barriga verde

 

Patrícia Castelan - Blogueira da Nação, Santa Catarina

 

 

Ontem a Literatura mundial e sobretudo a América Latina, perdeu seu principal ícone da sua história recente: Eduardo Hughes Galeano.

Historiador, jornalista, autor de mais de 40 livros. Politicamente ativo, declaradamente Socialista, sua obra era focada especialmente em História e Ciência Política, deixando vasta e fundamental descrição documental sobre os assuntos. Sua mais conhecida obra, “As Veias Abertas da América Latina”, fora proibida em diversos países da América do Sul no período de “Chumbo” (Ditadura). Muitos a consideram sua obra-prima. Faleceu ontem aos 74 anos vítima de um câncer que o consumia, deixando o mundo mais pobre e mais triste.

Com um olhar único, apaixonado e esperançoso sobre cada aspecto da vida humana, sua obra transcendeu seu foco político-social e foi parar no lúdico com a obra “Mulheres” de 1997 e nos gramados em 1995/2004 (atualização). Nosso foco será o Galeano torcedor ou hincha (o chato), como se diz nos países vizinhos.

Uruguaio da capital Montevidéu, torcedor do Nacional, apaixonado não só pelo seu time mas encantado por futebol como um todo, Galeano dizia sobre si mesmo: “Há muitos anos me senti desafiado pelo tema, memória e realidade do futebol, e tive a intenção de escrever algo que fosse digno desta grande missa pagã, que é capaz de falar tantas linguagens diferentes e pode desencadear tão universais paixões. Escrevendo, ia fazer com as mãos o que nunca tinha sido capaz de fazer com os pés: perna de pau irremediável, vergonha das canchas, eu não tinha outra solução senão pedir às palavras o que a bola, tão desejada, me tinha negado” (Futebol ao Sol e à Somba).

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E ele foi um craque no que se propôs a fazer. Suas palavras encantam, emocionam, apaixonam até mesmo aqueles que jamais pensaram que poderiam gostar de política ou futebol. Da parte que nos cabe, Galeano se encantou com um certo time carioca, vestido de rubro-negro e tendo um urubu como símbolo: nosso adorado Flamengo. Em minha visão, Galeano entendeu como ninguém a grandeza do Flamengo, o significado de Fla x Vasco, Fla x Flu, Fla x Bota. Sendo um estrangeiro, seu mérito toma dimensões estratosféricas e incomparáveis.


Como singela homenagem ao mestre uruguaio, um trecho literal da sua visão do Maior do Mundo e uma pitada oportuna de Fla x Vasco:

“Deus e o Diabo no Rio de Janeiro

Certa noite de muita chuva, enquanto morria o ano de 1937, um torcedor inimigo enterrou um sapo no campo do Vasco da Gama e lançou sua maldição:
– Que o Vasco não seja campeão por doze anos! Se existir um Deus no céu, que o Vasco não seja campeão!
O nome deste torcedor de um time humilde, que o Vasco da Gama tinha goleado por 12 x 0, era Arubinha. Escondendo um sapo de boca costurada nas terras do vencedor, Arubinha estava castigando o abuso.

Durante anos, torcedores e dirigentes procuraram o sapo no campo e em seus arredores. Nunca o encontraram. Crivado de buracos aquilo era uma paisagem lunar. O Vasco da Gama contratava os melhores jogadores do Brasil, organizava as equipes mais poderosas, mas continuava condenado a perder.
Finalmente, em 1945, o time ganhou o troféu do Rio e quebrou a maldição. Tinha sido campeão, pela última vez, em 1934. Onze anos de seca.
– Deus nos fez um descontinho – declarou o presidente.

Tempos depois, em 1953, quem estava com problemas era o Flamengo, o time mais popular do Rio de Janeiro e de todo o Brasil, o púnico que, jogue onde jogar, joga sempre como o time da casa. O Flamengo estava há nove anos sem ganhar o campeonato. A torcida, a mais numerosa e fervorosa do mundo, morria de fome. Então um sacerdote católico, o padre Goes, garantiu a vitória, em troca de que os jogadores assistissem sua missa antes de cada partida e rezassem o rosário de joelhos perante o altar.

Assim, o Flamengo conquistou o campeonato três anos seguidos. Os times rivais protestaram ao cardeal Jaime Câmara: o Flamengo estava usando armas proibidas. O padre Goes se defendeu alegando que não fazia mais que iluminar o caminho do Senhor, e continuou rezando junto com os jogadores seu rosário de contas vermelhas e pretas, que são as cores do Flamengo e de uma divindade africana que encarna ao mesmo tempo Jesus e Satanás. Mas no quarto ano, o Flamengo perdeu o campeonato. Os jogadores deixaram de ir à missa e nunca mais rezaram o rosário. O padre Goes pediu ajuda ao Papa, que nunca respondeu” (Futebol ao Sol e à Sombra).

Impossível ler o mestre sem emoção. Risos e lágrimas brotam dos olhos. Galeano conseguiu passar sua paixão e seu encantamento em cada linha que escrevera. Tal como ele, também não jogo futebol porém, domino um único fundamento com maestria: a falta. Claro que sem machismo de minha parte mas, para nós, mulheres, não tem o mesmo significado jogar bem ou não futebol. Também não pretendo escrever como o mestre escrevia. Só admirar e saborear seus versos já é dádiva o suficiente para mim.

Nessa singela homenagem, poderia ficar páginas escrevendo citações de Galeano mas prefiro pedir aos amigos que o leiam. Se não as obras de cunho político, somente essa, da paixão em comum que todos temos pelo futebol. Leia ao sol ou à sombra mas, leia Galeano.

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Ao mestre, com carinho ♥

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