O Flamengo não é obrigado a vencer. A sensação geral, no entanto, é de cansaço. A desconexão entre clube e torcida é preocupante.

Se tem um comportamento corrosivo por aí, é o tão famoso e comum “eu avisei”. Essa é uma frase que se houve quase todo dia, mas não leva a lugar nenhum. Não ajuda, não constrói, não soma nada. É apenas uma maneira de se sentir superior, de tirar uma onda no Twitter. E, convenhamos, é uma das bases do jornalismo esportivo atual.

Não se ganha nada com esse tipo de comportamento. Mas precisamos assumir: esse final de ano melancólico vem de uma sequência de erros, vacilos e imprudências que não começou ontem. 

O juizão atrapalhou, amarrou o jogo, voltou faltas, deixou de marcar um monte de coisa e deu pouco tempo de acréscimo. Um pênalti mal marcado deu o gol do título ao Independiente. Tudo isso é verdade. Mas a verdade mais profunda e mais dolorida é a seguinte: o time do Flamengo simplesmente não é bom o suficiente.

Os argentinos jogaram mais, dentro das suas possibilidades e do que o jogo pediu. Entraram de um jeito no primeiro tempo lá na Argentina, mudaram no intervalo, recuaram no fim. Aqui, entraram com outra formação e, de novo, mudaram no meio do caminho. Souberam se adaptar. Um time flúido, que não é maravilhoso, mas soube jogar o jogo. Sempre pareceram em controle de suas ações. Se o pênalti não fosse marcado, possivelmente teriam conseguido empatar de outra forma.

Já o Flamengo é o contrário. Cometemos erros banais na principal competição do ano e não soubemos corrigí-los. Pelo contrário, criamos o mito de um grande elenco e vivemos disso. Insistimos nos mesmos erros de novo e de novo. Nossos vilões pareciam personagens de desenho animado de tão caricatos que eram.

Mesmo jogando oitenta e tantos jogos no ano, o Flamengo não fez nem cinco boas partidas. Mesmo vencendo, conseguia desesperar a torcida. E quando não era desespero, era indiferença. Os jogos do Flamengo se tornaram mais do mesmo: decididos no talento individual que aparecia de vez em quando em um futebol completamente aleatório. Vivemos de lampejos. Quando os melhores do time iam bem, vencíamos. Quando iam mal, perdíamos. E a vida segue.

Não aprendemos nada com os melhores times do continente e do planeta. Em um Campeonato Brasileiro de baixíssimo nível, não oferecemos nada de diferente. Jogamos um falso futebol, ruim nos resultados, mas pior nas atuações. Um time pobre de ideias que parecia sempre meio perdido, meio desligado, meio à deriva. Continuamos tomando gols previsíveis e perdendo jogos iguais.

Os resultados eram ruins, mas pior foi não sabermos lidar com os nossos erros. Elenco e diretoria se uniram em um discurso cínico, sem nenhuma capacidade de autocrítica. Se ao menos uma vez assumissem que as coisas não estavam bem e chamassem a torcida para a missão de reeguer o time, haveria comoção.

Em vez disso, viveram de podres ilusões. A maior delas é a ideia de que o balanço econômico do Flamengo não é um meio, mas sim o objetivo mais importante do clube. O torcedor foi maltratado, acoado, e na hora das finais teve que pagar caro demais para ver um time sem futebol algum. A grana venceu a gana, definitivamente.

O Flamengo não é obrigado a vencer. Já vimos derrotas muito piores e continuamos de pé, na chuva e no sol, levando o clube em frente. A sensação geral, no entando, é de cansaço. Um ano vivido em loop, como um disco arranhado, repetindo os mesmos problemas infinitamente. Agora, a desconexão entre clube e torcida é preocupante.

O fim de ano melancólico chegou, e não foi por acaso.
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Escrevo as análises táticas do MRN porque futebol se estuda sim! De vez em quando peço licença para escrever sobre outros assuntos também. Twitter: @teofbImagem destacada no post e redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo