Era um jogo ordinário. No 0x0 pantanoso do primeiro tempo, no 1×0 fortuito e no 1×1 do pênalti de Juan em Brocador, era um jogo ordinário, irritante de tão ordinário. Nada fluía para Diego e Guerrero e assim já eram dois setores operando abaixo da necessidade. A noite de quinta-feira se encaminhava para mais uma de irritações em 2017.



Talvez tenha algo a ver com este confronto com o Bahia, afinal. No meu baú afetivo, guardo apenas um jogo contra o Bahia no Rio de Janeiro, os 3×0 em 1985, com o golaço de falta de Zico, que na Rádio Tupi foi anunciado por Jorge Curi como um chuá: – Lá vem Zico, atirooou… Ceeestaaa! Nem mesmo os 6×0 de 2003, o jogo do luto por Roberto Marinho, me vem naturalmente como uma bola lembrança, talvez por ter sido um ponto fora da curva de um time que era errático demais. Fato: jogos contra o Bahia no Rio costumam ser chatos, é a história quem afirma isso.

E seria só mais um desses jogos chatos não fosse a cabeçada de Réver. Quem diria que uma partidinha tão ordinária guardaria espaço para um lance que talvez figure entre as cabeçadas mais bonitas do Flamengo em todos os tempos? O centro em parábola de Everton, a subida de Réver meio corpo acima dos beques, para testar no ângulo oposto e impossível para o goleiro do Bahia, e a bola estufando o véu de noiva como se houvesse saído de um chute e não de uma cabeçada. Foi o primeiro momento da noite que me fez sorrir, porque no gol inaugural só havia soltado um palavrão de desabafo.

E como se a cabeçada de Réver houvesse aberto uma brecha no espaço-tempo para que a noite fosse enfim agradável, Diego fez mais dois gols para fechar a conta em goleada e talvez seja possível nos recordamos deste jogo no futuro como uma boa lembrança no meio deste emaranhado de jogos chatos contra o Bahia.

Ativei a velha mania de fazer listas e coloquei o gol de Réver entre as dez cabeçadas que mais gosto do Flamengo, sempre deixando de fora da lista gols de Zico e gols em finais, sendo as outras nove Tita contra o Fluminense em 1979, Nunes contra o Fluminense em 1981, Tita contra o Palmeiras em 1984, Adílio contra o Campo Grande em 1984, Mozer contra o Santos em 1984, Bebeto contra o Vasco em 1989, Junior contra o Americano em 1991, Gaúcho contra o São Paulo em 1992 e Adriano contra o Santos em 2009.

É claro que eu mesmo sou capaz de contestar essa lista, e tentar espaço para o peixinho de Sérgio Araújo contra o Santos em 1988, para tantos outros testaços fulminantes de Gaúcho, e certamente temos como elegíveis cabeçadas de Romário, Cláudio Adão, Aldair; cabeçadas célebres de famosos-famosos e cabeçadas obscuras de famosos-quem?, mas se o gol de Réver, além de reabrir o caminho para a vitória e para os três pontos, me valeu para começar a fazer listas, certamente será uma das poucas lembranças que guardarei de 2017.

Bom, talvez este gol, e esta vitória, também deem ao time um pouco mais de lucidez, e aí Rueda poderia usar essa lucidez para vencer os próximos três difíceis jogos, e o campeonato já não será então só essa obrigação chata que vem sendo. Talvez. Ou talvez eu só queira me enganar mais um pouquinho.

Não importa. Por ora, fico com essa lembrança, de Réver subindo acima de toda a defesa do Bahia, acima de Todos os Santos, de todo o tédio que começava a dominar a Ilha do Urubu, de todo esse Flamengo de estatura mediana de 2017. Lá de cima, Réver acertou uma cabeçada de cinema para que não fôssemos dormir irritados mais uma vez. Para um ano como este, não é pouca coisa.

 


Mauricio Neves é autor do livro “1981 – O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler


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Imagem usada no post e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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