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Conca pode ser a chave do meio-campo?

Conca pode ser a chave do meio-campo?

Xavi e Pirlo são lendas do futebol mundial. Pergunte a qualquer fã do jogo bem jogado e eles estarão nas listas de melhores dos últimos anos. É curioso, no entanto, que os dois tenham feito tanto sucesso depois de velhos. Sempre foram bons jogadores, titulares de Barcelona e Milan, mas só se tornaram grandes estrelas depois dos 28 anos. Xavi, inclusive, começou a final da Champions League em 2006 (aos 26 anos) no banco (ao lado de Iniesta, que tinha 22), enquanto Frank Rijkaard escalou Edmílson, volante razoável, e van Bommel, horroroso. Não foi apenas uma evolução individual. O jogo mudou radicalmente, favorecendo jogadores o estilo de jogo deles.

O futebol mudou muito na virada dos anos 80 para os anos 90. No meio-campo, surgiu o paradigma Makele-Zidane (ou Dunga-Rivaldo, ou Leandro Ávila-Iranildo para os mais chegados): jogadores que só defendem ao lado de jogadores que praticamente só atacam. Não é a toa que Pep Guardiola, tão talentoso quanto Xavi ou Pirlo, decidiu sair do Barcelona (que ainda não era uma seleção mundial) aos 30 anos para terminar a carreira sem brilho algum, passando por Brescia, Roma, Al Ahli (Doha) e Dorados (México). Depois de dez anos no time profissional do Barcelona, o capitão deu adeus dizendo que “o futebol está se modificando, aumentando muito a carga física do jogo”. Guardiola continuava extremamente talentoso, mas havia se tornado obsoleto.

O paradigma destruidor-criador permaneceu absoluto por muito tempo, mas o próprio Guardiola preparou sua vingança. Ao ser contratado como treinador do Barcelona, ele se livrou de Ronaldinho e Deco para iniciar o desenho da dupla Xavi-Iniesta, que revolucionaria não só o Barcelona e a seleção espanhola, mas o jogo como um todo.

Foto: Gonzalo Arroyo Moreno /Getty Images

Qualquer lista de melhores meio-campistas do mundo nos últimos anos contém jogadores como Xavi, Pirlo, Iniesta, Kross, Schweinsteiger, Carrick, Modric, Rakitic, Thiago, Fabregas e Pjanic. Se jogassem nos anos 90, seriam bons, mas provavelmente teriam muito menos brilho – talvez até terminando como Pep.

Quando contratou Xabi Alonso para o Bayern de Munique, Guardiola o definiu como “o pior jogador do mundo na defesa”, mas extraordinário no trabalho da bola. Um elogio pouco convencional para um volante. Aliás, não temos uma boa palavra para esses jogadores. Não são volantes, mas também não são meias. Esse meio-campo passador é uma espécie de cadenciador, pois sua maior arma é a capacidade de ditar o ritmo do jogo. O fato é que esse tipo de jogador, descartado há quinze anos, se tornou a peça mais importante dos melhores times do mundo.


E no Brasil?

Quando o assunto é tática, o Brasil sempre esteve na vanguarda. Normalmente não nos damos esse crédito, mas é verdade. Inventamos e reinventamos a função dos laterais no jogo (coisa que quase ninguém conseguiu copiar direito), formamos todos os tipos de atacante possíveis (já imaginou um 9 inglês que não faz nenhum gol de cabeça, como Ronaldo?), criamos o 4-2-4 em 58 e o recriamos em 70. Isso tudo sem falar no papel do camisa 10.

Mas essa revolução o Brasil perdeu. Simplesmente deixou passar. O jogo moderno é muito sobre a posse de bola, sobre controlar o ritmo. Isso tem tudo a ver com o controle de espaço, assunto da minha coluna há duas semanas. E nisso ficamos para trás. O futebol brasileiro não produziu esses jogadores e a seleção, que sempre foi famosa por se impor contra qualquer adversário, passou a correr atrás da bola.

