A torcida do Flamengo conta as horas para que o Internacional anuncie a contratação do atacante Marcelo Cirino. No final de 2014, a torcida também contou as horas, nesse caso para que a contratação do atacante, então considerado uma das maiores revelações e jogadores mais cobiçados do futebol brasileiro, fosse anunciado a tempo de não descumprir as normas da Fifa que proibiam investidores de deterem parte dos direitos econômicos dos jogadores, que entraria em vigor no início de 2015.

O caso de Cirino, de jogador que chega sob festa ou expectativa e sai pela porta dos fundos, está muito longe de ser inédito na história do Flamengo. O MRN lembra dez dos principais casos:

1- Jair Rosa Pinto

Jair, à direita, com Zizinho e Pirilo

“Jajá da Barra Mansa” é um dos grandes jogadores do futebol brasileiro do período anterior à conquista do primeiro Mundial, na Suécia. Ele fazia parte do Experesso da Vitória do Vasco, que foi campeão carioca invicto em 1945, interrompendo os planos rubro-negros de conquistar o tetracampeonato. Em 1947, insatisfeito em Sâo Januário, Jair veio para a Gávea. Em dois anos, fez 87 jogos e 62 gols pelo Flamengo, mas não conquistou nenhum título. Após uma derrota por 5×2 para o Vasco, foi acusado pelo radialista Ari Barroso de ter aceitado suborno do Vasco para fazer corpo mole. A torcida, revoltada, queimou a camisa de Jair, e a diretoria não teve opção a não ser se desfazer do jogador. No Palmeiras, ele conquistou o Campeonato Paulista de 1950, o Rio-SP de 1951 e a Copa Rio de 1951 – torneio amistoso que hoje os palmeirenses dizem que foi o primeiro Mundial. Ele também fez parte da seleção vice-campeã do mundo em 1950, e foi companheiro de Pelé no início da carreira do Rei do Futebol no Santos. Mas sua saída turbulenta do Flamengo ficou marcada para sempre.

2- Garrincha

Então com 35 anos, Garrincha já estava em fim de carreira e longe de ser o jogador que ganhou “sozinho” a Copa do Mundo em 1962 quando foi surpreendente anunciado como contratação do Flamengo em 1968. Extremamente identificado com o Botafogo, a passagem pelo maior rival era um acontecimento – embora o registro histórico indique que Garrincha sempre torceu para o Flamengo. A sua estreia atraiu tanta atenção que até Pelé esteve nas arquibancadas do Maracanã para ver o clássico contra o Vasco, no qual Garrincha estreou — com derrota — em novembro de 1968. Enfrentando sérios problemas com a bebida e dificuldades para entrar em forma, Garrincha teve uma passagem curta pelo Flamengo. com 20 jogos e 4 gols.

— Não há como falar bem da passagem de Garrincha pelo Flamengo. O organismo dele sofria muito com os problemas com a bebida e isso comprometeu o seu futebol . Além disso, sua condição física estava muito ruim para quem tinha nas arrancadas a melhor qualidade. Estava como um limão sugado — disse o falecido comentarista esportivo Luís Mendes em 2007.

O atacante decidiu se aposentar, mas dois anos depois tentou voltar aos campos pelo Olaria, também sem sucesso.

