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A Copa São Paulo de Futebol Junior é um torneio tradicional da base e por ocorrer no período de pré-temporada do futebol profissional acaba sendo o único torneio de base que a maioria dos torcedores acompanha, assim alcançar o título pode criar grande expectativa em cima dos jogadores através de uma “fotografia” do que é o processo da base. Nesse texto analisarei o título da Copinha como o fruto de uma evolução que começou ainda em 2014 e só foi possível pela perfeita união do talento dos jogadores e de treinamento impecável de Zé Ricardo.

Foi no dia 10/11/2014 que o Flamengo anunciou em seu site oficial que Zé Ricardo assumiria o juniores, antes treinado por Marcelo Buarque. Houve apenas dois meses para o treinador se adaptar e conhecer os garotos antes de começar a reformulação da categoria no último ano, que foi marcado por adaptações de jogadores e resultados não tão expressivos.

Retrospectiva da Base (2015)

Antecipando as saídas e chegadas por mudanças de idade, Zé Ricardo levou para a disputa da Copa Ipiranga sub-20 (a tradicional Copa RS que era o Campeonato Brasileiro da categoria antes da CBF organizar um) quase o mesmo grupo de jogadores selecionados para a Copinha já visando usar o torneio de fim de ano como preparatório. A inovação do Flamengo foi o esquema tático muito bem treinado, porém testado e aprimorado durante a competição e sobre o qual já escrevi em análise anterior.

Avaliações individuais* e perspectivas futuras:

Thiago: Fundamental na conquista rubro-negra, é um goleiro que vem me impressionando desde o juvenil, passa muita confiança para o grupo e não tem falhas gritantes, apesar de precisar melhorar a saída de bola. Tem boa impulsão, reflexo e não se intimida no um contra um, fez muitas defesas difíceis na competição e, na decisão, confirmou o bom histórico em cobranças de pênaltis.

Hoje o profissional conta com um goleiro recém contratado, mas ainda tem Paulo Victor (que pode sair no meio do ano, foi muito assediado ano passado) e César, cujo histórico é bem parecido com o do Thiago, aguarda mais chances. Em caso de saída do Paulo Victor, Thiago passa a ser excelente opção de terceiro goleiro, caso contrário seria bom empréstimo para ganhar experiência em algum clube da série A ou B do Campeonato Brasileiro.

Thiago Ennes: Lateral direito que se destacou pela postura defensiva impecável na marcação e cobertura, além de apoiar muito bem no ataque alternando entre ir a linha de fundo cruzar e cortar para o meio e entrar na área pra finalizar, chegando inclusive a marcar 2 gols na competição.

É um dos jogadores que mais evoluiu tecnicamente e taticamente nas mãos de Zé Ricardo, sendo um jogador que até pouco tempo atrás eu cornetava muito e hoje peço já no futebol profissional. Thiago Ennes hoje é melhor que Pará e apresenta muito mais futebol que Rodinei, deveria estar no Carioca para ser testado.

Léo Duarte: Foi o capitão do time e um dos jogadores mais regulares. Veloz e com uma grande leitura de jogo, se destacou pelo bom posicionamento que aumentou a eficiência nos desarmes. Historicamente nunca foi um jogador que me agradou, inclusive muito facilmente driblado por jogadores velozes e habilidosos, mas nessa competição mostrou ter aprendido a compensar suas limitações com uma melhor leitura de jogo, mas não sei se muito em parte pelo esquema redondo e comprometimento do time ou se de fato realmente evoluiu em sua formação.

Assim como as laterais, a zaga é uma posição carente no profissional e muitos torcedores já pedem Léo Duarte ao lado do Juan, sendo o zagueiro rápido que poderia firmar parceria com um jogador mais técnico e lento. Por suas características de jogo seria uma opção melhor que Dumas e Antônio Carlos, que treinam com o profissional, porém acredito ser temerário demais colocar um zagueiro jovem e sem tanta força física para atuar no profissional com um time ainda desestruturado defensivamente, típica situação que queima jogador.

Dener: Apesar de ser titular incontestável para Zé Ricardo, mostrou fragilidade durante toda a competição e cometeu falhas que resultaram em gols do adversário ou finalizações perigosas. Pode ser que Zé Ricardo consiga extrair mais dele e faze-lo dar o salto de qualidade que precisa para pensar em atuar profissionalmente por um grande clube.

Arthur Bonaldo: Jogador coringa que atua como volante, zagueiro e jogou a maior parte do tempo como lateral esquerdo, mostrou que é um bom defensor, tem um chute forte de fora da área, mas não apoia bem e cometeu algumas falhas defensivas por ainda estar se adaptando a posição de lateral.

