Ao que parece, depois de muita discussão jurídica, o Superior Tribunal Federal deve fazer a deliberação final sobre o título de Campeão Brasileiro de 1987. Polêmica a qual só um país tão confuso como o Brasil é capaz de produzir, na sua luta cega e constante de reviver e trazer à tona suas desordens do passado para tentar impedir a marcha de seu próprio futuro.

Como bem diz o ditado: o tempo julga tudo! O Brasil e o brasileiro podem estar sempre em marcha constante para revirar seu passado, tamanha sua dificuldade para se entender, e assim como suas instituições demora-se muito tempo para se debruçar em resolver suas confusões. Algumas vezes, demora tanto, que o sentido e a razão já nem mais podem ser vistos a olhos nus no contexto julgado. Este é um destes casos. Tenta-se o julgar aqui o que a história já julgou, e o resultado deste julgamento será um mero papel, com menos valor até do que o próprio papel usado de insumo.

Pouco importa o que o STF julgará sobre a CBF, o Sport Recife ou o futebol brasileiro. Nada mudará a contagem de títulos nacionais rubro-negros. Como foi colocado em anedota há tempos atrás: “preocupada com mais um barraco jurídico a enlamear o futebol brasileiro, a FIFA resolveu fazer uma pesquisa com todos os envolvidos. Enviou a cada uma das partes do imbróglio uma carta com a seguinte pergunta: Honestamente, qual é a sua opinião isenta sobre o título de campeão brasileiro de 1987 da primeira divisão de futebol reivindicado na Justiça Comum pelo Sport Club Recife? A pesquisa foi um grande fracasso. Por quê? Porque a imprensa esportiva não sabia o que era opinião isenta, a Justiça não sabia o que era futebol, e a CBF pediu maiores explicações sobre o significado do termo honestamente. Pra completar, o Flamengo não sabia o que era Sport Club Recife e nem CBF. E o Sport até agora não respondeu a carta porque ainda não sabe o que é um título de Primeira Divisão”.

Ao que realmente importa, que é o julgamento da história, apresentemos o veredicto nos três pontos abaixo:

(1) INTRODUÇÃO: o desenvolvimento evolutivo do futebol brasileiro

Nos primórdios do futebol brasileiro foram criados os Campeonatos Estaduais, gerados por um único motivo: era caro demais deslocar os times por distâncias tão grandes. Por que outros países não tem Estadual? Porque não tem dimensões continentais. Todos os países com dimensões continentais ou não tinham futebol (Estados Unidos, China, Canadá, India e Austrália) ou tinham todas as equipes de futebol concentradas em uma única região metropolitana (Rússia, Argentina e México). Ainda mais porque o futebol da época era totalmente amador, levar o Campeonato Carioca até Bangu já era uma façanha!


O primeiro embrião de competições além dos limites estaduais surgiu após a Copa do Mundo de 1950. Com a construção de maiores estádios, passou a haver uma maior força econômica para estimular jogos além dos limites de cada estado. Mas a força econômica para isto era frágil. De 1950 a 1965 foi jogado o Torneio Rio-São Paulo, e em moldes de “clube fechado”. Inicialmente eram apenas 8 clubes: Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Portuguesa de Desportos pelo lado paulista, e Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo pelo lado carioca. Depois expandiu-se a 10, entrando o Santos, e, pelo lado do Distrito Federal, primeiro o Bangu, que logo depois foi substituído pelo América. Assim foi até 1966, quando o Torneio Rio-SP não foi finalizado naquele ano, levando a uma revisão do modelo, expandindo a outras unidades federativas.

Entre 1967 e 1970 foi disputado o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou Taça de Prata. Ainda era um “clube fechado”, uma espécie de liga, sem haver 2ª divisão ou rebaixamento. A competição era restritiva, com número de participantes por estado. Em 1967, aos 10 clubes que disputavam o Rio-São Paulo foram agregados cinco participantes: Atlético Mineiro, Cruzeiro, Internacional, Grêmio e Ferroviário do Paraná. Em 1968, este último saiu e entraram Bahia e Náutico. Em 1969, foi agregado o Coritiba, e o Náutico foi substituído pelo Santa Cruz. Em 1970 o Coritiba foi substituído pelo Atlético Paranaense. O futebol brasileiro vinha construindo maturidade econômica para a construção de competições em esfera nacional.

