algo ocorre, algo que não conseguimos enxergar e que se repete como um padrão. O Flamengo não consegue o salto de qualidade que pensamos ser possível. Que os melhores estejam aqui, contratados, preparados, com possibilidade de crescimento individual e coletivo. Runco foi o demitido mais recente, existiam reclamações sobre seu trabalho, Tannure, novo chefe do setor, é médico-chefe do UFC no Brasil. Qual é a prioridade dele? O foco deve ser mais nos profissionais e na formação/informação do que na estrutura física, que também é importante, não fundamental.

Contextualizando, ampliando um pouco, misturando laranjas com maçãs, casos de outros esportes, podemos fazer o Flamengo crescer. As diferenças entre o Brasil e Europa no futebol parecem as de massificação e foco na estrutura. Atualmente, o futebol europeu chegou em um estágio onde os jogadores de futebol são “praticamente fabricados em laboratório”, mas não foi este o aspecto que tornou a Europa vitoriosa dos 3 últimos mundiais. Os pontos fundamentais além da estrutura, são o intercâmbio e o fomento ao esporte, sem desperdício. Do mesmo jeito que nem tudo é uma maravilha lá, nem tudo é lixo cá.

Temos que focar nos profissionais, todos, e menos na estrutura física, como mostram os casos de Jamaica e Quênia, que fazem muito com o mínimo. Vivemos de vitórias, fomos forjados entre o caos e o oba-oba, mas não podemos como clube, instituição pensar o futebol nesse entremeio. O foco deve ser completo, ninguém rasga dinheiro, deve existir profissionalismo ao extremo da recreação ao alto rendimento, no clube social, nas escolinhas e no CT, na preparação das equipes de futebol. O mais importante é criar um modelo Flamengo. Qual nosso modelo? Estou convencido de que o Flamengo erra por não conhecer e conduzir seus profissionais, não tem um caminho definido.

Os profissionais fora de campo também devem ter investimento do clube em cursos, viagens, intercâmbios, titulações acadêmicas, empirismo em campo, comprovação de teses. As teses devem ser criadas e refutadas, se for o caso. Até sugiro uma parceria com a Universidade do Futebol. Eles pensam o futebol como um todo, em todos os âmbitos. Assim deve ser no Flamengo, deve se pensar no futebol nos mínimos detalhes. Se fizermos estaremos à frente de todos, por tudo o que vem acontecendo nos últimos anos e o que promete ocorrer daqui para frente com a LRFE, mesmo que esteja projetando o longo prazo, não dá pra esquecer o curto prazo.

 

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