Já virou lugar-comum: uma boa marcação começa lá na frente, com os atacantes. Mas, de fato, o que isso quer dizer? Será que isso é um comentário sobre o nível de raça necessário para o futebol profissional extremamente competitivo ou há alguma ideia tática por trás?

O futebol é cheio de chavões que acabam se esvaziando de significado ao longo do tempo. Vamos então analisar essa ideia, entender o que ela significa para o futebol contemporâneo e, particularmente, para o atual time do Flamengo.

Futebol: conquista de território

O futebol faz parte de um conjunto de esportes que se baseiam na ideia de dominação de espaço. Rugby, futebol americano e… xadrez! Em todos esses esportes, o objetivo é avançar por um terreno, conquistando cada vez mais espaço até o objetivo final. Os esportes de quadra, como tênis, vôlei, basquete e até mesmo o futsal apresentam uma dinâmica bastante diferente. Eles emulam pequenos confrontos, nos quais o objetivo é quebrar um inimigo (quase) sempre posicionado para se defender.

Mas o primeiro grupo de esportes guarda uma contradição: quanto mais perto você está do objetivo, mais difícil é avançar. Os últimos metros são infinitamente mais difíceis do que os primeiros e é isso que os torna interessantes. No futebol americano, por exemplo, quando o time começa uma jogada lá atrás, o quarter back tem infinitas variações de jogada – pode tocar curto, abrir a jogada ou buscar o lançamento longo -, pois tem muito terreno a sua frente, coberto por uma quantidade limitada de adversários. Por outro lado, quando a jogada começa na linha de gol, as possibilidades evaporam, pois o jogo fica todo comprimido em poucos metros. No nosso futebol, a mesma coisa acontece.

Portanto, há várias estratégias para se defender. O time pode optar por começar a marcação lá na frente, aquilo que chamamos de pressão, mas corre o risco de abrir espaços para a bola longa por trás da defesa. Um outro time pode se fechar completamente dentro da própria área, “estacionar o ônibus”, mas perderá o controle da bola, deixando boa parte do território para o adversário. O futebol é sempre um jogo de cobertor curto: quando você puxa aqui, deixa descoberto ali. E essa é a sua maior beleza.

A marcação pressão

A seleção da Holanda em 1974, a Laranja Mecânica, revolucionou o conceito. Em vez de tentar explicar a ideia, deixo aqui uma entrevista de Pedro Rocha, lendário atacante uruguaio que estava em campo na derrota da Celeste para os holandeses por 2 a 0 naquela Copa.

“Por duas vezes, em campo, quis chamar a minha mãe: a primeira, com 17 anos, na minha estreia no clássico Peñarol e Nacional, em pleno Centenário. Na segunda, com 32 anos, quando enfrentei a Holanda na Copa de 1974. Quando peguei a bola pela primeira vez, quatro jogadores vieram para cima de mim e me tiraram a bola. Não entendi nada, mas na segunda vez, a cena se repetiu, e foi assim o jogo todo. Ali, eu quis a minha mãe”.

Todo time se defende em linhas. Podemos imaginar essas linhas como camadas de defesa que vão sendo sobrepostas, cada uma ajudando a cobrir a outra. O objetivo do time que tem a bola é ir vencendo essas linhas uma a uma. A marcação pressão visa criar instabilidade já na primeira linha, tentando evitar que o adversário saia jogando com tranquilidade. Essencialmente, tenta fazer com que o adversário não tenha o domínio confortável sobre nenhuma parte do campo. Na maioria das vezes, o objetivo não é roubar a bola lá na frente, mas forçar o erro de passe. O papel da linha primeira linha de defesa (os atacantes) passa a ser quebrar o ritmo do jogo adversário.

O que importa daí em diante – e essa é a parte difícil da coisa – é que todas as linhas atuem em conjunto. De nada adianta um ou dois atacantes pressionando os zagueiros se as outras linhas estão muito recuadas, pois haverá muito espaço para que a primeira linha seja vencida com tranquilidade. Daí vem a ideia de compactação. O time que marca lá na frente precisa adiantar todas as linhas.