Paralelamente a toda esta história, entre 1959 e 1968 foi jogada a Taça Brasil, competição mata-mata que reunia os campeões dos Campeonatos Estaduais realizados por todo o Brasil. Economicamente mais fortes, os campeões de Campeonato Paulista e do Campeonato Carioca entravam direto na semi-final, aguardando as eliminatórias entre as equipes dos demais estados para saber quem seriam seus adversários. O modelo de competição entre campeões estaduais foi então abandonado, só vindo a ser retomado com a criação da Copa do Brasil a partir de 1989, uma competição também eliminatória, em jogos de ida e volta, e inicialmente restrita à participação dos campeões estaduais.

De 1971 a 1986 o modelo do futebol brasileiro mudou. Deu-se fim às competições restritivas, e a ordem agora era abrigar o máximo possível de clubes. Nestes anos o torneio, agora chancelado como Campeonato Brasileiro, passou a ter mais de 40 clubes por edição. As regras de participação variavam e não estavam claramente definidas, atendendo muito mais a critérios políticos do que técnicos. A fórmula de competição mudava todo ano. O tempo de duração também, tendo o ápice sido o Campeonato Brasileiro de 1979, que afetado pelas confusões políticas que levaram à disputa de dois campeonatos no Rio de Janeiro naquele ano, teve um recorde de 94 participantes, mas com a duração mais curta dentre todas as edições, disputado em apenas três meses. E embora tenham havido torneios de Segunda Divisão neste período, ascensão e rebaixamento eram caixinhas de surpresa, sem um critério técnico e objetivo claramente determinado. O desempenho estava vinculado à participação no Campeonato Estadual, e não no Campeonato Brasileiro do ano anterior.

O modelo era amplamente abrangente e economicamente inviável para os grandes clubes. Assim chegou-se a um novo ponto de inflexão e turbulência política: 1987. Foi fundada uma “nova liga”, o Clube dos 13, composto por Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Bahia. Eles romperam com a CBF e organizaram seu torneio próprio, a Copa União, para a qual foram convidados outros três clubes: Coritiba, Goiás e Santa Cruz. O clube restritivo agora tinha dezesseis agremiações, e se pretendia que fosse um grupo fechado, ao estilo das grandes ligas profissionais dos Estados Unidos (como a NBA, a NFL, a MLB e a NHL), e aos moldes do que o Brasil havia experimentado com o Torneio Rio-São Paulo e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. A proposta era de que nos anos seguintes a competição tivesse sempre 16 clubes. Não haveria ascenso ou descenso.

A Copa União de 1988, no entanto, marcou um modelo de reaproximação: nem a liga restrita a 16, nem o modelo de mais de 50 participantes pré-1986. O torneio teve inicialmente 24 clubes, tendo posteriormente sido gradativamente reduzido a 20. Só a partir de então, posteriormente a 1988 portanto, é que faz algum sentido se falar seriamente sobre Série B no Brasil. A partir de então o modelo do futebol brasileiro esteve mais estável, com um ponto de inflexão seguinte só ocorrendo com a instauração do campeonato por pontos corridos, a partir de 2003.

(2) DESENVOLVIMENTO: Amadorismo vs Profissionalismo, outro caso julgado pela história

Para ilustrar este outro julgamento, vamos nos debruçar sobre o caso do Rio de Janeiro. Poderíamos nos debruçar também sobre São Paulo, onde o resultado do julgamento histórico foi praticamente o mesmo. Mas o caso do Rio é mais simbólico porque nos tempos que se deram os fatos, a cidade era o Distrito Federal. Era uma cidade-estado.

Em 1933 houve dois Campeonatos Cariocas, o da AMEA (mantendo o amadorismo) e o da recém-criada Liga Carioca (LCF) sob um regime de remuneração dos jogadores. A Liga Carioca reunia seis clubes: Flamengo, Fluminense, Vasco, América, Bangu e Bonsucesso. No campeonato amador estavam Botafogo, Olaria, Andaraí, Carioca, Brasil e cinco clubes que não haviam jogado o campeonato de 1932 (Mavílis, Cocotá, Confiança, Engenho de Dentro e River). Permaneceu-se havendo dois campeonatos de 1933 a 1936. Até que em 1937 o futebol carioca se reunificou, voltando a ter um torneio único, que reuniu sete clubes que estavam na AMEA no ano anterior (Botafogo, Vasco, Bangu, São Cristóvão, Olaria, Madureira e Andaraí) e cinco dos seis que formavam a LCF (Flamengo, Fluminense, América, Bonsucesso e Portuguesa). Pouco depois desta reunificação, o futebol carioca cairia num modelo de campeonato de clube fechado (aos moldes do que anos depois acabou instituído nas ligas profissionais dos EUA, já citadas anteriormente), então o número se estabeleceria em 12, que a partir de então foram, durante muitos anos, sempre os mesmos. O seleto grupo de clubes que jogou o Campeonato Carioca dos anos 1940 até 1977 era formado por Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, América, Bangu, São Cristóvão, Madureira, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa e Canto do Rio, este último substituído a partir de 1964 pelo Campo Grande. Um clubinho seleto e fechado, sem mudanças. Diferente do muito mais rico Estado de São Paulo, que tinha 2ª divisão, com clubes subindo e descendo à 1ª divisão todo ano. E em essência, só Rio e Sampa tinham força econômica para alavancar o futebol profissional no Brasil.

