Na noite desta terça-feira (7/02), aconteceu a primeira reunião de moradores da Ilha do Governador para discutir a impacto dos jogos do Flamengo pelos próximos três anos. A ideia partiu da vereadora Tânia Bastos (PRB), ao ouvir demandas da população, e contou com o apoio da Superintendência da Ilha, antiga Subprefeitura, onde ocorreu o encontro, intermediado pelo recém empossado superintendente Daniel Balbi e pelo administrador regional Márcio Pimenta.



Coube a Daniel Balbi abrir a reunião dizendo que a ideia era ouvir os moradores para que houvesse, após anotações das prioridades, um esforço entre Prefeitura, clubes e demais autoridades. O diretor-geral (CEO) do Flamengo, Fred Luz, que representava o presidente Eduardo Bandeira de Mello, que não pôde comparecer, disse em sua primeira fala que o clube estava preocupado com o bem-estar dos moradores da Ilha do Governador e que a reunião era muito importante para o planejamento em dias de jogos.

Cerca de 50 moradores estavam presentes, a maioria eram síndicos(as) de condomínios próximos ao estádio Luso-Brasileiro. Também estavam presentes representantes da Guarda Municipal, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. O presidente da Lusa, João do Rêgo, não deixou de comparecer. A vereadora Tânia Bastos, que mora no bairro da Portuguesa estava no auditório. Representantes de torcidas organizadas do Flamengo também se fizeram presentes.

Os moradores começaram apontando os problemas. E eles eram muitos. Em tom de desabafo, alguns síndicos contaram como a experiência recente da Arena Botafogo tornou a vida dos moradores um inferno e as ruas no entorno do “Estádio dos Ventos Uivantes” um caos. Moradores de outros bairros da Ilha apontaram como principal problema o acesso de quem quer entrar ou sair da Ilha nos horários de jogos. Uma moradora, com uma filha acamada, que necessita de cuidados constantes, relatou que em dias de jogos do Botafogo, médicos não conseguiram chegar à sua casa. Outro morador lembrou de uma ambulância que teve dificuldades em levar um paciente ao Hospital Evandro Freire na hora do rush de torcedores.

Os relatos de flanelinhas extorquindo e ameaçando moradores foram muitos. “Eu coloco meu carro numa vaga em frente ao meu prédio há anos. Em dia de jogo era obrigado a pagar 20 reais, caso contrário meu carro poderia sofrer algum tipo de vandalismo, como os de outros vizinhos meus”, contou um antigo morador da Portuguesa. Um outro morador reclamou de churrascos e concentração de Organizadas do Botafogo, horas antes dos jogos, na Praça Elis Regina, área de lazer do bairro.

O grande número de ambulantes e a falta de limpeza após os jogos, quando toneladas de latinhas e resíduos orgânicos não eram imediatamente recolhidos também tomaram a pauta. Os casos de falta de educação eram diversos e os casos protagonizados por mijões foram realmente um capítulo completo à parte.

A violência traumatizou moradores. As ruas eram palcos de brigas constantes entre os próprios botafoguenses, saques e depredações aumentaram vertiginosamente. Muitos moradores utilizavam sua fala para verdadeiros desabafos emocionais. Uma moradora visivelmente emocionada por um incidente deixou que a raiva e o preconceito com a Maior Torcida do Mundo aflorasse: “se com o Botafogo, Fluminense foi terrível. Imaginem como o Flamengo. A Ilha não tem condições de receber esse tipo de gente”, vociferou.

O síndico de um condomínio disse que a PM, por conta de uma briga generalizada após um jogo, fez com que cerca de dois mil torcedores do Botafogo cortassem caminho por dentro do seu condomínio. O resultado no outro dia foi um prejuízo enorme para os condôminos, que contabilizaram roubos e depredações nos blocos de apartamentos. “Quem vai pagar a conta se acontecer novamente? O Flamengo?”, perguntou o administrador, com indignação.

O fato que ficou claro na reunião é que a maioria dos moradores não estavam orquestrando um veto ao Flamengo. Conversando com a maioria dos presentes constatamos, na verdade, uma preocupação natural com o bem-estar de suas famílias.

