Quando eu era criança nunca quis assistir “A História Sem Fim” porque tinha pânico da ideia de ficar vendo um filme que não acabaria jamais, ficava ansioso só de pensar nisso. Essa janela entre o jogo de ida e o de volta em uma grande decisão, como estamos passando agora, me faz relembrar essa ansiedade quase infantil. Claro que futebol não é a coisa mais importante do mundo. Eu ainda só não descobri quais elas são. Temos a vida pra tocar, outros jogos para nos preocuparmos, mas no fundo, no fundo, a eminência da partida decisiva fica sempre pairando em nossas cabeças.

Por sorte no intervalo entre o empate broxante que acabou sendo positivo como já disse aqui e o confronto final lá na casa dos vilões, tivemos as oitavas de final da Sul-Americana para nos entreter. E acabou que foi entretenimento de primeira, amigos.

O jogo em Chapecó foi o retrato do que não pode acontecer. Um time apático, desorganizado, que não sabia produzir perigo para cima do adversário quando estavam acuados na defesa e tampouco soube aproveitar os espaços oferecidos quando eles resolveram partir um pouco para o ataque. Fomos nulos. Inoperantes. E, mais uma vez, sem alma.

A sorte foi que nosso comandante enxergou isso e tratou de agir. Não que fosse muito difícil notar a falta de sangue correndo nas veias dos nossos atletas. A diferença foi a postura do chefe em acusar isso. Serviu de alento e esperança.

Na quarta-feira seguinte, dessa vez na Ilha do Urubu, vimos uma apresentação completamente diferente. O Flamengo entrou em campo do jeito que a gente sempre pede e está tão pouco acostumado a ver que parecia até que aquilo que estava acontecendo era coisa da nossa cabeça. O primeiro tempo foi bem próximo do ideal que imagino que esse time possa atingir. Teve técnica, teve organização, teve vontade e teve concentração. Era uma equipe de bons jogadores que sabiam sua missão e estavam ali para cumpri-la. Já o segundo tempo, se não teve o mesmo brilho, ou talvez simplesmente a expectativa tenha se tornado excessiva, continuou com o espírito de quem quer ganhar a porra do campeonato. Teve goleada. Teve classificação.

Dois jogos, dois exemplos distintos: se na próxima quarta-feira entrarmos com o sangue de barata da partida em Chapecó, pode entregar logo a taça pros caras. Se entrarmos com a consciência e bravura do jogo na Ilha, eles que se preparem para chorar.

O terrível buraco negro que se abriu em nossas existências entre os dois jogos da decisão da Copa do Brasil também trouxe outros eventos imprevisíveis.

Enquanto todos se perguntavam em qual dos nossos goleiros disponíveis para a final deveríamos apostar – o jovem e promissor porém inexperiente Tiago, ou o experimentado porém inconstante Muralha – a vida tratou de resolver o dilema. Com a fratura no punho do menino, restou a Muralha mostrar a que veio. Execrado em praça pública pelos seus vários erros cometidos ultimamente, vê a vida reservar a ele a oportunidade perfeita de calar os críticos e escrever seu nome na história dos nossos grandes campeões. “Os humilhados serão exaltados”. O roteiro me parece dramático na medida certa para o certame.

Também por lesão perdemos Éverton, o motor do nosso time: o ala esquerdo que ataca, defende e movimenta nossa equipe. Sem ele em campo sempre perdemos intensidade. Um desfalque considerável.

Quem Rueda colocará em seu lugar? As opções possíveis, à princípio, são os garotos Paquetá, Matheus Sávio, Vinícius Júnior e o não mais garoto Gabriel.

Se fosse para escolher pelo momento, eu entraria com o Paquetá que vem brilhando sempre que tem oportunidade. Acontece que ele não é um marcador e nem está acostumado e jogar nessa função, o que torna a aposta arriscada demais, e talvez por isso Rueda escolha o “veterano” Gabriel, que produz pouco mas tende a cumprir mediocremente o que lhe é pedido.

Outra alternativa, caso o lateral Renê se recupere a tempo, seria escalar Trauco lá na frente. Já jogamos algumas vezes assim sob o comando do Zé Ricardo. Por vezes funcionou muito bem, em outras, nem um pouco. Difícil saber como será então…

No fim das contas, tudo isso são detalhes e o que não muda é o fato que o Flamengo precisará ser Flamengo para vencer.

A partida será no Mineirão lotado e por isso o favoritismo é todos dos caras.

Mas isso só me deixa ainda mais confiante. Nossa equipe me parece finalmente ter entendido o tamanho da responsabilidade que carrega ao trajar a mais importante camisa que um ser-humano pode vestir. E, assim sendo, a mágica está para acontecer.

 


Pedro Henrique Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1982, já com uma camisa do Flamengo pendurada na porta do quarto na maternidade. Desde que estreou profissionalmente em 2001, alterna-se com sucesso nas funções de ator, diretor, roteirista e dramaturgo em peças, filmes, novelas e seriados. É autor do romance “Gigantes” (Editora Paralela/Companhia das Letras – 2015). Siga-o no Twitter: @pedroneschling

 


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Imagem destacada no post e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo