Por Emílio Farias

(Homenagem à Givonete Dias de Farias, Minha Mãe)

IMG-20160629-WA0000Estou vivendo os piores dias da minha vida. Minha Mãe, Givonete Dias de Farias, a razão da minha vida, foi para o Céu dia 28/05/2016. No caminho da minha dor, apareceu um Fla x Flu na Arena das Dunas em Natal, dia 26/06/2016, um dia antes da missa de 30 dias da minha Mãe. O primeiro impulso foi de não querer ir, mas no fundo sabia que minha Mãe exigiria que eu fosse cumprir meu papel rubro-negro de empurrar o Flamengo no “quintal da minha casa”. E que ficaria muito triste se eu não fosse para o jogo por estar sofrendo pela partida dela. Decidi ir por minha Mãe, pois a dor era (e é) maior que tudo, só não da Saudade e da Obediência de filho à vontade da minha Mãe.

Outro obstáculo surgiu. Minha esposa, Moema, que é médica, estava de plantão no domingo. Para não ir só, chamei meu sogro, torcedor discreto do rival Fluminense. Achei mais viável ir com ele para a torcida do Flu do que levá-lo para a nossa torcida. Imaginei que dividiríamos a arquibancada do Flu, já que somos maioria dentre as torcidas do Brasil e no Nordeste essa realidade não é diferente. Ingressos comprados na quinta-feira pela manhã.

Nota triste, não vestiria o Manto no domingo, a Arena das Dunas proíbe (prudentemente) a entrada de camisas (e do Manto) de outros clubes na torcida rival.

No dia do jogo, uma agonia me consumia. A tristeza pela ida da minha Mãe para o Céu era maior que a vontade de comparecer ao dever Rubro-Negro. No auge da agonia, veio uma Luz, uma inspiração Divina, acredito. Minha Mãe, mulher forte, brilhante nos negócios, que saiu da pobreza através do trabalho duro para nos dar do bom e do melhor, nos dar educação e exemplo, para se formar em Direito, Farmácia e Turismo, fazer mestrado em Administração Hoteleira, mesmo criando dois filhos e, ainda assim, fazer as melhores comidas que já comemos e costurar melhor que qualquer costureira, pois deu aulas de costura Brasil afora quando mais nova. Essa mulher que conseguiu ser perfeita, unir os dois mundos, o do lar e dos negócios, sempre mereceu tudo em vida e merece as maiores homenagens também agora, na vida Eterna. Essa inspiração Divina me fez procurar a homenagem que eu mais desejaria para mim: 1 minuto de silêncio antes do Clássico dedicado a ela. A ideia foi perfeita, mas se eu dissesse a qualquer um, diriam que era impossível! Então, guardei no meu coração, ao lado da esperança do Mengão ser campeão em tudo que disputa, o que dizem ser impossível, mas que não deixo de acreditar.


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Não sabendo que era impossível, no alto da agonia, mandei, do meu celular, dentro do carro, no estacionamento de um Shopping, um e-mail para a administração da Arena das Dunas. Junto com esse e-mail foi meu coração de filho, querendo transformar a dor e a agonia do Luto em sensação de dever cumprido (mesmo que apenas por 1 minuto).

Ao chegar na casa do meu sogro, muito próximo a hora do jogo, o relógio já batia as 15:06, recebi um e-mail da Arena da Dunas, dizendo que haviam entrado em contato com a Federação de Futebol do Rio de Janeiro – FERJ e que minha solicitação havia sido aceita. Meu coração explodiu, minha saudade imensa e dor lancinante tinham, enfim, companhia. A certeza de que minha Mãe, do Céu, ficaria honrada e feliz com aquela homenagem. Liguei para meu irmão Emerson contando e pedindo para que alguém gravasse pela TV. Ele perguntou se era verdade, espantado, mas sabia que eu jamais brincaria com aquilo. Mesmo assim, com todos dizendo que era impossível, pediu a confirmação. Os familiares da minha esposa não acreditaram e aquele espanto só os fez confirmar o tamanho da homenagem ao Meu Amor Maior! Saímos disparados, passamos rapidamente no meu apartamento para pegar o meu ingresso. Estávamos com medo por conta da hora. Fomos de carona. Ao chegar no estádio, chuva, muita chuva. Estava com a Bandeira do Mengão que comprei no Maracanã quando o Fla voltou ao G4, vitória de 2×0 sobre o Cruzeiro, viagem que fiz com minha Mãe, ano passado. Deixei a bandeira no carro, não poderia entrar com ela por conta da política (prudente) de segurança da Arena, e nem arriscar perdê-la.

Ao chegar ao portão o meu sogro se deu conta de que havia deixado o ingresso no carro. Faltava pouco para o jogo, menos ainda para o anúncio do minuto de silêncio… eu perderia a homenagem. Meu sogro, como bom homem que é, me empurrou para dentro da Arena e disse que entraria depois, pois iria buscar o ingresso. Entrei na fila da verificação de segurança, debaixo de chuva. Ao adentrar na Arena das Dunas, fui surpreendido pela torcida do Fluminense em bom número.