A tendência é que Michael, recém promovido do juvenil, assuma a lateral esquerda e Arthur volte a atuar como volante, principalmente com a saída de Ronaldo para o profissional. Ainda tem muito o que evoluir e ter mais espaço pode ajudar.

Ronaldo: Eleito pela torcida o craque do time na competição, mostrou ser um primeiro volante sintonizado com o futebol moderno. Atuando entre as linhas de 4, era o responsável pela distribuição de jogo e saída de bola seja com passes curtos para os meias centrais ou lançando pontas ou laterais, não só no campo de defesa como também dando assistência como no gol de Thiago Ennes contra o Palmeira. Apesar de ter errado pouco, ainda apresenta algumas falhas na marcação, precisa melhorar no fundamento e nos desarmes.

Talvez Ronaldo seja o maior trabalho de Zé Ricardo no juniores. Antes atuava como lateral direito e era simplesmente horroroso, perdi a conta de quantas vezes o xinguei durante os jogos, mas foi direcionado para o meio campo onde teve um período longo de adaptação e evolui enormemente. No profissional poderíamos dizer que teria vaga garantida quando o “titular” é Márcio Araújo, mas acredito que seja precipitado promove-lo nesse momento, acho que vale testá-lo num jogo ou outro, mas deixa-lo no juniores para aprimorar mais os fundamentos defensivos.

Para o profissional temos a chegada do Cuellar, que se não for bem pode ser substituído por Jonas ou Canteros, que foi muito bem nos testes realizados por Muricy na pré-temporada.

Cafu: Tem habilidade, boa técnica, mas além do físico estar longe do ideal, ainda é um jogador que, a exceção da final, viveu de lampejos durante os jogos. Seu estilo lembra o Everton, que corre muito e se impõe fisicamente, mas na hora de produzir acaba errando o passe ou perdendo a bola por prender demais.

Tem quem goste do estilo, mas com o físico que possui e a limitação produtiva que apresenta, não acredito que vá ter espaço no profissional e dificilmente se manterá na série A.

Trindade: é um volante regular que ganhou espaço por ser mais consistente defensivamente e acabou ficando com a titularidade na competição com Sávio, que é um meia mais ofensivo e de criação. Apresenta limitações na visão tática, deficiência na saída de bola, não acerta tanto os passes no ataque, mas se apresenta bem para finalizar, principalmente de longe.

É um jogador regular que atua em uma posição onde as exigências estão aumentando com o passar dos anos, assim não acredito que terá tantas oportunidades no profissional do Flamengo, principalmente com todas as opções disponíveis.

Lucas Paquetá: Se consolidou como o maestro do time, tendo consistência ofensiva com ótimo passe, boa visão de jogo, compreensão tática e cada vez mais arriscando finalizações, coloca-se como uma das maiores promessas da base. Porém cabe ressalvar que ele é um 8 e não um 10, precisa melhorar mais suas habilidades defensivas para se tornar mais consistente na defesa e assim se consolidar como futura boa opção de meio campista pro profissional.

Matheus Sávio: Começou como meia aberto variando como ponta, mas não é um velocista e sim um organizador de jogo e, até por isso, rendeu muito mais como meia central, porém não se firmou por não ser um marcador tão bom e acabar cometendo faltas bobas nas tentativas de desarme. Suas qualidades ofensivas são inegáveis, além de articular bem as jogadas aparece com eficiência para finalizar tendo marcado alguns gols na Copinha, inclusive o de empate na final. Porém, ainda precisa evoluir muito defensivamente para jogar no meio sem afetar o equilíbrio do time. Comparando em termos de função, seria como se o Paquetá tivesse que se adaptar para a função do Elias e o Sávio se adaptar para função do Renato Augusto.

Felipe Vizeu: Destaque da Copinha e eleito o melhor jogador da competição, mostrou ser o centroavante clássico que não se encontra mais no mercado hoje em dia. Eficiente nos chutes de primeira e hábil no domínio e disputa de lance, não é driblador, mas se impõe fisicamente, faz bem o pivô e joga de modo inteligente, deslocando a marcação para deixar espaços para os companheiros aparecerem na área com liberdade pra finalizar.

Eu já destacava Vizeu no juvenil e percebo como evoluiu muito no seu caminho, aprendendo a ser mais técnico, ganhando mais visão e compreensão de jogo. Se o clube continuar investindo e trabalhando para que ele se fortaleça ainda mais fisicamente, tem tudo para se firmar no juniores esse ano e ter chances no profissional em 2017 com um estilo muito mais parecido com o de Adriano do que com o de Guerrero.