3- Sócrates

No papel, a ideia não poderia ser melhor. Unir no mesmo clube os dois gênios da geração que encantou o mundo na Copa de 1982. A nação não poderia pensar diferente, e fez uma grande festa quando o Flamengo anunciou a contratação do ex-corintiano Sócrates, então na Fiorentina, para se unir a Zico – mesmo que o Galinho ainda estivesse em fase de recuperação da grave lesão de joelho causada pelo banguense Márcio Nunes. O livro “Sócrates”, de Tom Cardoso, narra assim a recepção do Doutor no Flamengo: “Depois de receber Zico, meses antes, vindo de Udine, a torcida do Flamengo preparou-se para festejar a chegada de Sócrates. Cinco garrafas de cachaça foram providenciadas e o refrão, ao ritmo da bateria mirim da Mangueira, ensaiado: Entornar é viver/Doutor, vou beber com você. Sócrates desembarcou no Rio às sete horas da manhã do dia 13 de setembro de 1985. Dispensou os goles de cachaça, foi lacônico com os repórteres e aceitou de bate-pronto o convite de Zico, que o esperava no Galeão, para participar com os amigos de um sambão no Oba-Oba,a boate de Oswaldo Sargentelli.” A dupla que começou afinada fora de campo só jogou uma partida pelo Flamengo: a reestreia de Zico, num inesquecível 4×1 no Fluminense. Sócrates viveu de lampejos e foi muito criticado durante sua passagem na Gávea. Quando ele foi convocado para a Copa de 1986, Zizinho, ídolo rubro-negro e vice-campeão do mundo em 1950, ironizou e sugeriu que fossem convocados ele — então com 64 anos — e Pelé — com 45 –, que estariam em melhor forma física que o Doutor. A “Tribuna da Imprensa” disse que Sócrates tinha “o melhor emprego do mundo” e publicou o seguinte poema em homenagem ao “jogador-doutor”

“Hora de comer – comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de beber – beber!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?
Pernas pro ar que ninguém e de ferro.”

Sempre às voltas com lesões e convocações para a seleção, Sócrates jogou só 20 partidas pelo Flamengo, marcando 5 gols. O fim da passagem foi descrito da seguinte maneira pelo próprio Sócrates:

— Resolvi expor minhas muitas limitações físicas à comissão técnica. A resposta à minha honestidade foi ser afastado do time titular. Resisti a essa arbitrariedade por alguns jogos, sendo que sempre que entrava em campo conseguia melhorar o desempenho da equipe. Mas para tudo há limite, e na estreia do Carioca de 1987 decidi interpelar o treinador questionando o que ele entendia por justiça, Como não recebi resposta, resolvi naquele instante deixar o futebol. No dia seguinte, ao sair do campo de treinamento na Gávea, peguei a chuteira e a joguei na lixeira ao lado do gramado.

Nos dias seguintes, o jogador-doutor virou só doutor — assumiu imediatamente uma residência médica no Hospital Universitário da UFRJ, antes de ensaiar uma volta aos gramados pelo Santos.

4- Claudio Borghi

“É ponta de lança, como Zico, mas goleador”. Foi desta maneira insólita que o jornal “O Globo” descreveu o argentino Claudio Borghi, anunciado pelo Flamengo no fim de 1989 como futuro substituto do Galinho, que já planejava para o fim daquele ano de 1989 a sua aposentadoria. A torcida pareceu acreditar na descrição. Numa espécie de AeroFla da época, Borghi foi recebido no Galeão ao som do grito que era entoado para o maior craque da história rubro-negra: “Ei ei ei, o Borghi é nosso rei”. Foi tão bem recebido que seguiu para a Gávea no ônibus de uma torcida organizada. Campeão da Libertadores pelo modesto Argentinos Juniors em 1985 e mundial pela Argentina em 1986, Borghi naufragou no Flamengo. Disputou apenas seis partidas, não marcou nenhum gol e é até hoje tido como uma das piores contratações da história do clube. Dono do próprio passe, o argentino se desligou do Flamengo no fim daquele ano e foi jogar no Independiente. Anos depois, fez sucesso no Colo-Colo, e virou ídolo como jogador e treinador no futebol chileno. No Brasil, virou sinônimo de “bonde” importado.

