Por Luiz Eduardo Mengão – Convidado


Irmãos rubro-negros,

O Flamengo, a diretoria do Flamengo, em sua história, sempre cultivou a tradição de valorizar técnicos disciplinadores.

Foi assim, dentre outros, com Dori Kürschner, Flávio Costa, Fleitas Solich e Cláudio Coutinho.

Todos eram técnicos muito estudiosos e trabalhadores e que também se impunham ao elenco pela autoridade, contando com o respaldo da diretoria.

Esse quadro começou a mudar em meados da década de 1980.

Caso emblemático foi o de Telê Santana, preterido pelo clube quando resolveu confrontar a estrela da equipe, Renato Gaúcho.

Nessa época, o clube já mergulhava num padrão de gestão do futebol de grande permissividade para com os atletas, sobretudo os da base, tratados como criancinhas mimadas, cujas vontades deveriam ser satisfeitas e as indisciplinas relevadas.

Na minha modesta opinião, o momento em que o futebol do Flamengo tornou-se realmente uma grande bagunça foi com a ascensão do Kléber Leite à presidência e a posterior contratação do Romário.

Ali o Flamengo retrocedeu bastante em termos de gestão do departamento de futebol.

Enquanto o profissionalismo era implantado, em maior ou menor escala, na Europa e em alguns clubes brasileiros, o Flamengo, na contramão daquilo que vinha sendo desenvolvido e que se tornaria referência obrigatória no futebol mundial, aprofundou as piores práticas amadoras, adotando a frouxidão disciplinar e a irresponsabilidade administrativa e financeira como métodos diretivos.

Me recordo muito bem do dia em que Romário e Edmundo, ambos atletas do Flamengo, resolveram se aventurar pelo funk.

Na época, o Flamengo ia muito mal no Campeonato Brasileiro, mas isso não os impediu de convocar uma entrevista coletiva, se não me engano na Gávea, e, sorridentes e felizes, começarem a cantar alguma porcaria nojenta.

A situação ruim do time no Campeonato Brasileiro era um mero detalhe. O importante era valer-se da enorme repercussão e grandeza de tudo que envolve o Flamengo para fazerem um marketing pessoal ridículo.

E esse comportamento antiprofissional, de indiferença e desrespeito ao clube e à torcida foi constante nos últimos vinte anos.

Quantos escândalos promovidos por atletas descompromissados e imaturos?

Jogadores que faltavam a jogos e a treinamentos, chegavam alcoolizados para os treinos matinais, afrontavam técnicos e qualquer tipo de hierarquia, cobravam publicamente salários.

A instituição tendo suas vísceras expostas por uma direção pusilânime, jogadores indisciplinados e uma imprensa ávida por fofocas e notícias que manchassem a imagem do Flamengo.

A situação era tão caótica que o clube tinha um supervisor, no caso o Isaías Tinoco, cuja função primordial era fornecer à imprensa as desculpas mais estapafúrdias para os atos irresponsáveis de alguns jogadores.

Assim era o futebol do Flamengo até a chegada de Eduardo Bandeira de Mello, Wallim Vasconcelos e cia.

Assisti outro dia à uma entrevista do Wallim na qual ele descrevia o estado em que encontraram o departamento de futebol quando assumiram a direção do Flamengo.

Parentes e amigos dos jogadores, empresários, mulheres e até vendedores de relógios frequentavam o Centro de Treinamento.

A primeira medida então foi lacrar o portão do Ninho do Urubu e só permitir a entrada de pessoas que efetivamente trabalhassem no futebol do Flamengo.

Todo o resto deveria ficar do lado de fora.

Além disso, foi distribuída aos jogadores uma cartilha traçando algumas normas quanto ao comportamento a ser observado por todos no CT e na Gávea.

Não é à toa que o Flamengo, desde janeiro de 2013, deixou de ser notícia para a parte sensacionalista da imprensa.

Na minha humilde opinião, isso já denota grande melhora em relação ao que ocorria até dezembro de 2012.

Lendo o excelente post do Flavio, publicado ontem aqui no Buteco, fiquei muito esperançoso quanto ao futuro do Flamengo.

Acho que há muitos rubro-negros se esforçando para colocar o Flamengo definitivamente no século XXI, de modo a que o clube retome seu caminho de glórias e conquistas, e consolidando-se como a maior potência do continente

Mas se as melhoras na gestão do futebol são visíveis, por que os resultados têm sido aquém do potencial do clube?

Por que os jogadores têm demonstrado indiferença, quando não desrespeito e desprezo, pela torcida e pela instituição?

Em relação aos resultados, vários fatores concorrem, como a falta de planejamento e estrutura, o método de apenas reforçar efetivamente o elenco no meio do ano, dentre outros.

Mas eu gostaria de focar numa resposta comum às duas indagações acima.

E a resposta, provavelmente simplista, mas pra mim correta, envolve dois fatores: a não implementação de uma filosofia e identidade rubro-negra e a falta de cobrança.

Não se vê mais jogador do Flamengo sujar o uniforme, dividir com vontade, brigar e lutar durante toda a partida.

No domingo passado, um atacante do adversário deu uma entrada desleal, criminosa, no Paulo Victor.

Nenhum jogador do Flamengo reagiu, nenhum jogador do Flamengo partiu pra cima.

Ficou por isso mesmo.

