11289904_629489683855262_200666858_n


Gustavo Roman |Twitter  @guroman

A CAMINHADA PARA AS FINAIS
Santa Cruz 0x0 Flamengo, o primeiro confronto da segunda fase
Em Recife, diante do Santa Cruz, o Flamengo não conseguiu quebrar a seqüência de empates. O zero a zero ligou o sinal amarelo na Gávea. Era a quarta igualdade seguida da equipe. Apesar disso, todos reclamaram muito de um gol mal anulado de Nunes. O mais incrível aconteceu no dia seguinte ao jogo. Pelos jornais, o árbitro da partida, Dulcídio Vanderlei Boschila admitiu o erro e pediu desculpas ao clube.

Só se falava da revanche contra o Palmeiras, marcada para domingo, no Maracanã. Antes disso, porém um amistoso contra a Siderúrgica. Adivinhem só? Empate de um a um, gol de Andrade.

Como o Verdão havia perdido para o Bangu na rodada inicial, Zico alertou os companheiros para explorar o desespero esmeraldino. No coletivo, seis (Ronaldo, duas vezes, Anselmo, Reinaldo, Carlos Henrique e Carlos Alberto) a três (Nunes, Tita e Adílio) para os reservas, Coutinho armou a equipe reserva como o Palmeiras vinha atuando e não gostou nada do resultado. Ele demonstrava preocupação para o jogo de domingo.

 

Goleada avassaladora: Flamengo 6×2 Palmeiras

Coutinho escalou Andrade no meio de campo, ao lado de Carpegianni e Zico. Tita, Nunes e Júlio César formavam a linha atacante. Raul, Toninho, Rondinelli, Marinho e Júnior completavam a escalação.  O time começou forçando quase todas as suas ações ofensivas pelo lado esquerdo. E foi por lá que saiu o primeiro gol. Júlio César cruzou fechado. Gilmar falhou e soltou a bola na cabeça de Tita. Um a zero, aos treze minutos!

Alguns fatos chamavam atenção. Zico, marcado individualmente por Pires, recuava e abria espaços para a infiltração de Tita, Carpegianni e Andrade, que vinham de trás. Júnior jogava muito mais por dentro, do que pela lateral, deixando Júlio César isolado na esquerda. E Andrade mostrava todo o seu futebol, tomando conta da cabeça da área e apoiando o ataque com eficiência.

Aos 34, Júnior, novamente por dentro, sofreu falta na entrada da área. Zico foi para a cobrança e mandou a redonda no ângulo esquerdo, sem chance alguma de defesa para Gilmar. Golaço! Dois a zero e a festa começava nas arquibancadas do Maracanã.

O Rubro-Negro voltou sem qualquer alteração para a etapa final. Logo no recomeço de partida, Nunes bateu forte e obrigou Gilmar a fazer boa defesa. Aos 6 , Zico e Tita tabelaram pelo meio da defesa até que o Galinho fosse derrubado por Pires dentro da área. Pênalti que o camisa 10 cobrou com sua tradicional categoria. Três a zero.

Goleada sobre o Palmeiras animou depois do empate com o Santinha | Foto Reprodução

Goleada sobre o Palmeiras animou depois do empate com o Santinha | Foto Reprodução

Logo depois, Zico sentiu o músculo e pediu pra sair. Reinaldo entrou em seu lugar, com Tita passando para o meio de campo. Aos 16, Júlio César cobrou um escanteio curto para Júnior, que fez o passe rasteiro para a direita. A defesa esmeraldina ficou olhando e Toninho acertou uma bomba, na gaveta de Gilmar. Quatro a zero. E delírio no estádio.

O Flamengo diminuiu o seu ritmo e o Verdão cresceu. Carlos Alberto Seixas finalizou raspando a trave esquerda de Raul. Apesar disso, foi o clube carioca quem marcou o quinto. Aos 27, Tita tocou para Carpegianni e recebeu de volta com uma cavadinha. O ponta ainda teve tempo de dominar e virar, batendo cruzado, no canto direito de Gilmar. Cinco a zero!

Logo após o gol, Coutinho pôs Adílio em campo, no lugar de Júlio César. Aos 29, o árbitro Maurílio Santiago assinalou pênalti inexistente de Marinho em César. Baroninho cobrou e marcou o primeiro tento palestrino. Aos 36, Lúcio passou como quis por Júnior e cruzou. Rondinelli estava mal colocado e Mococa bateu na saída de Raul. O Palmeiras diminuía um pouco o seu vexame na estréia do técnico Oswaldo Brandão.

Ainda haveria tempo para mais um gol do Mengo. Aos 43, Toninho abriu a jogada para Reinaldo na direita. O cruzamento saiu alto. Beto Fuscão pulou, mas não deu em bola. Nunes dominou e bateu forte. Seis a dois e a vingança mais do que completa.

Após o massacre, Telê Santana elogiou a disposição de Zico, que se sacrificou pela equipe. Nos jornais do dia seguinte, Andrade é eleito o melhor jogador em campo.

 

Bangu 1×2 Flamengo, Flamengo 2×1 Santa Cruz, Palmeiras 2×2 Flamengo… Classificação assegurada.

O próximo compromisso era frente ao Bangu. Com o galinho recuperado, o Mengo venceu por dois a um. Zico, de pênalti e Nunes marcaram nessa difícil, porém importante vitória. Com os dois pontos conquistados, a equipe ficava muito perto da classificação a terceira fase.

Coutinho reclamou do pouco tempo para treinar a equipe. No coletivo apronto, o time não esteve bem e ficou no zero a zero com os reservas. No domingo, no entanto, o triunfo veio. Com o dois a um em cima do Santa Cruz (Andrade e Júlio César), o Flamengo estava matematicamente classificado com duas rodadas de antecedência.

Isso era relevante, pois Coutinho poderia poupar Zico, que apresentava sinais claros de fadiga muscular. Reinaldo entraria na ponta direita e Tita passaria para o meio de campo nas duas partidas restantes. Além disso, Adílio e Rondinelli renovaram seus contratos por mais um ano e deram mais tranqüilidade ainda ao treinador.

Na primeira convocação feita por Telê, para o amistoso contra a Seleção de novos, eram quatro atletas do clube na lista. Zico, Júnior, Raul e Rondinelli. Mozer foi chamado por Nelsinho Rosa para a de novos.

Pela quinta rodada, o Flamengo foi a São Paulo e enfrentou um Palmeiras ávido por vingança. Ficou só na vontade, o empate em dois a dois (Tita e Carlos Henrique) serviu para assegurar a primeira colocação da chave e a vantagem de fazer dois jogos em casa na fase seguinte.

Como tomou o terceiro cartão amarelo diante do verdão, Andrade estava suspenso da partida contra o Bangu. Aliás, Telê acabou também convocando o volante para a Seleção. Todos esperavam que Coutinho fosse escalar novamente Adílio em seu lugar. O técnico surpreendeu a todos e escalou o juvenil Vítor na cabeça da área, mantendo o esquema que dera certo.

Antes de encerrar a participação na segunda fase, era preciso faturar. A equipe foi a Minas Gerais, com o time reserva e ganhou do Atlético-mg em um amistoso pela contagem mínima. Anselmo marcou o gol.

No domingo, Tita foi o grande destaque. Atuando em sua verdadeira posição, o meia marcou os três tentos do triunfo sobre o Bangu. Como primeiro colocado, o Flamengo ficou no Grupo O da terceira fase, onde enfrentaria a Desportiva, a Ponte Preta e o Santos. Apenas o primeiro colocado avançaria para a semifinal.

 

Terceira Fase, estreia contra a Desportiva

A tabela divulgada pela CBF revoltou os dirigentes do clube. Eles não queriam enfrentar a Ponte em Campinas. Na verdade, eles gostariam de receber o Peixe e a Macaca e jogar fora contra a Desportiva. A entidade não mexeu na tabela, apesar da revolta rubro-negra,que chegou a anunciar o rompimento de relações entre ambas.

No coletivo, um a zero para os titulares. Gol de Zico, de pênalti. O treino foi pegado. Tita e Carlos Alberto chegaram a trocar pontapés. Depois, de cabeça mais fria, ambos conversaram e tudo acabou ficando bem.

ingresso-campeonato-brasileiro-1980-flamengo-x-desportiva-14409-MLB226840865_4654-F

Foto Acervo @Dida_CRF

Na estreia, em casa, uma boa vitória frente a Desportiva. Três a zero, com 3 gols do galinho. Sem receber muitas chances, o atacante Gérson Lopes é devolvido ao Mixto.