Fui à beira do gramado, ainda encontrei cadeiras, pois chovia muito e a torcida deles jamais será como a nossa. Eu estava de bermuda e sandália havaiana, sem capa de chuva, sem proteção. Porque nós, rubro-negros, somos assim, vale tudo para estar perto do Mengão! Eles não. Muitos não desceram para próximo do gramado, para fugir da chuva. Os que ousaram enfrentar a chuva, estavam munidos de suas capas de chuva, casacos e outras proteções. Não estavam de corpo e alma como estava o outro lado da arquibancada, loucos, descamisados, gritando e fazendo a Arena das Dunas vibrar.

Estava olhando pro Céu e pensando na minha Mãe quando percebi que as homenagens iriam começar. Saquei o celular e consegui fazer a gravação. Ah, meu coração Rubro-Negro pulsou forte naquele momento. Foi Mágico olhar pro Céu e ver minha Mãe orgulhosa, sorrindo! Após Guerrero e Alan Patrick respeitarem um minuto de silêncio, deram início ao jogo. Para ser sincero, ali eu já havia ganho meu Clássico!

Durante o primeiro tempo do jogo, o Fla dava uma banho no Flu. Os torcedores, do meu lado (sem perceberem que eu estava infiltrado) me consultavam sobre o time deles e relatavam seus calafrios a cada ataque bem construído do Mengão.

Percebi que eles não conhecem tão bem o próprio time. Eu mesmo tirei algumas dúvidas deles, como se o Richarlison deles era o mesmo que havia jogado pelo Atlético – MG. Não sabiam que era um garoto da base.

No gramado, fomos superiores e perdemos para nós mesmos. Um gol contra e a melhor assistência do BR16 até agora, dada pelo garçom Rafael “Faz (entrega)”.

Alguns poucos torcedores mais exaltados xingavam o rubro-negro. Não demorou e uma aglomeração de torcedores infiltrados se juntou próximo à bandeira de escanteio, assumiram a posição pró-Mengão e neutralizaram as ofensas pó-de-arroz.

No intervalo, finalmente encontrei meu sogro. Satisfeito com o 0x0, ele me disse que perdeu o início do jogo. Como bom pó-de-arroz, estava envergando uma capa de chuva que havia comprado na volta da busca do ingresso.

Dirigi-me ao banheiro e, para minha surpresa, uma enorme fila estranha se formava na entrada. Perguntei alto se estavam “fazendo xixi” sentados e todos riram (se soubessem que eu sou Flamenguista, acho que teria apanhado). Dentro do banheiro, outra demora. Na saída, disse que no próximo jogo iria de fralda, novas risadas estridentes.

Na volta, pareceu que o Mengão não havia trocado de lado. Jogou contra o patrimônio como mulher traída gastando para se vingar. Jogou um gol contra no cheque especial. A torcida do Flu se animou. O Guerrero tratou de pagar a fatura igualando o placar. Ainda assim, um Panda fantasiado de torcedor gritou um “Nense” e a torcida não replicou. Perguntei a ele se o “eco da torcida” estava quebrado, ou não ouviu ou fingiu que não ouviu. Se fosse um “Mengão” do outro lado, teria incendiado o estádio, como de fato incendiou!

No campo, o Fla lutava, mas esbarrava nas más conclusões. Eu estava segurando bem o disfarce, até Rafael Vaz dar aquela “bela” assistência ao jovem Richarlyson, que não perderia aquele gol nem se quisesse. Não aguentei e Gritei um sonoro NÃO!!!. Meu disfarce estava desfeito. Um candidato a vereador de João Pessoa, capital do estado vizinho, pediu meu voto, antes, dizendo que eu não votasse “num flamenguista véi”. Se viu o grito que dei, viu que não teria o voto, (risos).

Não sofri represália, eles estavam felizes demais para me hostilizar. A embaixada Flamenguista continuou gritando e apoiando o time até o final. Perdemos 3 pontos, mas estamos bem no campeonato. Saí comemorando um título valiosíssimo! O Mengão está bem e, como sempre, acredito no título, mas, má fase nenhuma nem gol contra algum vai tirar a homenagem a minha Mãe Givonete Dias de Farias. Meu muito Obrigado à Arena das Dunas, à FERJ e ao Flamengo! Pra cima deles Mengão! Por toda a minha vida lembrarei dessa homenagem, desse dia em que os gols do rival não me derrotaram, pelo contrário, fizeram parte da minha Maior conquista em Campo! Deus te abençoe Mamãe, que junto com Vovó Emília, Grande Rubro – Negra, que foi para o Céu em 01/10/2010, possam ver muito títulos do Mengão!

Meus filhos e Netos já terão uma grande razão para seguir o Rubro-Negro como eu sigo!

A dor segue incrível, mas naquele momento, durante aquele minuto… ali eu estava com minha Mãe, abraçado, como sempre estive! Te Amo Mamãe!!!

Saudoso e Agradecido,

Emílio Farias – Filho Privilegiado da melhor Mãe do Mundo!

Ps.: Seguem os vídeos da homenagem
 



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