Como a história julgou o caso Amadorismo vs Profissionalismo no futebol do Rio de Janeiro dos Anos 1930? Veredicto inquestionável: ganho de causa ao profissionalismo! Resultado: 10 x 2.

Aos fatos: dos 10 clubes que jogaram o campeonato amador de 1933, só dois deles disputaram uma edição do Campeonato Carioca no século 21: Botafogo e Olaria (só 20% dos envolvidos resistiu ao teste do tempo); enquanto isso, dos 6 clubes que disputaram o campeonato profissional de 1933, todos os seis disputaram edições do Campeonato Carioca no século 21 (100%).

(3) CONCLUSÃO: Julgamento da História sobre a Copa União de 1987

Dadas as razões expostas na Introdução, e os fatos apresentados no Desenvolvimento, chegamos à exposição da Conclusão. Não há o mesmo tempo passado que no caso Amadorismo vs Profissionalismo, mas há 30 anos de história para ser avaliado, o que é plenamente suficiente para a conclusão e o veredicto final do Julgamento da História.

Vamos comparar a situação dos 16 clubes que jogaram o Módulo Verde em 1987 com a situação destes no futebol brasileiro trinta anos depois,em 2017. Faremos o mesmo com os 16 clubes que jogaram o Módulo Amarelo naquela oportunidade, comparando a situação dos mesmos no cenário nacional em 2017. O veredicto é límpido, claro e transparente! O julgamento pela história já ocorreu e já se encerrou. Acompanhe ou não a História, o resultado do STF será inócuo. Dele não sairá absolutamente nada de valor.

Em 1987 eram 16 clubes no Módulo Verde. Destes clubes, treze deles estavam na Série A em 2017, e três estavam na Série B do Brasileiro (Internacional, Goiás e Santa Cruz). Um resultado, portanto, de 13/16, ou seja, 81,25% favorável.

Dos 16 clubes que jogaram o Módulo Amarelo em 1987, a situação deles após trinta anos era a seguinte: Atlético Goianiense, Atlético Paranaense, Sport e Vitória estavam na Série A do Brasileiro, Ceará, Criciúma, Guarani e Náutico estavam na Série B do Brasileiro, CSA e Joinville estavam na Série C do Brasileiro, o Bangu na Série D, e os cinco demais não disputavam nenhum divisão nacional, estando: América na Série B do Rio de Janeiro, Portuguesa de Desportos na Série B de São Paulo, Inter de Limeira na Série C de São Paulo, Treze na Série A da Paraíba e o Rio Branco na Série A do Espírito Santo. Portanto, um resultado 4/16, ou seja, 25%.

Veredicto claro, com um resultado 13 x 4. O julgamento que verdadeiramente importa já aconteceu!

 

POSFÁCIO: a pergunta que nunca foi calada

Se a Taça de Bolinhas, criada em 1971, seria entregue ao primeiro clube que conseguisse ser tricampeão consecutivo ou cinco vezes campeão em anos alternados, por que a taça parou de ser entregue após a conquista do Flamengo em 1992? Em 1993, o campeão Palmeiras recebeu um novo troféu, que passou a ser entregue ao vendedor do Campeonato Brasileiro a partir de então. É o que é: o Brasil é um país tão confuso, que não é impossível encontrar explicações razoáveis sequer para suas contradições.

Veja aqui mais:

– O resgate mais profundo sobre a Copa União de 1987

– A História Definitiva de 1987
Marcel Pereira é escritor, autor do livro “A Nação” (Editora Maquinária) e escreve no blog A Nação e aqui no Blog Cultura Rubro Negra, do MRN.

 


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