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Capítulo 8: O 1º Turno do Campeonato Estadual de 1979

Capítulo 8: O 1º Turno do Campeonato Estadual de 1979

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Por Gustavo Roman


 

Primeiro Turno

A cabeça dos cartolas era realmente uma coisa incrível. Depois do Campeonato Especial, iria começar o Estadual 79. E, como não poderia deixar de ser, o regulamento era dos mais confusos e deficitários para os grandes, especialmente para o Flamengo, que possuía a mais alta folha salarial do Rio.

O primeiro turno seria disputado por 18 clubes, jogando todos contra todos, em 17 rodadas. Os 10 mais bem colocados, jogariam o segundo turno, em nove rodadas e também classificatório para o turno final,com os 8 primeiros, onde se definiria o campeão. Sabe qual era a vantagem que o vencedor do primeiro e do segundo turno levavam para o terceiro? Um mísero ponto de bonificação. Que confusão, hein?

Independente disso, o fla era o grande favorito a conquistar o tricampeonato. A preparação começou na Capital Federal, onde o time quase perdeu sua longa invencibilidade diante do Brasília. Cláudio Adão marcou, a seis minutos do fim e decretou o empate.

Na seqüência, a equipe foi a Natal, jogar contra um combinado do ABC, América e Alecrim. O triunfo veio por 2 a 1, com gols de Cláudio Adão. Enquanto isso, no Rio, a Diretoria começava a reforçar o elenco. Foram anunciadas as contratações do meia Bruno, do São Cristovão e do ponta esquerda Carlos Henrique, da Desportiva.


Ainda haviam dois amistosos a serem disputados, antes da estréia no Estadual. Em Itabuna, vitória tranqüila sobre o time da casa, por 3 a 1 (Zico, Adílio e Adão). E, no chamado “jogo dos invictos”, pois o Vitória também não era derrotado fazia um bom tempo (29 jogos), um empate, em 1 a 1, com gol de Zico.

A primeira partida na competição carioca aconteceu no Maracanã, diante do Bonsucesso. Goleada de 5 a 0, com tentos de Zico (2), Cláudio Adão, Adílio e Tita. No dia seguinte, Coutinho convocou a Seleção Brasileira. E na lista estavam Zico, Carpegiani, Toninho, Júnior e Rondinelli. E, para reforçar ainda mais o elenco, vinha por empréstimo do Guarani, o zagueiro Gilberto.

O segundo compromisso foi em Petrópolis, contra o Serrano. O campo, pequeno e ruim, atrapalhou demais a equipe. Os dois pontos só vieram graças a um solitário gol de Zico. Assim, o time chegava a 50 partidas invictas e aproximava-se do recorde do Botafogo.

Na terceira rodada, o mengo voltou ao maior do mundo e não teve dificuldades para golear o São Cristovão. Zico e Cláudio Adão marcaram duas vezes cada. A nota triste ficou pela contusão de Tita, que iria ficar afastado por 3 semanas.
Sua ausência, entretanto, não seria sentida diante do Campo Grande, em Ítalo Del Cima. A vitória de 2 a 1 (Zico e Cláudio Adão), garantiu o jogo de número 52 invicto, igualando o recorde nacional do Botafogo. E quem seria o próximo adversário do rubro-negro? Justamente a equipe alvinegra.

A cidade parou para falar do clássico. A Diretoria rubro-negra exigia exame antidoping nos jogadores do Botafogo. Além disso, o clima era de total confiança no clube. Zico, acertara sua renovação, por mais um ano. Coutinho poderia escalar o time quase completo (a exceção de Tita), para a quebra do recorde. Foi prometido um prêmio extra aos atletas e foram feitas medalhas comemorativas do feito. No último coletivo, com a Gávea lotada, empate em 2 a 2, com Zico e Cláudio Adão marcando para os titulares e Luisinho e Ronaldo para os suplentes.

O Maraca estava lotado no domingo. Tudo conspirava a favor. Porém, um gol no começo do jogo, marcado por Renato Sá (curiosamente, foi ele quem marcou duas vezes, na derrota do Botafogo para o Grêmio por 3 a 1, quebrando a série invicta do alvinegro) e uma brilhante atuação do goleiro Borrachinha acabaram dando a vitória a equipe de General Severiano. Para Coutinho, a derrota foi um “alívio”, já que assim os jogadores poderiam pensar exclusivamente na conquista do tricampeonato, sem a pressão de ter que manter a invencibilidade.