O Botafogo deixou sequelas graves. Nenhum tipo de reunião com moradores foi feito. O presidente João do Rêgo se mostrou indignado com o tratamento dado pelo clube de General Severiano: “o Botafogo não fez nada para organizar, nada. Planejamento nenhum, nem com a Polícia Militar”. O Comandante Ricardo, Diretor de Operações da Guarda Municipal, confirmou o descaso alvinegro: “nunca fui chamado para reunião nenhuma”.

A vereadora Tânia Bastos se mostrou surpresa com a repercussão negativa da reunião: “ano passado tentamos a todo custo fazer esta reunião antes da entrada do Botafogo no bairro. Infelizmente obstruções políticas ficaram à frente das demandas da população. Agora só estamos fazendo o certo e até o presidente do Flamengo se mostrou contente com a iniciativa dessa reunião. A prefeitura anterior não teve sensibilidade com os moradores, a subprefeitura da época não fez seu dever de casa. Essa reunião ocorre por uma demanda da população da Ilha”.

Depois das críticas, era a hora de se buscar algumas propostas de soluções. Um morador que trabalha como ambulante, inclusive em dias de jogos na Portuguesa, propôs que os ambulantes fossem cadastrados pela Superintendência. Um síndico de um grande condomínio vizinho ao estádio pediu que a Comlurb lavasse as ruas após os jogos, assim como é feito em ruas de feiras. O principal pedido tem relação com o acesso ao entorno: a ideia que parece mais natural é emular um pouco do plano diretor dos jogos Arena Petrobrás de 2005, quando a Portuguesa cedeu pela primeira vez o Luso-Brasileiro para jogos de grandes torcidas. Na época, diversas ruas eram fechadas e o acesso era restrito a moradores que apresentassem suas contas de luz ou água, comprovando residência. Outro fator positivo foi a presença de diretores de diversas Torcidas Organizadas, que foram unânimes em confirmar que farão exatamente tudo que o Flamengo pedir.

A questão do transporte público foi lembrado, guardando ressalvas ao fato de ser um problema acima da esfera do Flamengo, a vereadora Tânia Bastos indicou uma conversa com o Metrô para conseguir que o metrô da superfície (ônibus que estendem a viagem de passageiros na saída de algumas estações) fizesse integrações a partir de várias estações. Outro grande problema é que a Ilha está sem o serviço de Barcas. O superintendente Daniel Balbi, junto ao administrador regional Márcio Pimenta, que também acompanhou a reunião, informou que já existe um esforço para a retomada do serviço.

Em sua última fala, Fred Luz explicou aos moradores que o Flamengo fará de tudo para organizar da melhor maneira possível seus jogos e causar o menor impacto possível na Ilha, especialmente ao entorno do estádio reformado. Algumas demandas não dependem exclusivamente do Flamengo: “contarei com o apoio de todas as autoridades presentes aqui para que possamos em conjunto, trabalhando de maneira organizada”.

Arena Petrobrás: primeira vez que o Luso-Brasileiro foi usado pelo Fla, em 2005.

Arena Petrobrás: primeira vez que o Luso-Brasileiro foi usado pelo Fla, em 2005.

José Richard, presidente da Associação Comercial da Ilha também deixou um importante recado aos moradores: “queremos prolongar a estada dos torcedores na Ilha. Que ao final dos jogos ele não pegue o carro e vá embora de uma vez, contribuindo para o congestionamento da saída da Ilha. Vamos criar uma campanha, com panfletos, para que o torcedor do Flamengo visite nossa rede de restaurantes após as partidas. Será muito bom para o comércio. Conto com a ajuda do Flamengo nesta campanha, com a força do clube nas redes sociais, no site, indicando estabelecimentos.”

Ao término da reunião, muitos daqueles mais exaltados moradores, preocupados, se mostravam menos desconfiados com a chegada do Flamengo na Ilha. Um morador ressaltou que as soluções não podem ser perseguidas depois da instalação do caos, e que o planejamento de todos os entes envolvidos deve ocorrer antes do primeiro jogo do Flamengo. O grande resumo da reunião foi mesmo que a democracia ganhou uma pequena luta. E que o Flamengo pode ser mais do que um clube, quando entende e se determina a isso.

 
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