Ontem, logo após do segundo gol de Vinicius, Reinaldo Rueda abriu um sorriso largo e sincero. O narrador logo concluiu que “ele deve estar satisfeito com o talento que tem à disposição”. Pessoalmente, acho que esse sorriso tem uma razão mais direta e mais pessoal.

Não há nada melhor para um time em crise do que enfrentar o lanterna do campeonato em casa. Melhor ainda se o adversário é aguerrido, não entra derrotado, dá um certo trabalho e até equilibra o jogo em alguns momentos. A sensação é de imposição e vitória, mesmo que o rival seja fraquíssimo.

Não há nada melhor para um treinador do que uma ideia surpreendente que dá certo em campo. Melhor ainda se o treinador estiver começando no clube e se a ideia for completamente inusitada.

Vem daí o sorriso de Rueda: ele inovou na escalação e a jogada do gol foi construída justamente por Paquetá, a grande cartada inesperada da noite. Aliás, a assistência apenas coroou grande atuação do garoto, que só não foi o destaque do jogo porque Vinicius marcou dois belos gols. Fazer um gol é bom, mas “fazer um gol do jeito que eu imaginei” é muito melhor.

Quem viu a escalação ontem levou um susto. No Twitter e nos grupos de WhatsApp começaram as especulações sobre a formação tática que seria adotada. Seria um 3-4-3? Um 4-3-3? Um 4-6-0? Quando começou o jogo e vimos que Paquetá realmente veio a campo para jogar no comando do ataque, substituindo Guerrero e Vizeu, o pensamento de todos os rubro-negros foi o mesmo: “não estou entendendo nada, mas deixa o homem trabalhar”. Essa é a vantagem de ter chegado há pouco, com amplo apoio da torcida, e ainda não ter que enfrentar aquela pressão enorme que é treinar o Flamengo.

Como posso te surpreender hoje?

Treinador precisa tentar, testar e ser criativo. Precisa se arriscar um pouco. Essa sempre foi, inclusive, a minha maior crítica a Zé Ricardo: acho que ele é bom treinador, mas muito preso às suas convicções – ou teimosias. Futebol é sobre controlar espaços e surpreender os adversários. Um time previsível, portanto, fica ultrapassado rapidamente.

Rueda inovou de verdade – e deu muito certo. Ninguém esperava Paquetá na frente nem Vaz na lateral, mas ambos foram bem. A escalação não é apenas diferente nos nomes, mas mostra alguns conceitos que não estamos acostumados a ver por aqui. O papel de “falso 9”, que faz um sucesso estrondoso na Europa, não foi completamente assimilado no Brasil e também não é tão comum usar laterais-zagueiros. O treinador mudou o jeito de jogar e deu certo. Vaz foi seguro e Paquetá ajudou, brigou, armou, articulou, ganhou pelo alto, deu carrinho, se movimentou e fez o pivô. Aliás, fez o pivô melhor do que Vizeu costuma fazer.

Fico feliz por ele. É um bom jogador, pode ajudar muito o Flamengo e deve receber todo o carinho que os garotos da base merecem. Mas fico ainda mais feliz de ver ideias novas no Flamengo. Elas vão falhar às vezes, mas prefiro perder tentando do que ficar empacado no mesmo lugar.

Treinadores que inovam são muitas vezes chamados de loucos. Mas foi Albert Einstein que disse que “loucura é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes” – e quem sou eu pra discutir com Einstein?

Ainda é cedo para empolgação. O Flamengo, inclusive, deveria se impor ainda mais contra o Atlético Goianiense em casa. Mas é muito bom saber que o Flamengo está disposto a surpreender.

Agora é pensar no Botafogo.

 

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb



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