Flamengo em Foco

Cabe ao bom executivo se perguntar o que precisa ser feito para levar a sua organização a alcançar os objetivos traçados, identificando as ações mais urgentes e as priorizando, sempre pensando no que é melhor para a organização. Também é função deles traçar planos de ação, responsabilizar-se pelas decisões tomadas, aproveitar as oportunidades que surgem, contratar os melhores para os cargos, além de garantir as condições adequadas para que a produtividade da equipe seja maximizada.

O que impede o Flamengo de ter sucesso no futebol?

Os ciclos de fracasso são estáveis desde 2013. Um treinador sai em maio após fracasso em competições do 1° semestre e início ruim do Campeonato Brasileiro, depois assumem outros que ficam por cerca de 3 meses, com o último ganhando um fôlego por “salvar” o time do rebaixamento e ficando até o início do ano seguinte.

Outros procedimentos que se repetem é o de contratações baratas que mal jogam, não rendem e depois são “desovadas” de graça ou quase isso, ou então as contratações de jogadores veteranos em fim de carreira que não performam e ganham fortunas e geralmente atuam como lideranças negativas. Também vemos o pouco espaço dado a jovens da base e o péssimo trabalho com quem tem alguma chance, permitindo que saiam por valores baixos ou sem custo.

As exceções, que são as boas contratações, também encontram problemas que as impede de render e acabam saindo em baixa para fazer sucesso em outros times. Eduardo, que saiu para abrir espaço na folha salarial para Sheik, é talvez o melhor exemplo, tendo sido campeão e artilheiro em seu time atual.

Por fim, temos o problema crítico da “falta de comando”, que talvez possa ser melhor definido como falta de interlocução da diretoria com os jogadores e atuação mais próxima a eles. Ou seja, falta um gerente que seja respeitado pelos jogadores e consiga passar para o grupo as demandas da diretoria.

O próprio cargo de diretor de futebol é problemático, já que além de ter problemas nos nomes escolhidos, ainda tem seu trabalho completamente limitado pelos dirigentes amadores. É o conselho gestor que toma as decisões mais importantes do futebol como a escolha, contratação e demissão do treinador, dos jogadores chave, além de contratarem o diretor de futebol.

Dentro de campo a lição parece ter sido aprendida

Juan, Mancuello e Cuéllar possuem perfil de liderança positiva e com o tempo tendem a se tornar os líderes naturais do grupo de jogadores. Além disso, outras contratações como a de Guerrero, Ederson, Muralha e Arão mostram que houve foco em não trazer jogador que se abate facilmente em caso de derrota, evitando assim aquela postura passiva que vimos em 2015, quando o time era incapaz de buscar a virada no placar e a apatia era palpável.

A contratação da Exos também foi um golaço. A maior prova disso é o baixo número de lesões desfalcando o time e a frequência com que Juan tem jogado e em alto nível; o próprio Gabriel tem atuado melhor que nas temporadas anteriores, geralmente entrando bem durante os jogos.

Que tipo de treinador o Flamengo deveria procurar?

O Flamengo teve um número enorme de treinadores nos últimos anos e cada um com um perfil diferente, formas distintas de trabalhar se sucederam, o que tornou todo o processo ainda pior.

Outra característica é que um treinador assume quase que imediatamente após a saída do antecessor, revelando que buscas e negociações começaram bem antes. O perfil de treinador é variado, mas dá para separá-los em dois grupos:

  1. Treinadores de renome que já foram campeões há anos atrás e vem de recentes trabalhos ruins.
  2. Treinadores baratos que vem como aposta após “sucesso” em algum clube pequeno, que não tem nem metade da pressão que existe no Flamengo.

Outra coisa em comum: todos são brasileiros. Mesmo vendo o número de treinadores sulamericanos que fazem sucesso lá fora, o grande número de argentinos treinando as seleções no ciclo da Copa do Mundo de 2014 e a consistência do futebol apresentado por times treinados por estrangeiros nos países vizinhos, essa direção não cogita a sério qualquer treinador de fora.

O São Paulo, que talvez esteja na maior crise financeira e política de sua história, trouxe Osório e o trabalho foi tão consistente que jogadores desacreditados como Pato renderam e o time brigou em cima o campeonato inteiro, conquistando a vaga no G4 mesmo com salários atrasados, rachas no elenco e troca traumática de presidente. Sequer a saída do Osório para a seleção mexicana conseguiu tirar a consistência da equipe, apesar da queda natural pelas trocas de comando.

A experiência foi tão boa que o São Paulo foi atrás de Bauza. O estilo é completamente oposto, Bauza gosta de times de defesa sólida e tem lutado para mudar o São Paulo e dar consistência, aos trancos foi se classificando na Libertadores, mas evoluções são visíveis. E tudo isso com os bastidores em crise e elenco mudando muito durante o ano.

Ah! Mas Muricy é um treinador multi-campeão e se “reciclou” durante o “ano sabático”. De fato, Muricy ganhou muitos títulos, mas isso foi numa época em que o futebol ainda era muito físico e menos coletivo e, além disso, trabalhava com times altamente defensivos que jogavam por uma bola. Nesse “ano sabático” Muricy cuidou da saúde a maior parte do ano, seu “estágio” não passou de uma visita de cerca de 10 dias em que conheceu muito mais a estrutura administrativa e a base do Barcelona que o futebol e treinamento do time principal.

