Remador paralímpico de Duque de Caxias é convocado para o mundial Indoor e fala ao MRN Informação sobre aspectos importantes que o levaram ao topo

Mariana Sá (@mastagirl) Luiza Sá (@luizasaribeiro) Thiago Huriel (@Thi_Huriel)

O Flamengo terá um representante paralímpico de remo no Mundial Indoor que irá ocorrer nos Estados Unidos no dia 26 de fevereiro. Michel Gomes terá a oportunidade de concorrer na categoria de troncos e braços (TA) – que na última edição recebeu mais de 2 mil remadores no mundo inteiro, com idades entre 14 e 94 anos – pela seleção brasileira. O treinador do Michel, Franquilin Oliveira, ressalta a capacidade do atleta, afirma que ele conseguiu quebrar o recorde nos treinamentos e acredita que está preparado para a competição.

Michel Gomes e seu técnico Franquilin: Apoio, amizade e superação

Michel Gomes e seu técnico Franquilin Oliveira: Apoio, amizade e superação (Foto: Site Oficial)

O remo é o esporte mais novo a entrar no quadro da paralimpíada. O nome da modalidade é remo adaptável, o que sugere que o barco seria adaptado a deficiência de cada atleta, mas, na verdade, é adaptado a cada categoria – braços e ombros (AS), tronco e braços (TA) e pernas, troncos e braços (LTA).

A categoria TA é para remadores que possuem mobilidade de troncos e braços e impossibilidade da utilização dos membros inferiores, o que não permite o uso do acento deslizante. Além disso, os remadores têm um prejuízo neurológico equivalente a uma lesão completa na medula. As corridas são realizadas em um percurso de 1000 metros.

A equipe do MRN entrevistou Michel e ele explicou seu treinamento. “Geralmente eu chego 6 horas da manhã, vou até o Franquilin e ele me passa o treino do dia. Treino 16 km na água, mas por conta do campeonato (CRASH-B), estou focado no treino ergômetro, fazendo sempre os tiros e o treino de mil metros para alcançar o índice do campeonato.”

O técnico ainda completou: “ele já quebrou o recorde mundial no treino e estamos rezando pra que ele consiga fazer melhor ainda lá e levar esse caneco. Estamos trabalhando pra isso. Tem uma variabilidade de treinos, como o de tiro e o de remo longo, e focamos no ergômetro, então a água acabou não sendo a prioridade no momento, justamente para alcançar esse objetivo que tanto queremos. Ganhar e bater o recorde.”.


Uma lição de vida

Michel Gomes teve poliomielite e sequelas na perna direita durante a infância, mas esse problema não faz com que o atleta desista, acorda 3h30 da manhã para treinar com maior astral. Além de ser atleta de remo, ele é mecânico de caminhão, faz plantão para as empresas e vira a noite. “Tenho total confiança nele e se Deus quiser irá conquistar um caneco para seleção brasileira e se for com recorde, melhor ainda,” reconheceu o treinador Franquilin.

Para os que têm dificuldades, mas correm atrás de seus sonhos, Michel diz: “Tenha fé sempre em Deus, lute pelo teu sonho e nunca desista do seu objetivo. O que você acha que nunca pode acontecer pode vir a se tornar realidade.”.

O remo no Flamengo

Michel diz que a sensação de ser atleta do Flamengo é maravilhosa, já que sempre foi torcedor.  “Pra mim é maravilhoso representar esse clube, essa nação e esses torcedores. Eu agradeço muito por fazer parte desse elenco do Flamengo.”

Sobre as condições de trabalho dentro do clube, ele só tem elogios. “São ótimas. Agradeço pela oportunidade que o clube tem me dado, pelo investimento que tem feito em mim, que sei que não é pouco. Ao Franquilin por estar sempre me treinando e se dedicando, ao Edson e ao Gerson, o vice-presidente do remo. Agradeço muito porque se não fosse essa estrutura eu não estaria e não teria condições de estar no nível que treino hoje. Agradeço muito ao Clube de Regatas do Flamengo por tudo que tem feito por mim.”

A importância do treinador

A relação com o treinador vai do profissional, “ele tem idade pra ser meu irmão, mas considero como se fosse um pai. Não só pelo remo, mas por tudo que ele representa, porque foi o cara que estendeu as mãos para mim quando eu comecei, que sempre me surpreende com várias situações no dia a dia. Quando eu sento e a gente conversa, eu sei que ele não tem nada a ver com aquela situação, mas sempre tem uma palavra pra me dar, ele sempre fez parte da minha vida em vários sentidos. Eu o vejo hoje como parte da minha família porque ele torce mais por mim do que muitos familiares […] é como se ele tivesse dentro daquele barco comigo.”.

Sobre toda a ajuda e as oportunidades, Michel acrescenta: “se eu hoje tenho um passaporte e fui avaliado na Itália foi porque ele buscou os conhecimentos dele e fez com que tivessem os exames, porque eu não tinha condições no momento pra correr atrás e nem sabia por onde começar. Ele foi lá e correu atrás pra mim, resolveu tudo, agora por último ele foi atrás do visto, porque pra algumas pessoas parece ser uma coisa tão fácil, mas pra mim, que to começando agora, é muito difícil e ele foi lá, deu entrada, se comunicou com um conhecido e abriu as portas de uma maneira que eu só tenho a agradecer. Eu agradeço a Deus todo dia por tudo que ele tem feito por mim e eu espero estar sempre representando e dando o meu melhor.”

“É até difícil encontrar palavras pra dizer a importância que ele tem na minha vida. É um cara que eu conheço a pouco tempo, mas que tem uma história muito grande na minha vida.” Ele completa.

Rio 2016 e Mobilidade

Para Michel, o fato de disputar em casa e com o torcedor apoiando torna tudo mais fácil. Porém, ainda há muito que melhorar no Rio de Janeiro em relação à acessibilidade para atletas e cidadãos. Ainda é muito difícil se locomover por conta dos acessos e da falta de educação das pessoas.

“Eu pego três conduções por dia, eu venho de Caxias até São Cristóvão e é um inferno porque muitas pessoas sentam no acento de prioridade e não dão prioridade pra quem precisa. As pessoas fingem até que estão dormindo quando a gente precisa do acento e eles estão lá sentados. Então eu acho que isso tem que fazer parte da nossa educação, tem que ter uma divulgação melhor pra que aquelas pessoas que tem o direito realmente possam usar e usufruir daqueles direitos que tem. Isso não é só no ônibus, não é só no trem. Nos estacionamentos públicos, nos shoppings, volto a falar, estamos engatinhando ainda nessa situação.”

Mundial Indoor

Já para o Mundial Indoor, as expectativas são as melhores possíveis. Os bons resultados nos treinos são animadores e Michel está focado e empenhado. “Nós estamos muito confiantes e otimistas com todo esse treino que ele vem fazendo aqui. Isso leva a crer que se tudo der certo a gente tem tudo pra trazer esse caneco, porque o treino fala tudo, se ele mantiver a calma, continuar com essa humildade dele e fazer o que é pra fazer, com certeza vai dar tudo certo,” diz Franquilin.

 

SRN!