O ex-governador recordista de corrupção preso, o sucessor cassado pela Justiça eleitoral e investigado pela Polícia Federal ainda no cargo, a companhia de água vendida para pagar o rombo que ambos deixaram, o Maracanã abandonado, os carros alegóricos virando armadilhas mortais: a lista dos motivos pelo qual o carioca não anda podendo se orgulhar muito da Cidade Maravilhosa é grande e ocuparia esse texto inteiro se eu me alongasse.

Mas nos últimos dias, de onde menos se esperava, os cariocas deram um exemplo para o país. Os presidentes de Flamengo, Fluminense e Vasco deixaram por um momento o ganho imediato de lado e pensaram juntos no bem coletivo e resolveram unir esforços para preservar o direito inalienável do seu torcedor fazer o que sempre fez: torcer.

(Deixemos de lado a figura diminuta que ocupa a Presidência do Botafogo, que não merece nem esse parênteses.)

No último clássico entre Flamengo e Botafogo, aconteceu uma briga entre bandidos que se reúnem em torcidas organizadas, como tantas que sempre ocorrem. Um dos brigões morreu, como tantas vezes morre gente que não tem nada a ver com a briga. Não é um problema de hoje e não é fácil de resolver — ainda mais na situação extraordinária no qual a polícia reduziu seu efetivo para o clássico por conta das justas reivindicações que faz para receber a remuneração que lhe é devida.

Na tradição brasileira de sempre procurar uma solução fácil — e errada — para um problema complexo, o Ministério Público do Rio de Janeiro resolveu entrar com uma ação na Justiça para que, depois de 111 anos de torcida mista, os clássicos no Rio passassem a ter apenas uma única torcida. E um juiz decidiu acatar. Desde o primeiro momento, os presidentes de Flamengo, Vasco e Fluminense se uniram numa posição: a decisão era inaceitável e deveria ser combatida até ser revertida. Não deveria ser realizado um só clássico com uma só torcida.


E os dirigentes mantiveram essa postura independentemente de quem seria beneficiado. Primeiro o Flamengo, que se negou a enfrentar o Vasco com torcida única mesmo tendo esse direito por ter feito a melhor campanha na primeira fase. E depois o Fluminense, que adotou a mesma postura apesar de ter vencido o sorteio de mando contra o Flamengo.

Alguns jornalistas, principalmente de São Paulo, ironizaram a “várzea” do Campeonato Carioca, por não haver um palco e uma data definidos para a final da Taça Guanabara há poucos dias da partida. A “várzea”, porém, só aconteceu porque os dirigentes foram intransigentes em defesa da realização do jogo com duas torcidas.

A torcida única é uma praga que vem germinando há anos no futebol brasileiro. Começou com o fim da tradicional divisão meio a meio entre as torcidas e a imposição de pequenos percentuais para o visitante: 10%, 5%. Como a violência no futebol não tem nada a ver com a porcentagem de torcedores presentes na arquibancada, a limitação obviamente funcionou. E aí surgiram os promotores com a sua ideia de torcida única.

O Allianz Parque só com palmeirenses no estádio contra o Corinthians: clubes paulistas aceitaram medida sem chiar

Em São Paulo, sequer houve a necessidade de uma decisão judicial para que os clubes corressem para acatar uma recomendação da Secretaria de Segurança Pública, endossada pelo Ministério Público, de que os clássicos tivessem torcida única. A recomendação veio depois de uma briga entre palmeirenses e corintianos após um clássico em abril do ano passado, que deixou um morto e vários feridos.

– Toda e qualquer medida que venha no sentido de coibir a violência ligada ao futebol terá o apoio da Sociedade Esportiva Palmeiras. Porém, não adianta se iludir achando que, pelo simples fato de um clássico ter torcida única, a violência acabou- apressou-se a apoiar o então presidente palmeirense, Paulo Nobre (o que não deve causar espanto, visto que mais tarde no ano ele inclusive proibiu seus próprios torcedores de frequentarem a rua onde fica o estádio para torcer do lado de fora na reta final do Campeonato Brasileiro).

– Torcida única é horroroso, mas a morte de um torcedor é mais horroroso. Agora já que as autoridades são incompetentes para conter a violência, torcida única é uma decisão correta – apressou-se para aderir o presidente do Santos, Modesto Roma Júnior.

– É uma medida descabida um jogo com torcida única. Desrespeito ao torcedor, ao cidadão. Se eu tivesse poder para mudar, mudaria ontem – disse o presidente corintiano, Roberto de Andrade. Não há registro, porém, de que ele tenha tentado nenhuma medida judicial para reverter a decisão.

Com todos bem calminhos, a medida de torcida única foi renovada no início deste ano e já foi “normalizada” pela imprensa paulista, que não estranha mais a situação e até vê “várzea” onde há resistência.

Pois que siga a “várzea” e que os clássicos no Rio continuem acontecendo como sempre foram, com as duas torcidas, sem que a maioria de torcedores que só querem ver o seu time jogar sejam punidos pela ação de criminosos que, por acaso, torcem para aquele ou outro time, e vão cometer seus crimes podendo entrar no estádio ou não.

– A avaliação é simples: dá menos trabalho ao policiamento quando há forças equivalentes. Com forças iguais, os torcedores sentem se inibidos naturalmente. Já quando a divisão é desigual quem está ao lado da maioria sente-se mais forte e o ambiente fica naturalmente tenso. As brigas acontecem a quilômetros de distância do local do jogo. Há grupos, especialmente aqueles ligados as subsedes das torcidas organizadas, que marcam brigas pela internet. O jogo não significa nada para eles e é preciso pensar em medidas para inibi-los – disse à ESPN o tenente-coronel Gianfranco Caiafa, da PM de Minas Gerais, primeiro Estado a adotar a famigerada torcida única no Brasil, explicando porque decidiram abandonar a experiência.

Este ano, o clássico mineiro voltou a ter torcida dividida meio a meio pela primeira vez desde 2010. No Rio, a rara união entre dirigentes garantiu, ao menos por mais um jogo, que nosso futebol não entre na contramão da história. Parabéns a eles.

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Um último recado: me orgulho muito de ser filho de pai tricolor. Até por poder ser prova viva da evolução da espécie. Meu pai nunca se furtou de me levar para ver jogos do Flamengo, até contra o Fluminense, sempre na área da torcida mista. Talvez por isso o tema me seja tão caro. O recado que eu quero deixar é que, de nada adianta a luta pelo direito de torcer se não formos torcer em paz. Sem brigas, lembrando que somos adversários, não inimigos. E sem quebrar nada no Engenhão para não ter que ouvir chororô depois e para não doer no bolso do Flamengo. Que a taça venha em paz no domingo.
Rodrigo Rötzsch é jornalista e coeditor do MRN. Siga-o no Twitter: @rodrigorotzsch.
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