 

Empate com a Ponte em Campinas

A segunda rodada seria decisiva. Se o Flamengo não perdesse para a Ponte Preta, ficaria em ótima situação no grupo. O clima em Campinas era de hostilidade. A torcida lotou o Moisés Lucarelli e apoiou a equipe local desde o início. Um gol de Nunes, na etapa final deixou a partida empatada. Como o Santos tropeçou e só empatou com a Desportiva em zero a zero, mesmo jogando na Vila, o Rubro-Negro jogaria pelo empate na última rodada, frente ao próprio Peixe. Perguntado sobre a postura da equipe, que costuma se soltar no Maracanã, Zico respondeu. “Precisamos ser inteligentes e jogar com calma. Vamos administrar nossa vantagem”.

 

Flamengo 2×0 Santos – Fla entre os quatro do Brasileiro

Precisando da vitória, o Peixe se mandou para frente. Com espaço, o Flamengo contra atacava com perigo. Em menos de dois minutos, uma chance para cada lado. A partida prometia!

Aos poucos, o Rubro-Negro começou a impôr a sua maior categoria. Zico perdeu uma chance da pequena área, após cruzamento de Tita. Em seguida, Júnior obrigou Marolla a espalmar para escanteio. O gol estava maduro.

E ele saiu aos 12 minutos, Carpegianni lançou Nunes na ponta esquerda. Zico fechou na área como se fosse centroavante e cabeceou firme, no contrapé do goleiro. Um a zero.

O caminho era pelo alto. Júlio César escapou pela esquerda e centrou. Nunes, sozinho, fez como manda o figurino. Testou firme, para o chão. Dessa vez Marolla conseguiu realizar uma brilhante defesa. O Santos sentiu a boa atuação do Mengo. Só foi assustar aos 41, em um chute perigoso de Pita, que passou raspando a trave direita de Raul. Ainda houve tempo para que Tita quase ampliasse com uma bomba de perna esquerda.

Coutinho voltou do intervalo com Adílio no lugar de Carpegianni, que sentiu uma lesão. Aos 13, Adílio tocou para Zico que fez fila e passou por dois adversários, até ser derrubado por Neto dentro da área. Pênalti claro que o árbitro Carlos Rosa Martins assinalou. O Galinho foi para a cobrança e colocou com a categoria habitual, no canto direito baixo de Marolla. Dois a zero!

Zico se concentra para bater penalidade. O Galo decretou o placar final. | Foto Reprodução

Antes de o Flamengo tirar o pé de vez e se poupar para a primeira partida da semifinal, Nunes ainda desperdiçou excelente chance ao chutar em cima do arqueiro santista. Não fez falta. Com a vitória, pela primeira vez o Mengo estava entre os quatro melhores times do país.

Com os resultados do fim de semana, estavam definidas as semifinais: Flamengo x Coritiba e Inter x Atlético-mg. O Rubro-Negro carioca e o Colorado tinham a vantagem de jogar pois dois resultados iguais.

Carpegianni, lesionado, estaria de fora dos confrontos com o coxa. Coutinho confirmou Adílio em seu lugar, mantendo Andrade na cabeça da área e o esquema que vinha funcionando.

Na primeira partida dessa fase, o Flamengo teve uma atuação de gala. Mesmo atuando no Couto Pereira, onde o Coritiba não era derrotado há nove meses, o time carioca impôs a sua maior categoria e venceu por dois a zero. Dois gols de Zico. Com o resultado, o Fla praticamente se garantia na decisão do campeonato, já que podia ser derrotado no Maracanã por até dois gols de diferença. O único senão foi o terceiro cartão amarelo recebido por Toninho, automaticamente suspenso. Carlos Alberto foi logo confirmado em seu lugar.

 

Flamengo 4×3 Coritiba

A vantagem era enorme. Por isso, “apenas” 88.000 pessoas compareceram ao Maracanã. O coxa tinha um bom time. Destacavam-se os veteranos Escurinho e Aladim, ale dos jovens Leomir e Freitas. E realmente, a partida foi muito complicada.

Taticamente, o Flamengo apresentava algumas novidades. Na direita, Tita ficava mais fixo do que em outros jogos, para dar um pé a Carlos Alberto na marcação e no apoio. Na outra extrema, Júlio César recuava bastante para buscar a bola, deixando assim espaço para que Nunes caísse por lá e abrisse espaço pra quem vinha de trás.