Marcar na frente, portanto, é estruturar o sistema defensivo de uma maneira muito específica, não é apenas ter um atacante que dá carrinho.

Staff Images / Flamengo

As características da linha de defesa

É muito comum perguntarmos se dois atacantes com características parecidas podem jogar juntos. Ronaldo e Adriano na seleção? Guerrero e Damião no Flamengo? Todos entendem que não importa apenas a qualidade dos atacantes, mas a sua complementaridade.

Estranhamente, a mesma percepção não acontece na defesa. Todo mundo quer que os melhores zagueiros joguem, independente da combinação de suas características. O mesmo vale, em menor escala, para laterais e cabeças de área.

Me lembro de quando fui ver o Barcelona bater o Levante no Camp Nou. Era extremamente normal ver os onze jogadores barcelonistas no campo de ataque e, quando o time perdia a bola, a cartilha Guardiola demandava que o time corresse para frente, não para trás, fazendo pressão no homem da bola para recuperá-la rapidamente. Todos os jogadores participavam da pressão, menos um. Abidal ficava na linha de meio campo, virado de lado, preparado para correr para trás no caso de uma bola longa.

O lateral francês nunca foi muito valorizado, mas a verdade é que ele era um monstro fisicamente e tinha uma grande noção de posicionamento. Quando eventualmente o Levante conseguia um bom passe longo, sempre estava lá Abidal fazendo a cobertura, apostando corrida com o adversário, normalmente ganhando a disputa ou no mínimo atrasando a jogada para que o time pudesse recompor.

A característica dos zagueiros importa tanto quanto a dos atacantes para um time que marca pressão.

Staff Images / Flamengo

E no Flamengo?

O time campeão da Copa do Brasil com Jayme em 2013 optava por não fazer nenhuma pressão no campo do adversário. Pelo contrário, se fechava com uma linha de 4 bastante estreita (quase sem espaço entre os zagueiros e os laterais), uma outra linha de 4 logo à frente com os pontas tendo a missão clara de acompanhar o adversário até o fundo, muitas vezes fazendo essencialmente a função de cobertura de um lateral e Carlos Eduardo e Hernane apenas cobrindo espaço, incomodando os volantes adversários.

Aquele time deixava o adversário jogar até dentro do seu próprio campo, abrindo mão do espaço em troca de um congestionamento na sua própria área. Deu certo.

O time de Zé Ricardo em 2016 tem basicamente duas variações. Quando joga no 4-4-1-1, os dois homens de frente costumam fazer pressão nos zagueiros, cortando a linha de passe. A defesa e o meio-campo jogam bem adiantados. A bola normalmente sai longa e Rever e Vaz são bons na antecipação pelo alto. Apenas se a primeira linha é vencida, o time todo recua e guarda a área.

Quando o Flamengo muda para o 4-1-4-1, a pressão é abandonada. Os pontas perseguem os laterais adversários, os volantes começam a disputa dentro do próprio campo e o atacante apenas finge que atrapalha lá na frente.

Zé Ricardo claramente articula entre essas duas opções com a marcação pressão em mente. Contra o Galo, por exemplo, dominou o primeiro tempo travando o primeiro passe do time mineiro, mas tomou um baile quando Roger mudou sua saída. Contra o Fluminense nas finais do Carioca, marcava recuado, pois sabia que o grande perigo do Flu era o lançamento em velocidade. Já na Libertadores , o espaço que ele deu fora de casa acabou sendo decisivo.

Ah, isso tudo também ajuda a explicar a importância de Márcio Araújo nesse time. Ele é um jogador absolutamente comum, mas é o único volante rápido, com bom posicionamento e que faz poucas faltas. O time não joga de forma tão compacta, então é razoavelmente comum um adversário encontrar espaço entre as linhas. É aí que ele entra: consegue correr atrás, rapidamente criando uma nova camada de defesa entre a zaga e o meio-campo. É uma função dupla que nenhum outro volante rubro-negro consegue exercer.

 
Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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