Não era necessário mais que uma conversa para ver que Muricy não tem ideia do que seja um time ofensivo e que, em caso de o contratarem, seria para ver o Flamengo no Muricybol. Se ele é bom em um estilo, por que forçá-lo a adotar um estilo oposto? Que executivo contrataria para ser pizzaiolo de sua gigante pizzaria um renomado sushiman?

Hoje temos uma oportunidade única: Sampaoli está no mercado, Bielsa também é uma possibilidade. Custam caro? Óbvio que sim, mas no futebol de hoje vale muito mais investir pesado num treinador que tira ao máximo dos seus jogadores e fazem um time sólido, que pagar meias fortunas (Muricy não ganha pouco, tão pouco Abel ganharia) em treinadores que não acompanharam as mudanças no futebol e ainda “montam” times baseados em individualidades.

É o ideal que um estrangeiro assuma no meio do ano? Claro que não, mas é a realidade que se apresenta dada a decisão equivocada de contratar Muricy. Além disto, esses nomes citados teriam apoio da torcida que já está acostumada a ver o time brigar no meio da tabela e estariam muito mais tranquilas ao ver o time evoluir – mesmo que devagar – ao invés de ter um brilhareco que termina em crise e traz mais nomes.

Novamente, estou falando de capacidade executiva: Identificar o problema, buscar uma solução definitiva e não um remendo e ir ao mercado para contratar o melhor profissional disponível dentro de um perfil pré-estabelecido.

Cadê o plano de carreira?

Um problema que sempre surge quando se fala de posições de comando é a questão da falta de identificação dos profissionais com o Flamengo. Desde 2013 a gestão Bandeira de Mello fala em plano de carreira e formar profissionais, dirigente e treinadores e até agora não agiu nesse sentido.

Fora de campo identifica-se a necessidade de ter um gerente de futebol que faça a conexão dos jogadores com a diretoria de futebol, uma interlocução próxima a eles, com vivência no futebol e que entenda o que é o clube. O nome de Alessandro é bom, ex-jogador do Flamengo e que se aposentou recentemente após fim de carreira vitorioso no Corinthians, onde desde antes de se aposentar vinha se aproximando das funções de dirigente e onde passou a trabalhar após deixar os gramados. Obviamente a grande conexão com o Corinthians acende um alerta no torcedor, mas se olharmos para os ex-jogadores do Flamengo veremos alguém minimamente preparado?

O fato é que o Flamengo lá em 2013 deveria ter começado a montar um programa de formação de dirigentes. Identificar entre os ex-jogadores quem teria perfil executivo e enviar para fazer cursos e estágios fora, depois dentro do clube. Seriam gerentes com possibilidade de virar diretores da base e do profissional, afinados com as diretrizes profissionais do Flamengo de hoje e com representatividade no grupo.

Zé Ricardo teve destaque na base e foi promovido a treinador dos juniores (categoria sub-20), onde teve grande êxito em recuperar e preparar jovens para o profissional, além de ter ganhado a Copinha este ano. Para terem uma ideia, Ronaldo nem no meio campo jogava antes de Zé Ricardo ir para os juniores, Léo Duarte é outro que subiu muito de rendimento graças ao trabalho bem feito de Zé Ricardo. Mas que tipo de plano a diretoria tem para ele?

Aos 45 anos e com uma trajetória sólida na base, já era para após a Copinha o Flamengo ter proposto a Zé Ricardo que fosse fazer o curso de formação de treinadores na Europa. Ao voltar, estagiaria um ano no profissional e então assumiria o posto de treinador, já com preparo teórico, prático e experiência. Enfim, supondo que o Flamengo contratasse Sampaoli até 2018 (2 anos), Zé Ricardo voltaria ao Flamengo em 2018 e estagiaria com ele já sendo preparado para assumir quando terminasse o contrato com o treinador.

Programas de treinee são comuns em grandes empresas, assim como promover a contínua melhora de seus profissionais com cursos e um plano de carreira, o que estimula os profissionais em um ambiente meritocrático. Assim, novamente fica a pergunta: por que isso ainda não está sendo feito? Não há uma situação financeira confortável desde o ano passado?

Conclusão

É inegável o ótimo trabalho feito a nível macro, mas o grande problema é que o principal departamento do clube e o departamento mais importante de apoio a este não estão funcionando. O marketing está perdido, não consegue patrocínios e ainda vê o ST despencar todo mês, fora a queda de bilheteria. E o futebol é um fracasso desde que assumiram em 2013 (a Copa do Brasil foi um acaso e tudo que aconteceu depois é prova disto).

Obviamente não é obrigatório que Bandeira de Mello seja profundo entendedor de futebol, mas dado que ninguém do conselho gestor se esforçou para estudar futebol e entende um mínimo razoável do assunto, o lógico seria que profissionalizassem completamente o departamento, contratando um diretor e deixando todas as decisões a cargo dele, sem interferência.

Também é esperado que usasse seu know-how de executivo para adotar práticas de boa governança no futebol. O que vemos de fora é a falta de bons processos de avaliação do trabalho dos profissionais do topo à base, falta de planejamento, falta de planos de carreira, falhas graves na contratação de profissionais e outros erros que nada dependem de conhecer futebol e sim de deixar a vaidade de lado e superar o amadorismo para adotar práticas profissionais. Em minha opinião, passou da hora de Bandeira de Mello ser mais executivo que político, apenas isso.

Saudações Rubro-Negras