Leia a última parte da entrevista que Zico concedeu ao Mundo Rubro Negro. O projeto Coletiva MRN agradece demais ao Galo por nos receber!

O Flamengo teve um bom início de ano. Depois teve uma queda. Você mudaria algo no time do Flamengo? Considera o time bom?

Mudaria. O Flamengo cometeu erros capitais. O primeiro, todos aqueles problemas que aconteceram com aquele famoso “bonde da Stella”. Não tenho nada contra nenhum jogador mas pisaram na bola e manutenção desses jogadores não foi legal. Eu acho que o Flamengo deveria ter dispensado esses jogadores. Com todo respeito a eles, mas pisaram na bola. E eu acho que isso daria um outro tom, um tom de equilíbrio, respeito e de seriedade. Cara, o Flamengo não é pra ninguém ficar brincando com internet não. Flamengo é coisa séria. Não é dois ou dez, são quarenta milhões de torcedores que estão sofrendo, que estão lá apoiando. E quando você veste aquela camisa tem que ter um sentido diferente. E isso tem sempre que ser passado para quem está chegando. Eu não teria ficado com aqueles jogadores. Procuraria fazer um bom negócio. Agradeceria pelos serviços prestados, não daria nova chance. E a outra coisa. Quando o Flamengo bancou, junto ao Fluminense, a questão da Liga, e falou que no Carioca iria jogar com time misto, time reserva, time de juniores e tal. E depois viu que deveria cumprir lá os regulamentos e contratos. Não tinha que ter falado nada! Inscreve os jogadores e coloca no campo. São profissionais do futebol e é o Flamengo que vai jogar. Não importa se é o primeiro jogo, não tem que falar nada que vai desvalorizar. Não tem que falar. E na Liga, no momento que joga uma semifinal, entra com o time misto pra jogar. Enquanto no estadual todo jogo entra com os titulares. O discurso foi um e na prática foi outro. O homem lá de cima não perdoa essas coisas não! De vez em quando ele dá uns castigos pro cara que falou demais. Então hoje a gente corre o risco de ficar de fora das três competições. Já ficou da Liga, que seria uma coisa fantástica. Um Fla-Flu. Os dois times que, justamente, lutaram para que a liga fosse a saída dessa mesmice, uma valorização das marcas. O Flamengo pisou na bola. Copa do Brasil teve uma derrota pro Confiança, que, lógico, pode reverter, mas está atrás. E o Carioca não depende só dele*.

E o discurso do cansaço. Isso é terrível! Você não pode em março dizer que está cansado porque viajou daqui pra lá, de lá pra cá, daqui pra lá! Não tem que falar nada. Eles são profissionais. Todos têm que cumprir. Se o Flamengo tiver que jogar na China vai ter que ir pra China, depois vai pra Barcelona e volta aqui pra jogar em Cantagalo! Vamos pra lá, vamos com tudo, tem que superar isso! E aí ficou aquele negócio de cansaço. Jogador põe na cabeça “ai, eu tô cansado”. Quando a maré está ruim corre de qualquer maneira, não tem cansaço.

Então eu acho que essas coisas foram capitais nestes primeiros três meses, no meu modo de ver. O Flamengo perdeu um pouco o rumo neste início. E a torcida está do lado, está apoiando. Cobra mas está do lado. Não pode dizer que o torcedor abandonou o time. Eles têm que ter esse pensamento.

Com relação ao planejamento, o Flamengo é alvo de muitas críticas com relação a não ter um estádio no Rio pra jogar.

Faz um planejamento e chega nos jogadores: “Meus camaradas, família está em segundo plano agora. Não tem Maracanã, não tem Engenhão, vamos ter que viajar. A gente vai viajar, encarem como uma excursão. Vamos sair da Bahia, vamos pra Sergipe, Juiz Fora, São Paulo. Aí não. Vai em Sergipe e volta pro Rio. Vai pra São Paulo e volta pro Rio. Por que isso? Vai de um lugar para o outro! Você descansa, você repousa no hotel, se alimenta bem e vai chegar e vai correr! Daqui um mês, daqui dois meses a gente vai brincar passar um sábado com a família. Na hora do trabalho é o trabalho, cara”. Então eu acho que faltou esse pulso pra dar uma chacoalhada no pessoal. Agora o cara perde, é eliminado e graças a Deus saímos de uma competição, estamos muito cansados. Pelo amor de Deus! Isso é duro de ouvir.