Fosse em outras eras, a reação do time do Flamengo seria imediata e bastante incisiva, aguerrida. Provavelmente, teria briga.
Eu sou de uma geração em que quem cantava o jogo era o Flamengo. Fosse com time bom, fosse com time ruim.

Além dessa inexplicável apatia e frouxidão, onde está a obrigação de estrito respeito à instituição e à torcida por parte dos atletas e profissionais do futebol?

O Samir outro dia chamou um torcedor de “babaca”, o Paulinho se negou a dar autógrafo à uma torcedora, alegando que “quando estava jogando mal, ninguém pedia autógrafo”.

O César Martins esta semana deu uma entrevista em que, ao ser indagado sobre as cobranças da torcida, respondeu que “se jogar futebol fosse fácil, torcedor jogaria e jogador assistiria.”

Eu pergunto: alguém da diretoria chamou a atenção, com firmeza, muita firmeza, desses jogadores? Ou deixaram pra lá?

Porque se tem algo que não se pode admitir, em hipótese alguma, jamais, é desrespeito, desdém, deboche com a Nação Rubro-Negra.

Eles são milionários, levam uma vida nababesca, que lhes assegura, e às suas famílias, uma condição muito superior à de 99,9% da população brasileira.

E quem proporciona isso? Sim, a torcida do Flamengo.

Eles não estão fazendo favor algum em jogar no Flamengo. Muito pelo contrário. Jogar no Flamengo é uma bênção, digna de eterna gratidão.

Mas a impressão que se tem é de que os jogadores estão indiferentes aos vexames, às derrotas, ao sofrimento da torcida rubro-negra.

Jogador do Flamengo não pode nunca sentir-se confortável, acomodado.

Jogador do Flamengo tem de superar-se sempre.

A torcida se supera, por que eles não fariam o mesmo?

Nós lembramos muito dos anos de 1980, mas a verdade é que do meio pro final da década o futebol do Flamengo já era uma enorme bagunça.

Mas tínhamos craques e líderes verdadeiramente identificados com o clube, que se impunham e faziam a diferença pelo Meng

Tínhamos, e temos ainda, a camisa vermelha e preta, o Manto Sagrado, que sempre nos favorece, embora muitas vezes os jogadores não se apercebam disso, por falta de identificação com o clube.

E tínhamos, por fim, a torcida do Flamengo participando do dia a dia do clube.

Como o time treinava na Gávea, todo dia havia torcedores cobrando e xingando sempre que o time demonstrava apatia, assim como havia quem batesse palmas quando o comportamento estava de acordo com nossa tradição.

Nunca me esquecerei de um dia, pelos idos de 1989, em que o Flamengo sofreu uma goleada vergonhosa para o Grêmio, acho que pela Copa do Brasil daquele ano.

Na época, eu fazia escolinha de futebol no Flamengo.

Ao chegar para o treino, no primeiro dia útil após a derrota,  constatei que a Gávea havia sido invadida por uma multidão de torcedores.

Muita gente, muito flamengo resolveu ir protestar naquele dia.

Eu tinha apenas treze anos de idade e fiquei muito impressionado com o protesto e a forma bastante intensa com a qual os torcedores se manifestavam.

Muitos jornalistas e câmeras de tv se espalhavam pelo clube.

Os jogadores foram orientados a não aparecer na Gávea e os dirigentes fugiram logo que viram a situação sair de controle.

E no meio daquela alucinação, eu distingui um torcedor que se destacava dos demais.

Sempre que ele falava, os demais calavam e as ordens dele eram respeitadas.

Os jornalistas e câmeras o seguiam insistentemente, como se ele fosse alguém muito importante.

Depois eu vim a saber que se tratava do Evandro Bocão, ilustre torcedor do Flamengo.

Me recordarei pra sempre desse episódio, que marcou bastante minha relação com o Flamengo.

Vejam, amigos, e é importante esclarecer isso, eu não sou a favor do Flamengo voltar a treinar na Gávea e tampouco sou favorável a que torcedor invada treino para cobrar ou agredir jogador.

Mas quando a diretoria do Flamengo transferiu os treinamentos para o Ninho do Urubu, que fica num local de acesso dificílimo, e vedou a entrada da torcida, o que a meu ver é corretíssimo, evocou para si a responsabilidade de cobrar o elenco.

A diretoria precisa impor a filosofia rubro-negra para todos os profissionais do futebol e cobrá-los, caso sua postura esteja em desacordo com o que reza nossa tradição.

Se não tem feito isso, trata-se de grave omissão, que deveria ser corrigida o quanto antes.

No Flamengo, a vitória é o objetivo a ser alcançado sempre, com desejo, entusiasmo, alma e raça, muita raça.
Jogador do Flamengo deveria, antes de tudo, fazer um tour pelo Fla-Experiente e pela sala de troféus do clube. Se possível, assistir também uma missa na Igreja de São Judas Tadeu.

Só depois ele poderia vestir o uniforme vermelho e preto e assinar contrato.

Meus amigos, para vermos como a coisa funciona, a torcida do Flamengo já esgotou o Setor Norte para o jogo de domingo.

Três derrotas seguidas, oito gols sofridos, apenas dois marcados, e o Setor Norte já foi esgotado pelo povo rubro-negro.

Natural que a torcida, que tem devotado todo o apoio ao time, exija dos jogadores uma postura compatível com a genuína tradição rubro-negra de muito brio e vontade.

É só isso que pedimos. Muita raça e vontade.