Toda essa inovação não durou muito tempo. Zico sentiu a parte posterior da  coxa e teve que ser substituído. Reinaldo entrou em seu lugar e Tita passou a jogar no meio de campo.  No mesmo instante, a bola foi centrada para a área rubro-negra. Escurinho escorou e Vilson Tadei completou por cima de Raul. Coritiba um a zero.

A situação ficaria ainda pior. Aos 31, Luis Freire foi a linha de fundo e cruzou. A bola passou por todo mundo e chegou limpa para Aladim marcar de voleio. A vantagem do Fla tinha evaporado. Era hora de surgir um novo herói.

E ele surgiu no minuto seguinte, sob a forma de um centroavante descabelado. Andrade fez lançamento longo para Nunes que dominou, avançou e bateu firme, de pé esquerdo, diminuindo a desvantagem.

logos11-6

Aos 36, era a vez de Júlio César ter que deixar o gramado machucado. Anselmo entrou em seu lugar. Logo em seguida – e para felicidade geral da Nação – Andrade cruzou, Tita matou mal a bola e Nunes chegou chutando com raiva. Era o empate carioca.

Aos 39, a virada sensacional. Carlos Alberto se antecipou e roubou uma bola na intermediária defensiva. Avançou sozinho, deu o drible da vaca no zagueiro Gardel e acertou uma bomba cruzada no ângulo da meta defendida por Moreira. Flamengo três a dois e a vaga na decisão mais do que encaminhada.

A etapa complementar foi menos frenética. A primeira oportunidade de gol só saiu aos 18 minutos. Adílio achou Tita no meio dos zagueiros. O arremate saiu de bico e passou perto da trave direita de Moreira.

Aos 27, não teve jeito. Saiu o quarto gol. Tita fez grande lançamento em profundidade e achou Anselmo em posição duvidosa. O atacante deu o drible da vaca no goleiro Moreira e percebeu que se batesse por baixo, Gardel talvez tivesse tempo de cortar. Ele então deu um lindo toque por cobertura e saiu para os abraços!

O Coritiba ainda diminuiria, aos 44. Depois de um passe de calcanhar de Vilson Tadei, uma escorada de Escurinho e a finalização forte de Luis Freire. Placar final: Quatro a três!

Na outra semifinal, o Galo mineiro atropelou o Inter, mesmo jogando em Porto Alegre, por três a zero. Pelo regulamento, o time de melhor campanha na fase anterior decidiria em casa. Portanto, o primeiro jogo seria no Mineirão e a grande final, no Maraca.

A campanha de ambos era quase igual. Mesmo número de pontos, 32. Mesmo número de gols marcados. 43, os melhores ataques da competição. Apenas nos gols sofridos, uma ligeira vantagem para o Atlético (13 contra 17 do mengo).

Na teoria, o time mineiro também levava a melhor. Afinal, ia completo pra decisão. Do outro lado, Coutinho não contaria com Toninho, Zico e Júlio César, pelo menos para a partida do Mineirão. Preocupado, com os desfalques, o treinador decidiu reforçar o meio de campo.

Para apimentar mais o clima, Raul declarou ao Jornal O Globo que o Atlético era velho freguês e que tinha cansado de dar voltas olímpicas em cima deles.

Na próxima semana:

Os detalhes (muitos esquecidos) das finais contra o Atlético Mineiro

 

Biografia Rubro Negra: Capítulo 13 – O Campeonato Brasileiro de 1980 Parte 1

Leia a Saga do Penta – BIOGRAFIA RUBRO-NEGRA

 

 


Gustavo RomanGustavo Roman é jornalista, historiador e escritor. Autor dos livros No campo e na moralFlamengo campeão brasileiro de 1987, Sarriá 82 – O que faltou ao futebol-arte? e 150 Curiosidades das Copas do Mundo. Conhecido como um dos maiores colecionadores de gravações de jogos de futebol, publica toda quinta-feira, aqui no MRN, a série “Biografia Rubro Negra 1978-1992″, onde conta a saga do período mais vitorioso da história do clube mais querido do mundo.


 

 

CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK

SIGA A GENTE NO TWITTER