Era importante dar uma resposta imediata ao torcedor. Antes de enfrentar o Bangu, Coutinho comandou um coletivo, vencido pelos titulares, por 2 a 0 (Luisinho e Reinaldo). Na partida, válida pela sexta rodada, o time venceu, mesmo sem convencer, por 3 a 1. Os gols foram todos de Zico.

Enquanto isso, os dirigentes do Olimpique de Marselha foram a Gávea, tentar comprar o passe de Carpegiani. A proposta francesa era de 15 milhões de cruzeiros, em 3 anos, só de salários para o atleta. Carpegiani queria mais e recusou a proposta.
A partida seguinte, contra o ADN, de Niterói, foi histórica para o galinho. Não só pelos seis gols marcados, no massacre de 7×1. Mas, principalmente, pelo sexto tento da equipe, quando ele driblou o goleiro sem tocar na bola e empurrou para as redes vazias. Foi o gol que Pelé não fez, em 70 contra o Uruguai. Para a nação, pouco importava se o rei tinha falhado. Zico, fez.

Nem tudo era festa. O Santos entrou na justiça, cobrando uma dívida de um milhão de cruzeiros, referente a compra do passe de Cláudio Adão. Pior, se o fla não pagasse, estaria suspenso e perderia por WO para o Volta Redonda, pois estaria impossibilitado de atuar. Sem dinheiro, a solução foi recorrer a Otávio Pinto Guimarães, Presidente da FERJ, que emprestou a quantia.

Com isso solucionado, o Flamengo foi até Volta Redonda e saiu de lá com mais dois pontos na bagagem. Triunfo de 3 a 0, com gols de Edinho (contra), Zico e Cláudio Adão. Esta partida também foi especial, pois marcou a centésima vitória de Coutinho no comando da equipe.

Para tentar manter a liderança, o Fla foi até Campos, enfrentar o Americano. Derrotou os donos da casa por 5 a 2. Novamente, a dupla desequilibrou. Cláudio Adão marcou 3 e Zico, 2.

Com mais da metade do turno disputado, o Flamengo liderava a competição com apenas 2 pontos perdidos, seguido de Vasco e Botafogo, com 4 e Fluminense, com 5. O título começava a se aproximar.

Toninho, Júnior, Rondinelli e Zico foram jogar pela Seleção, que enfrentou o Ajax em partida amistosa. Sem eles e sem Coutinho,houve um coletivo na Gávea, com vitória dos titulares sobre os reservas, de 5(Adão, três vezes, Tita e Reinaldo) a 3(Luisinho e Carlos Henrique, duas vezes).

Para melhorar ainda mais o astral de todos, Zico marcou dois gols na goleada brasileira diante dos holandeses, por 5 a 0. Além disso, ele e Toninho foram convocados por Enzo Bearzot para integrar a Seleção do Mundo que iria enfrentar a Argentina, em Buenos Aires.

O jogo da décima rodada era o clássico diante do Fluminense. No coletivo apronto, 2 a 0 para os titulares, tentos de Tita.
No domingo, vitória por 2 a 1. Zico e Cláudio Adão foram os autores dos gols. Só que as melhores notícias vinham de outros estádios. O Vasco perdia para o São Cristovão (1×0) e o Botafogo empatava com o Americano (2×2). Com esses resultados e apenas um clássico para jogar, o título da Taça Guanabara estava praticamente garantido, apesar de ainda faltarem sete rodadas.

No dia seguinte do fla x flu, Zico entra no segundo tempo e tem grande atuação na Seleção do Mundo, marcando o gol da vitória, em jogada toda rubro-negra, com a participação de Toninho. Na quarta, dois dias depois, o galinho já estava em campo, ajudando o Flamengo a bater o Madureira, por 4 a 0. Adílio (2), o próprio camisa 10 e Cláudio Adão marcaram. A goleada poderia ter sido ainda maior, mas Zico acabou perdendo um pênalti e Júnior foi expulso de campo.
A Diretoria aproveita a boa fase da equipe e desafia o Santos, campeão paulista para dois amistoso desafio. A falta de datas impede que os jogos aconteçam.