Kleber: Recém promovido do juvenil, ainda precisa evoluir mais fisicamente para atuar como lateral, mas pela sua qualidade no apoio acabou ganhando vaga como meia aberto ou ponta. Rápido e com boa qualidade no drible e cruzamentos, ainda peca ao não aparecer tanto na área para finalizar nem cair mais pro meio e ajudar na armação. Defensivamente sabe marcar, mas ficou devendo quando atuou de lateral talvez por ainda estar se desenvolvendo fisicamente ou ainda sentindo a transição do juvenil pro juniores.

Se Thiago Ennes subir, como acredito e espero que aconteça, Kleber tem tudo para se firmar na lateral, porém ainda com oscilações pelas limitações apontadas. É um jogador baixo, apesar de forte para a idade e precisa encontrar um equilíbrio.

Patrick: Opção para a ponta em todos os jogos, tendo começado algumas vezes como titular, se revelou um trunfo ofensivo para o 2° tempo. Rápido e com bom drible, puxa contra-ataque muito bem e tem visão de jogo para saber quando dar assistência ou finalizar a gol, o que fez muito bem em todos os jogos. Defensivamente ainda precisa evoluir, mas procura contribuir cercando e com velocidade na recomposição.

Tido como grande promessa, pode ser o atacante de lado ou meia aberto que o Flamengo precisa formar para ocupar lacunas no profissional. Hoje temos as promessas Cirino e Gabriel, Nixon correndo por fora e Emerson Sheik já em declínio, mas a referência de jogo dele me parece muito mais afinada com Ederson quando em plenas condições de jogo. De toda forma, a estrada ainda é longa, acabou de subir pros juniores e precisa se firmar na categoria primeiro.

Michael: Outro jogador vindo do juvenil e que me impressionou bastante. Fisicamente ainda é frágil para as disputas corpo-a-corpo e esse me parece ser o motivo pelo qual não foi titular, pois apoia muito bem tendo velocidade, capacidade de drible e sabendo cruzar bem, além de recompor com muita velocidade, o que usa para tentar se posicionar bem e antecipar ao adversário para marcar e desarmar.

Acho difícil que Jorge termine este ano no Flamengo se for para a olimpíada, mas caso o Flamengo consiga mantê-lo até o meio do próximo ano, podemos ter em Michael um potencial substituto, basta saber como preparar bem o garoto.

Lincoln: Era no juvenil um dos destaques da zaga com passagens pela seleção e sendo inclusive capitão do Flamengo e da seleção. Quando subiu pros juniores, na mesma época que o Jorge, teve alguns problemas de lesão e quando voltou acabou não conseguindo ter espaço, chegou a ser usado como primeiro volante e na Copinha foi reserva de Dener, tendo atuado como titular em dois jogos.

Eu não entendo o porquê de ele ser reserva do Dener. Além de ser um zagueiro forte e bom pelo alto e no corpo-a-corpo, tem boa leitura de jogo, bom passe e liderança. Quando atuou lembro de ter tido apenas uma falha e que mesmo assim não resultou em gol.

Se há um zagueiro que merece mais atenção e dedicação é o Lincoln, tem potencial e assim como Léo Duarte, me parece um investimento melhor e mais inteligente do que as contratações em apostas que a diretoria têm feito.

* Os demais Jogadores não atuaram tempo suficiente pra ter uma avaliação individual sólida.

Contudo o destaque do juniores é o Zé Ricardo e o trabalho sublime que tem feito primeiramente na lapidação dos jovens jogadores, recuperando o futebol de alguns, encontrando as melhores posições e estilos de jogo de outros, trabalhando não só a parte técnica, mas ensinando-os a ter visão de jogo e consciência tática. Mas para além de ser um professor, de descobrir e puxar o que de melhor há em cada jogador, mostrou que é um estudioso da organização de um time, não se limitando a copiar um esquema muito usado, mas sabendo como implementá-lo de um jeito eficiente, com transição e variabilidade, deixando confortável para os jogadores e potencializando suas qualidades. Por fim, como se não bastasse qualificar bem e treinar bem, ainda soube como estruturar emocionalmente o grupo de jogadores, deixando-os focados, comprometidos e tão disciplinados que o rodízio em algumas posições foi muito bem assimilado.

O legado da Copinha, assim, me parece antes de tudo ser a consolidação de Zé Ricardo como um treinador a receber investimento do clube, que banquem o curso da UEFA, o enviem para estágio em um grande clube europeu e, assim, o efetivem no profissional daqui dois anos quando termina o contrato do Muricy com o Flamengo. Entre os jogadores Ronaldo e Thiago Ennes despontam como opções de encaixe imediato no profissional, enquanto Léo Duarte, Thiago, Vizeu, Paquetá e Sávio se consolidam como opções a serem trabalhadas para os próximos dois anos.

Saudações Rubro-Negras