Vamos procurar entender um dos mistérios. O que faz o futebol do Flamengo ter esta mentalidade tão perdedora em comparação com o Corinthians se estruturalmente hoje seu Departamento de Futebol está organizado de forma similar com a diferença talvez relevante que lá há um supervisor técnico, o André Dias ?

O diretor de futebol, Flavio Adauto, é um jornalista que veio em 2016, e Alessandro, ex-jogador do Flamengo, inclusive, virou gerente com Tite. Ou seja, em tese, não teriam nada de especial.

A diferença também se evidencia em algo. A mentalidade vencedora pragmática que Tite consolidou no Corinthians e serve de base para os trabalhos futuros, inclusive este do Carlile. Um ex-auxiliar técnico, do próprio Tite, que virou técnico com a experiência e postura necessária para um grande time.

O Flamengo é um clube de futebol semi-profissional. Apesar de ter um diretor de futebol, o VP de Futebol, invariavelmente um dirigente amador sem qualquer experiência prévia no meio, acha por bem impor suas idéias, mesmo que estapafúrdias, para serem seguidas pelo Departamento. E como gestões se sucedem, cada VP, ou presidente, acha que pode interceder no futebol, que não tem qualquer base de filosofia de jogo ou metas competitivas. É na base do “agora vai porque mando eu”.

E o Flamengo teve o enorme azar de ter seu atual presidente, um ex-burocrata de repartição pública, achando que seus métodos de trabalho, seu pensamento organizacional, combinariam com a gestão de um departamento de futebol e implantação de filosofia similar. Como é o presidente, que para não dividir o osso ainda se tornou o VP de Futebol, esta mentalidade burocrática assolou o departamento de futebol, fazendo de 2017 até aqui, um dos anos mais vergonhosos do clube, pelo futebol apático apresentado em vários jogos que frustraram em boa parte os torcedores que esperavam por um bom ano, pelo orçamento maior, resultado da, aí sim, boa gestão administrativa.

Time que não vence os grandes, time que perde todas as partidas jogadas fora de casa. É um time pequeno dentro de um clube grande. E com elenco de bom nível, embora bastante desequilibrado e com várias falhas de montagem, a qual se pode colocar na conta da parte dita profissional do departamento, dirigida pelo Rodrigo Caetano.

O Flamengo não tem filosofia de jogo. É da responsabilidade do técnico da vez. Seja um estagiário medíocre erguido do nada da Sub-20, seja um técnico estrangeiro, seja qualquer um. Cristóvão, Oswaldo. É chegar e mudar. Não há supervisão técnica, não há um cuidado de cuidar da imagem de jogo e competitiva do clube.

Pode-se falar também que Corinthians teve a “sorte” de vir um Tite. Ok. Teve sorte mesmo. Mas o Corinthians há vários anos apresenta uma “fome competitiva” muito maior que a do Flamengo, não é a toa que agora é hepta campeão. Flamengo perdeu esta fome à partir de 1992. Os deuses e a configuração astral achou uma por acaso em 2009. Mas não há consistência. As gestões se sucedem e o problema segue permanecendo, com os políticos dirigentes amadores de fora batendo no peito e gritando que agora tem a solução. Nunca tem.

Nas derrotas vem o proselitismo político até mesmo de pessoas que tiveram lá e nada fizeram para o Flamengo se reerguer de forma competitiva. Não basta o time, o orçamento, a estrutura. São importantíssimos. Mas há de cultivar o “espírito”. E este espírito surgirá quando o clube por inteiro mostrar ter esta fome.

Esta gestão de futebol do EBM mostrou tanta ausência desta vontade, desta urgência competitiva, que serviu, ao menos, para abrir os olhos dos rubro-negros. Precisamos combater qualquer gestão que queira proteger perebas, minimizar derrotas e não ter títulos como meta principal. Não adianta por Sampaoli. Não adianta construir o CT melhor do universo.

É preciso formar o espírito e incutir em todo departamento de futebol. Colocar métricas, cobrar desempenho, classificar relevância das competições, focar em vencer, em derrotar o adversário. Não é colocando estagiários, não é contratando goleiros que não agarram pênaltis, não é tendo no Departamento preparadores grotescos. São erros inadmissíveis para dirigentes profissionais pagos pelo Flamengo para servir ao Flamengo e não a seus amigos.

Agora está aí. Estamos na dependência de mais um dirigente amador, o novo VP de futebol, para romper esta casca e, quem sabe, incutir uma mentalidade mais competitiva para a conquista da Sula e um melhor 2018. Mas será difícil fazer milagre. A mentalidade amadora subversiva do Flamengo está entranhada no clube há décadas. Não é qualquer gestão que conseguirá retirá-la, sem um processo bem definido, pessoas bem intencionadas e fortes para romper este paradigma.

Que para 2018 se deem os primeiros passos neste sentido.
 


Flávio H. de Souza escreve no Blog Pedrada Rubro-Negra. Siga-o no Twitter: @PedradaRN
 

Imagem destacada no post e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo