Quarenta e quatro anos entre duas vitórias por um a zero. O gol construído por um Everton e concretizado por outro, no sábado, fez o Flamengo voltar a vencer em São Januário. Se apenas seis clássicos entre Flamengo e Vasco foram realizados em São Januário entre 1973 e 2016, é de se supor que a cidade, as pessoas, as autoridades e sabe-se lá mais quem haviam compreendido que o jogo não cabia mais em um estádio que não fosse o Maracanã ou o Engenhão. E não cabe, viu-se no último sábado. Mas o que pretendo aqui é apenas relembrar alguns dos personagens e fatos da última vitória do Flamengo no campo do Vasco, antes da cabeçada de Everton Cardoso.

Dario chegou ao Rio na noite de 19 de janeiro de 1973. Recebido por uma multidão no Santos Dumont, que chegou a trancar o trânsito, ouviu do presidente André Richert que poderia sair do aeroporto anonimamente, sem passar pelos torcedores. – Doutor, o Dadá é do povo, deixa eu ser atirado na massa, disse o novo camisa 9 do Flamengo.

Atirado foi. Dadá ganhou beijos, abraços e um banho de espumante. Champanha, como se dizia à época. Só pôde seguir para a casa da sogra em Realengo quando o trânsito desafogou.

No dia seguinte, foi recebido na Gávea pelo seu companheiro de tricampeonato no México, Paulo Cézar.

Logo Dario trocou de roupa e foi para o campo participar de um dois-toques, última atividade do time que enfrentaria o Vasco no domingo, em São Januário, jogo único valendo a Taça Cidade do Rio de Janeiro, abertura oficial do futebol da temporada carioca.

O temporal que caiu sobre a cidade no domingo atrasou o jogo em quase uma hora. Nada que diminuísse a euforia da torcida do Flamengo, que explodiu quando Dario a saudou, elevando a camisa 9 em direção ao céu com as duas mãos. Do banco, em trajes sociais, Dario assistiu à exibição de gala de Paulo Cézar e do garoto Zico, que aos 17 minutos iludiu Miguel e foi aterrado nas imediações da meia lua. Paulo Cézar bateu colocado no ângulo direito, Andrada saltou em vão e São Januário virou território rubro-negro.

O Vasco estreava Amarildo, e o Possesso criou a melhor chance cruzmaltina, mas Renato espalmou no canto esquerdo. Aquela não seria a tarde de Amarildo, nem de Tostão e nem de Silva, o Batuta, estrelado trio ofensivo vascaíno, e tampouco de Gilson Nunes, Dé e Roberto Dinamite, que entraram no segundo tempo.

Aquela foi a tarde em que Dario foi um ilustre torcedor do time pelo qual faria 79 jogos e 35 gols. Foi a tarde em que Zico viu de perto um camisa 10 fazer um gol de falta e entendeu que aquela seria a sua camisa, aquela seria a sua missão, que realizaria com sucesso 47 vezes nos anos seguintes. Foi também a tarde em que o Flamengo ergueu troféus em São Januário, a Taça Cidade do Rio de Janeiro e mais os oferecidos pela Rádio Globo e pela Rede Tupi de Televisão.

Vascaínos foram embora felizes com a estreia do mundialista Amarildo, esperançosos com o garoto Roberto. Rubro-negros foram embora felizes com o gol de Paulo Cézar, esperançosos com o garoto Zico. A violência ainda não estava no horizonte. Perdíamos, ganhávamos, mas éramos todos mais felizes, domingo após domingo, separados apenas nas arquibancadas, até que o apito final nos unisse outra vez.

Flamengo 1 x 0 Vasco

21 de janeiro de 1973 – Taça Cidade do Rio de Janeiro
Estádio de São Januário – Rio de Janeiro
Árbitro: Airton Vieira de Morais, auxiliado por Neri José Proença e José Silveira
Público: 10.192 pagantes
Flamengo: Renato, Moreira, Fred, Chiquinho Pastor e Rodrigues Neto; Liminha e Paulo Cézar Lima (Chiquinho); Vicentinho (Fio), Caio, Zico e Arílson. Técnico: Joubert (interino, com Zagallo a serviço da CBD)
Vasco: Andrada, Paulo César, Miguel, Renê e Alfinete; Alcir Portela (Gaúcho) e Ademir; Jorginho Carvoeiro, Silva (Dé), Tostão (Gilson Nunes) e Amarildo (Roberto). Técnico: Mário Travaglini
Gol: Paulo Cézar Lima (falta) aos 18 do 1º tempo.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e também escreve no MRN. Siga-o no Twitter: @flapravaler


Imagem destacada no post e redes sociais: reprodução Jornal dos Sports

 


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