Por Talita Nunes

 

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Em entrevista ao Mundo Rubro-Negro, Bárbara Timo, judoca do Mais Querido e da seleção brasileira, conta um pouco de sua trajetória até aqui, rotina e planos para o futuro.

Talita Nunes: Bárbara, como foi o seu início no judô? Foi escolha própria ou influência dos pais, e com que idade isso aconteceu?

Bárbara Timo: Eu comecei aos 8 anos, primeiro eu fazia ginástica olímpica, mas por conta dos muitos impactos eu já sentia incômodos no joelho, e isso me levou a ter que largar a ginástica. Com isso meu padrasto, que eu considero pai, já tinha feito judô e me deu a ideia de conhecer o esporte. E desde o primeiro momento eu adorei. Você consegue fazer amigos muito rápido por conta dos treinamentos com diversos atletas, e assim eu me apaixonei pelo esporte e comecei numa academia perto de casa.

T: Há quanto tempo você é atleta do Flamengo?

B: Aos 12 anos eu vim pro Flamengo mas com 15, 16 fui pra outros lugares e em 2012 retornei pro clube. Então somando as duas passagens dá uns 6 anos.


T: Como chegou aqui?

B: No judô a gente não tem muito essa história de empresário, alguém pra te encaminhar. Eu me matriculei numa escola pública aqui em frente, e um dia minha mãe e eu tivemos a ideia de ver como era a escolinha do Flamengo. Quando eu vim, eles gostaram muito da minha altura, na época eu estava com 12 anos e já tinha 1,65m, era bem grande e forte, e hoje eu tenho 1,68, não mudou muita coisa. Gostaram e me incluíram aqui, foi de primeira.

T: Como é a rotina de uma judoca?

B: Não é nada facil. Quando eu estou no Flamengo e em casa, faço faculdade 3 vezes por semana e às vezes faço mais de 3 treinos por dia. Normalmente eu saio de casa às 7 da manhã e chego por volta das 22 horas. E nisso eu intercalo as aulas, treino técnico, físico, fisioterapia, temos psicólogo também, que se encaixa na rotina também, e a nutricionista. Praticamente o dia inteiro ligada ao judô. E na seleção a gente viaja muito e a rotina é treinar, dormir, treinar e descansar.

T: E na véspera das competições, o que muda cronograma dos treinos e na alimentação?

B: Muda o treino, na semana da competição a gente já precisa mudar um pouco o foco. Eles já não ficam tão intensos, a gente não faz tanta luta pra diminuir as chances de lesão, as vezes ficamos muito estressados e ansiosos e por algum descuido alguma contusão pode acontecer. E no dia que precede a competição, cada atleta tem sua rotina. Eu procuro relaxar, quando eu descubro minhas adversárias eu procuro estudar, ver alguns vídeos delas. É mais ou menos por aí. Procuro me concentrar, bato um papo com o psicólogo pra focar mais, saber os momentos certos pra usar a adrenalina e tudo mais.

A maioria dos atletas perde peso para ficar dentro do permitido para a categoria, eu mesmo já perdi muito peso. Era da categoria dos meio-médios(até 63 kg), perdia 6, 7 quilos em 1 mês. Era sempre muito desgastante, e então eu resolvi subir a categoria. Hoje estou nos médios(até 70 kg) e não preciso mais perder tanto peso, minha dieta não precisa mudar muito. Só faço uma pequena restrição com relação a alguns alimentos e consigo bater o peso com tranquilidade.

T: Em relação à estrutura do Flamengo, desde que você chegou ao clube, o que você acha que mudou?

B: Mudou! Em 2012 mudou a presidência e a diretoria, e muitas coisas mudaram com isso. A sala de musculação, que antes era muito ruim e realmente não nos dava condições de ter uma preparação física descente, hoje está entre as mais tops, comparada às que eu já visitei no Brasil e no mundo. Agora nós temos a nossa sala de dojo, e embora ainda não tenhamos visto como vai ficar, só de saber que tem ar condicionado, está sendo feito um tablado, e que dobrou no tamanho, temos certeza que ficará muito boa.

T: Na sua opinião, com essa presidência, o judô e outros esportes olímpicos receberam uma atenção maior?

B: Sim, porque eu acho que eles buscaram a independência dos esportes olímpicos. Por um lado foi um choque, pois no começo foi bem difícil, mas agora estamos colhendo os frutos.

T: Nos últimos anos, é notório que o judô feminino obteve melhores resultados do que o masculino. Como você enxerga futuramente o judô no Brasil?

B: O judô masculino também é muito bom e não acho que tenha tanta diferença. As duas categorias são muito boas, mas acho que terá uma mudança após as Olimpíadas, e a gente não sabe o que vai acontecer. Esse é o principal medo dos atletas de alto rendimento, porque hoje temos toda a estrutura financeira para treinar, mas depois de 2016 não sei como será o investimento pro feminino e pro masculino, nem qual vai ser o legado. Eu espero que continue assim, mas acho que no geral, a maioria dos atletas têm dúvidas sobre o que vai acontecer.

T: Você acha que após 2016, vão melhorar ou piorar as condições pros atletas Olímpicos?

B: O histórico de todas as Olimpíadas é de que quando acaba o torneio, diminuem os investimentos de um modo geral, mas isso é uma coisa óbvia. Se as Olimpíadas são no Brasil, aqui no Rio, é preciso investir pra gerar resultados, pois o foco é aqui. Depois eu não sei o que pode acontecer, mas espero que continue, e que essa base que estão construindo permaneça e evolua. Mas o que todos acreditam é que uma nuvem negra vai pairar sobre esses esportes.

T: Falando sobre patrocínio para o judô, sendo aqui o “País do Futebol”, quais são as dificuldades que você costuma enfrentar?

B: Entre o judô e o futebol não há comparação. Até mesmo os atletas mais top de judô do Brasil e do mundo não chegam nem perto do que ganha um jogador de futebol, que eu acho que é um salário surreal para o país. Mas no geral, comparando a outros esportes está muito bom. Atualmente, por causa das Olimpíadas, o cenário está mais propício para conseguir patrocínio, no caso dos atletas de alto rendimento, mas ainda faltam por parte de empresas, porque conseguimos mais por clubes ou pelo governo, que é nosso maior incentivo. Eu por exemplo, sou 3a Sargenta da Marinha, então estou neste ciclo, mas patrocínio por fora é muito difícil, a não ser que seja um atleta muito renomado.

T: Sendo 3a Sargenta da Marinha, você têm recebido uma atenção maior do governo, ou realmente ele está apoiando na preparação para as Olimpíadas em outras modalidades?

B: Nós temos o “bolsa atleta” a cerca de 10 anos, não sei exatamente. Me ajudou sempre. Se você é o terceiro no brasileiro, se vai para a seleção de base e for bem internacionalmente você tem direito. Hoje eu ganho “bolsa pódio” que é para os atletas que possuem chances de ir às Olimpíadas e brigar por medalha, mas isso é apenas até 2016, depois eu acho que voltaremos a receber o “bolsa atleta”.

T: Para encerrar, quais são seus planos para o futuro?

B: O meu agora são as Olimpíadas. Não é nem o futuro. É algo que eu penso quando eu acordo, a cada treino em que estou desanimada ou muito animada, eu penso que é para a competição, para minha evolução, e o caminho é muito difícil. Hoje eu estou disputando a vaga com a Maria Portela, do SOGIPA (Sociedade de Ginástica Porto Alegre), e cada competição é uma guerra para buscar pontos para garantir classificação pros jogos.