Você foi diretor-executivo do Flamengo e em sua saída declarou que não ia mais voltar ao clube em qualquer outra função. Como foi essa experiência? E com esse Flamengo atual, muito elogiado pela transparência, se houvesse um convite você voltaria? Quem sabe uma parceria com o Rodrigo Caetano…

Não, não. Acho que foi uma experiência. Sempre é uma experiência positiva. Eu só aceitei trabalhar no Flamengo, e sem receber um tostão do Flamengo, utilizando da minha imagem para poder fazer os contratos, porque era uma ex-atleta que estava. Uma atleta que eu fazia rifa para arrumar recursos para a natação, para a Patrícia. Então ela estava lá e pediu pra gente dar uma força. No início ela deu apoio, tinha ideias boas. Depois, no momento que ela tinha que me bancar, ela ficou do lado de quem a elegeu e não do lado do Flamengo. E eu lamentei profundamente. As decisões que tinham que ser tomadas… Por exemplo, tomou uma decisão legal em relação aos atletas fatiados. Naquele período o Flamengo parou de fatiar jogadores. Isso foi uma das coisas que a gente conversou e ela bancou. Então o Flamengo passou a não ter jogador com pelo menos 50% dos direitos econômicos. Tinha jogador lá que o Flamengo não tinha nada e tava no plantel. Outros com 10%, 20% e um monte de empresário se dando bem. Então a gente foi limpando. E aí o que aconteceu? Essas pessoas começaram a arrumar motivo para que eu… eu… Eu era o patinho feio ali da coisa. E aí começaram a envolver minha família. E isso eu não tolero de maneira nenhuma. O que aconteceu comigo foi bom em termos de Flamengo para as pessoas conhecerem quem estava ali dentro. É só ver quem falou as besteiras como está hoje. O que representa hoje para o Flamengo? Onde é que estão? E a gente continua. Os pés estão no chão e a cabeça boa pra pensar em ajudar o Flamengo. Essa experiência me deu a certeza: não ocupe mais nenhum cargo no Flamengo. O que eu tinha que fazer eu já fiz.

Hoje você participa de campanhas…

Não vou deixar de ajudar o Flamengo. Hoje eu cedo minha imagem para o Flamengo, para campanhas. Andar junto do Flamengo é bom. Eu me beneficio, o Flamengo se beneficia. E eu não tiro um centavo do Flamengo. Tudo que eu cedo o Flamengo tem a parte dele e eu tenho a minha. E o Flamengo não perde nada com isso. Andar de mãos dadas com o Flamengo é sempre bom. Com a torcida do Flamengo, fazer campanhas para o Flamengo. A gente tem grupos aí que tem ajudado bastante e a gente vai continuar dessa forma.

Sobre sua atual função de comentarista, a gente gostaria que você falasse um pouco mais sobre isso.

Eu aceitei ser comentarista do Esporte Interativo. Na época eu disse que só aceitaria se fosse pra fazer jogos da Champions League e no meio da semana. Sábado e domingo apenas se for uma Final. Porque os finais de semana eu quero dedicar à minha família. A experiência é legal. Agora, eu não sou um comentarista que se preocupa com dados, se o cara jogou quarenta vezes na seleção, me preocupo com o que está acontecendo no jogo. Porque você que ta vendo o jogo ta vendo igual a mim. Eu tenho que passar alguma coisa que eu possa estar percebendo e a pessoa que não esteve ali dentro não vê. Quando você está no estádio ainda dá para dizer alguma coisa que está acontecendo que quem está assistindo não vê pelas câmeras. Vê o espaço de um certo lado ou entre uma linha de zagueiros. Quando não estou no estádio algumas TVs já abrem mais a imagem e pegam um campo maior de visão. Eu me limito, como disse, a comentar aquilo que você está vendo e dar alguma coisa que as vezes as pessoas não percebem. É um quique da bola, como o cara deveria entrar, quando entra de mal jeito. Não estudo nada, pego a escalação ali na hora. Ontem eu até esqueci o que ia falar (risos).