Isso tudo aconteceu até que Tite teve uma ideia. Pegou um meia que subiu para o profissional como ponta e viu nele todas as características de um cadenciador: inteligência, visão de jogo, dinamismo, bom passe, controle de bola. Além disso, um excelente porte físico para ser um dominador de espaço no meio-campo. Esse jogador é Renato Augusto. Ele não é o melhor do mundo em nenhuma dessas coisas, mas é suficientemente bom em todas elas.

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Renato Augusto foi a chave para o título brasileiro do Corinthians em 2015 e, hoje, é a chave para a recuperação quase milagrosa da seleção. Comparado aos outros jogadores da posição, não é um craque, mas ajudou a colocar o Brasil no jogo moderno.

Vamos ao que importa: e o Flamengo?

Quando Zé Ricardo começou a dar cara para o Flamengo, na metade do Brasileiro de 2016, a característica mais marcante era que o time gostava da bola. Tocava ela com paciência, jogava com os zagueiros adiantados, tinha dobradinhas lateral-ponta que funcionavam e um meia com visão e passe refinado.

Fazia tempo que o Flamengo não gostava da bola. O time de 2013 – para o mim o último time marcante do Flamengo – era bastante reativo. Depois que o Flamengo assustou um pouco, todo mundo analisou e encontrou o antídoto: era um time previsível, que encontrava muitas dificuldades para furar uma defesa recuada – a famosa retranca. Zé Ricardo não tinha (e ainda não tem) um cadenciador, mas poderia usar um. Talvez isso até explique a queda de rendimento em 2017.

O Flamengo entrou contra o Botafogo com Márcio Araújo, Cuellar e Arão um dia depois do Real Madrid usar Casemiro, Kross e Modric. Não há apenas um abismo de qualidade, mas também uma diferença fundamental de característica. Esses três volantes não controlam o jogo.

Arão não é esse jogador. Ele é o que na Europa chamam de “box-to-box”, o meio-campista que cobre o campo todo, que não tem medo de entrar na área (nem no ataque, nem na defesa) e aparece como elemento surpresa. É como Paulinho, que joga ao lado de Renato Augusto na seleção, ou Elias no Fla-2013. Cuellar e Márcio Araújo são destruidores de jogadas. Nada mais. Na maioria das vezes, destruidores das jogadas do adversário. Nas outras vezes…

Foto: Gilvan de Souza

 

Mancuello até tem algumas das características, mas não se encontra. Já jogou em diversas posições e é quase sempre inútil em todas. Se tivesse uma função específica de organizar o time por trás, talvez pudesse render mais, mas é difícil confiar no argentino hoje.

Mas existe outro argentino no elenco que tem inteligência, visão de jogo, dinamismo, bom passe e controle de bola. Conca pode ser muito útil vindo de trás, organizando o jogo e ditando o ritmo. Ele não precisa ser o meia responsável por gols e assistências. Não precisa ser um reserva imediato de Diego. Ao contrário do que Zé pensa, eles podem sim jogar juntos.

Foto: Gilvan de Souza

Se Diego é o homem do último passe, Conca pode ser aquele que abre os caminhos jogando atrás da linha da bola. Conca pode ser como Xavi. O time continua valorizando a posse. Tivemos mais posse de bola que o adversário em cinco dos seis jogos do campeonato até. Mas também é um time extremamente previsível. Todo mundo já sabe o que o Flamengo vai fazer, para onde o Flamengo vai. Não importa apenas ter a bola, mas saber o que fazer com ela. Precisamos sair dessa posse lenta e estéril para uma dinâmica e imprevisível. Só assim o Flamengo poderá se impor nos jogos. E Conca pode ser a chave. No futebol atual, um jogador como ele pode fazer toda a diferença.

 

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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Escrevo as análises táticas do MRN porque futebol se estuda sim! De vez em quando peço licença para escrever sobre outros assuntos também.

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