5- Edmundo

No início do ano, o Flamengo havia surpreendido o mundo ao contratar o então melhor jogador de futebol do planeta, Romário. Ninguém imaginava que o clube pudesse fazer outra contratação tão impactante na mesma temporada, mas, no desespero para conseguir um troféu no ano do centenário, o então presidente Kleber Leite dobrou a aposta e foi atrás de outro grande atacante formado no Vasco: Edmundo, então grande destaque do bicampeão brasileiro Palmeiras. A “engenharia financeira” para contratar o Animal rendeu dores de cabeça até o ano passado: o Flamengo enfim fechou um acordo milionário para pagar uma dívida ao Consórcio Plaza, que emprestou o dinheiro para a compra do atacante em troca da construção de um shopping na Gávea – que nunca aconteceu por falta de licenças das autoridades. Dentro de campo, Edmundo também não deixou saudades: o trio que ele formou com Romário e Sávio ganhou o apelido de “pior ataque do mundo” da imprensa e das torcidas adversárias. As cenas mais marcantes do Animal com a camisa do Flamengo não envolvem a bola: o nocaute que ele levou de Zandona, do Vélez Sarsfield, na disputa da Supercopa, e o gesto obsceno que fez para a torcida do Vasco num clássico. Ele ainda era atleta do Flamengo quando se envolveu no acidente automobilístico no qual três pessoas morreram. Acabou emprestado para o Corinthians e, meses depois, foi vendido para o Vasco. Em São Januário, foi carrasco do Flamengo em clássicos que não deixam boas lembranças na torcida rubro-negra e chegou, em 1997, a bater um recorde de duas décadas na artilharia do Campeonato Brasileiro. No conjunto da obra, forte concorrente a pior contratação da história do Flamengo.

6- Bebeto

A saída de Bebeto para o Vasco foi uma traição que doeu na alma rubro-negra. Porém, muitos rubro-negros souberam perdoar e receberam com expectativa, sete anos depois, o retorno do agora campeão mundial, para reeditar no clube a dupla com Romário, numa outra tentativa de Kleber Leite de montar o ataque dos sonhos. A realidade, de novo, foi bem diferente. Romário saiu para o Valencia antes de Bebeto estrear — acabou voltando ainda no mesmo ano, mas se contundiu na reestreia, com a reedição da dupla do tetra da seleção ficando somente no papel. Bebeto nunca exibiu uma sombra do seu melhor futebol, e o time rubro-negro acumulou fiascos, como uma série de goleadas que incluiu um 4×0 para o Vasco de Edmundo. A segunda passagem de Bebeto pela Gávea acabou sem deixar saudades. O atacante acabou indo jogar no Botafogo, onde conquistou o Rio-SP de 1998 e foi vice da Copa do Brasil no ano seguinte, disputando mais uma Copa do Mundo como titular – desta vez acabando com o vice.

7- Denílson

O ano de 2000 foi marcado pela montagem de um supertime que não deu resultado dentro de campo, financiado pela ISL, que fechou uma parceria milionária com o Flamengo que acabou em fracasso dentro de campo e suspeitas e impeachment do presidente Edmundo dos Santos Silva fora dele. O grande símbolo desse fiasco talvez seja Denílson. Negociado para o Bétis em 1997 na transação mais cara da história do futebol brasileiro, presente na campanha do vice-campeonato mundial com a seleção em 1998, Denílson veio a Brasil por um empréstimo de seis meses que custou a fábula de US$ 4 milhões. Não rendeu dentro de campo, acabou na reserva, o negócio virou disputa judicial entre Flamengo e Bétis, e o Flamengo sequer se classificou entre os 12 primeiros que passavam de fase na Copa João Havelange, Brasileiro daquele ano. Ao lado de Alex, Denílson foi a primeira grande contratação rubro-negra a abandonar o barco ainda no fim de 2000. Depois disso, nunca foi o craque que ameaçou ser no início da carreira, mas participou da campanha que levou o Brasil ao pentacampeonato mundial em 2002. E dez anos depois, ele ainda cobrava a dívida do clube com ele na imprensa:

– Não vou falar o que eu penso do Flamengo porque eu não quero ser processado. Tenho uma dívida com o Flamengo e desde 2000 nós temos conversado para resolver. Nunca entrei na Justiça e sempre tentei resolver da melhor maneira. Mas aí você vê jogadores sendo contratados, sendo pagos e nada do seu problema ser resolvido. Não entro na Justiça porque o futebol dá voltas. Um dia eu posso precisar deles, virar um empresário, colocar um jogador lá e não sabemos o que vai acontecer. O Flamengo não serve de exemplo para ninguém. Iria ajudar muito se o Flamengo me pagasse. A minha filha acabou de nascer e eu preciso comprar leite para ela.