Depois de duas semanas afastado, Carpegiani volta ao time contra o Fluminense de Friburgo, na Serra. E sua presença acabou sendo fundamental, já que foi dele o gol da vitória de 1 a 0. Mais uma vez, em um campo pequeno e ruim, o time esteve mal. Acabou salvando-se por sua individualidade. E para deixar os rubro-negros ainda mais próximos da conquista, no Maracanã, Vasco e Botafogo ficavam no 0 a 0.

Antes de enfrentar o América, uma pausa para faturar. Com uma cota de 800.000 cruzeiros, o Flamengo foi a Recife e acabou derrotado pelo Sport, por 1 a 0. Para não cansar ainda mais o time, a Diretoria cancelou o amistoso diante do Ceará, que seria disputado dois depois. Mesmo sem receber a cota de 1 milhão de cruzeiros, era necessário que se desse um descanso aos atletas. No Rio, Júnior foi julgado pelo STJD e pegou apenas uma partida de suspensão.

No domingo, mais uma vitória, desta vez, por 2 a 1 em cima do América. Os gols foram de Luisinho e Zico. Com este resultado, a equipe precisava apenas de duas vitórias, nos últimos quatro compromissos, para garantir a conquista da Taça Guanabara.
Todos esperavam um jogo tranqüilo contra o Goytacaz, ainda mais por ser no Maracanã. Pois estavam errados. A partida foi complicadíssima e a vitória veio na bacia das almas, por 4 a 3. Zico, mais uma vez foi o salvador da nação, marcando todos os gols. Faltava apenas uma vitória para o caneco estar garantido.
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E a rodada seguinte dizia que o Flamengo teria que ir até a Ilha do Governador, enfrentar a Portuguesa, em seu acanhado estádio. A Diretoria tentou de todas as maneiras levar a partida para o Maracanã. Mas era necessária unanimidade no Conselho Arbitral e o Vasco foi o único a votar contra, o que provocou grande revolta entre os cartolas rubro-negros. De qualquer forma, o time cumpriu o que dele se esperava. Foi a casa do adversário e venceu, por 2 a 0, com mais dois gols do galinho. Com duas rodadas de antecipação, o Flamengo era Campeão da Taça Guanabara. Era o quinto turno seguido vencido pelo time da Gávea.

Na penúltima rodada, a equipe voltou ao Maracanã e bateu o Olaria com tranqüilidade, por 3 a 0, com gols de Cláudio Adão, Zico e Esdras (Contra). Antes de encerrar a participação no primeiro turno, o mengo foi até Goiânia, enfrentar o Vila Nova. O triunfo por 2 a 0 (Zico e Cláudio Adão) e a atuação irrepreensível do time fez com que a torcida presente ao estádio aplaudisse os cariocas de pé.

A última rodada marcava o clássico diante do Vasco. Coutinho prometeu time completo e a Diretoria, ainda revoltada com o veto vascaíno a mudança do local contra a Portuguesa, prometeu um prêmio extra e exigia uma goleada. Com todo esse clima, o jogo foi quente. Foram cinco cartões vermelhos: Manguito e Toninho, do lado rubro-negro e Guina, Gaúcho e Paulinho, pelo lado do Vasco. Com tanto espaço, prevaleceu a melhor qualidade técnica do Flamengo. Vitória de 4 a 2, com gols marcados por Júnior (2), Tita e Zico. A vingança estava completa.

O domínio rubro-negro foi tão inquestionável que a equipe acabou a Taça Guanabara sete pontos a frente do Vasco e nove a frente do Fluminense. Um verdadeiro passeio!

No próximo texto: O Segundo Turno e a excursão a Europa. Até lá!


Gustavo RomanGustavo Roman é jornalista, historiador e escritor. Autor dos livros No campo e na moralFlamengo campeão brasileiro de 1987, Sarriá 82 – O que faltou ao futebol-arte? e 150 Curiosidades das Copas do Mundo. Conhecido como um dos maiores colecionadores de gravações de jogos de futebol, publica toda quinta-feira, aqui no MRN, a série “Biografia Rubro Negra 1978-1992”, onde conta a saga do período mais vitorioso da história do clube mais querido do mundo.


 

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