8 – Vampeta

Em retrospectiva, o negócio parece absurdo. O Flamengo se desfez de um jogador do nível de Adriano, e ainda incluiu outro promissor atacante, Reinaldo, no negócio, além de pagar US$ 5 milhões, para contratar um jogador mediano como Vampeta. Na época, porém, o negócio pareceu interessante: Vampeta vivia sua melhor fase na seleção brasileira, tendo inclusive recentemente marcado dois gols contra a Argentina na mesma partida. No Flamengo, ele disputou apenas 16 partidas e marcou somente um gol, enquanto o time fez seu pior Campeonato Brasileiro da história – só se salvou do rebaixamento na última rodada com uma vitória contra o Palmeiras. No ano seguinte, foi emprestado para o Corinthians, no qual conquistou o Rio-SP e foi vice-campeão brasileiro, além de integrar o grupo da seleção pentacampeã mundial. Pior, enquanto estava emprestado, cunhou uma frase que dói até hoje na alma dos rubro-negros para explicar seu fracasso na Gávea:

— Eles fingiam que me pagavam e eu fingia que jogava — afirmou.

9- Deivid

Após ser campeão brasileiro em 2009, o Flamengo vivia um inferno astral em 2010. Derrota pro Botafogo após o tri Estadual, eliminação na Libertadores, prisão de Bruno, Pet afastado, Adriano deixando o clube. No último dia da janela europeia, porém, Zico, então diretor de Futebol, parecia ter feito um gol de placa como o dos tempos que era jogador: contratou, de uma só vez, o promissor Diogo e o artilheiro Deivid, dois reforços tidos como certeiros. Diogo mal se firmou no time titular e saiu logo no fim do ano. Deivid ficou na Gávea até 2012, fez até um bom Brasileiro em 2011, mas ficou marcado mesmo pelo incrível gol perdido contra o Vasco na semifinal da Taça Guanabara — que pôs fim a uma escrita de mais de uma década sem perder em jogos decisivos para o clube de São Januário — e o processo que moveu contra o clube para receber direitos de imagem atrasados enquanto ainda era jogador rubro-negro. Foi liberado no meio do Campeonato Brasileiro de 2012 sem deixar saudade.

10 – Carlos Eduardo

Não à toa Carlos Eduardo é o número 10 desta lista: o ex-gremista recebeu o manto autografado de Zico numa espécie de passagem de bastão nos seus primeiros dias na Gávea. Mesmo vindo de dois anos difíceis por conta de uma lesão no joelho, Carlos Eduardo chegou sob expectativa e foi alvo de um leilão com Santos e Fluminense. Após um mau início, até abriu mão da camisa 10 e passou a usar o número 20. Foi titular na conquista da Copa do Brasil e até marcou um gol que acabou sendo fundamental contra o Cruzeiro — o seu único em um ano e meio de clube — mas era constantemente vaiado pela torcida, principalmente após o vazamento que mostrou que ele recebia mais de R$ 500 mil mensais num momento de penúria financeira do clube. O técnico Jayme de Almeida, grande defensor do meia, acabou desistindo dele depois de um lance em que ele virou as costas para a jogada ainda em andamento, que acabou em gol de Hernane. Carlos Eduardo passou os últimos meses de sua passagem pelo Flamengo recebendo seu meio milhão mensal sem jogar.

 
 
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