De cabeça mais fria, consigo escrever um pouco sobre a eliminação na Libertadores. Uma tragédia foi sendo anunciada aos poucos e teve um fim de cinema – pena que o final feliz não foi pra gente.

No meu texto de estreia no Mundo Rubro Negro, elogiei Zé Ricardo com ressalvas. E quase todas essas ressalvas vêm dos jogos da competição mais importante do ano. A meu ver, Zé tem culpa no cartório.

Empate fora de casa na Libertadores é bom resultado. E o Flamengo não conseguiu nenhum. Perdeu todos os jogos os jogos fora, e olhando para cada um com cuidado podemos perceber os detalhes que valeram a classificação.

Ah, só mais um detalhe antes de começar: o Flamengo tomou 7 gols em 6 jogos. Todos em cruzamentos. Se isso não é um padrão, eu não sei o que é.

Universidad Católica 1 x 0 Flamengo – A estreia fora

Ainda com Diego, o Flamengo foi ao Chile e dominou o jogo. O desespero da torcida não foi pouco quando viu a escalação com Márcio Araújo, Arão e Rômulo, mas a escolha de Zé Ricardo se mostrou acertada: Arão e Rômulo faziam uma marcação adiantada e não deixavam os volantes adversários jogarem, enquanto Márcio Araújo fazia o trabalho sujo na frente da defesa. Everton jogava pela esquerda, mas não havia um ponta direita. Entramos com um time assimétrico, o que não é comum hoje em dia.


No primeiro tempo, tomamos conta do meio-campo, controlamos o adversário, criamos algumas chances e mostramos ao mundo a maior deficiência desse time: perdemos um caminhão de gols. Não foi um massacre, mas para uma estreia fora de casa, estava ótimo.

Perto dos 15 minutos do segundo tempo, a confiança na boa atuação fez o treinador avançar o time, colocando Berrío no lugar de Rômulo e mudando o esquema para um 4-2-3-1

A pressão aumentou, mas aos 28 começou o pesadelo. Com alguma ideia incompreensível na cabeça, Zé Ricardo sacou Everton (que não fazia uma ótima partida, mas sempre é uma boa válvula de escape) e para colocar Gabriel, famoso por cumprir a função de acompanhar o lateral e nada mais que isso.

Um minuto depois, Diego fez uma falta desnecessária na lateral do campo, o cruzamento saiu, Santiago Silva cabeceou de longe, Muralha caiu um pouco atrasado e a bola estufou as redes.

Todo torcedor conhecia a dificuldade do Flamengo de furar retrancas. Com Berrío e Gabriel pelos lados, as chances não seriam muitas. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. A Católica começou a se fechar, colocando mais um zagueiro e recuando o time todo. O Flamengo colocou Damião no lugar de Arão, partindo para um 4-1-3-2 e, logo depois, Berrío foi expulso.

Nos 20 minutos posteriores ao gol adversário, o Flamengo não deu um único chute na direção do gol.

A escalação inicial funcionou, as substituições pioraram o time e tivemos certo azar com o gol e com a expulsão.

Atlético-PR 2 x 1 Flamengo – Uma espera sem fim

Fomos a Curitiba enfrentar o Atlético. Os dois times jogaram duas semanas antes no Maracanã e a vitória do Flamengo deixou claro: o empate era um ótimo negócio.

Sem Diego, Everton e Berrío, Zé optou por repetir a escalação com três volantes, mas com Gabriel e Trauco nas pontas. Uma promessa de 4-3-3 com cara de 4-1-4-1.

O começo foi desesperador. A marcação adiantada do Atlético fez com que o Flamengo não trocasse dois passes seguidos nos primeiros dez minutos e parecia que uma pressão se instalaria. Mas Arão foi no fundo e cruzou para Guerrero, travado no chute. No escanteio, Rômulo quase fez. Um minuto depois a bola sobrou no mano a mano para Guerrero, que passou por Thiago Heleno com extrema facilidade e bateu com capricho. Capricho demais…

O susto era tudo que o Flamengo precisava. A pressão inicial foi desmontada e o jogo ficou calmo, relativamente controlado. Os dois times abusavam dos chutões e o Flamengo até ameaçava mais.

Aos 35, mais uma falta lateral – aquela jogada que Rever diz que o Flamengo não costuma tomar gols – e Thiago Heleno subiu no décimo andar para encobrir Muralha, mal posicionado.

No início do segundo tempo o Flamengo até ensaiou uma pressão. Guerrero chegou a empatar, mas o gol foi bem anulado. Autori continuou recuando o time, passando para um 4-1-4-1 muito compacto. Guerrero, encaixotado no meio da defesa atleticana, sumiu do jogo e o Flamengo parou.

A saída àquela altura era óbvia. O Flamengo tinha espaço pelos lados. O Atlético tinha um caminhão de gente dentro da área e na frente dela. A pressão era toda nossa, mas continuávamos com três volantes e um lateral que pouco atacava. Não havia um único torcedor do Flamengo vivo que não pedisse a entrada de mais um atacante. Aconteceu, mas só aos 25 minutos do segundo tempo, depois de uma longa, longa espera.

Matheus Sávio no lugar de Renê e Damião no lugar de Rômulo. A transformação foi imediata. O Flamengo passou a ser agudo, incisivo e, como resultado, criou chance atrás de chance. Matheus Sávio fez em 10 minutos mais do que Gabriel fez em 200 jogos pelo Flamengo. Damião teve três chances claras, Weverton fez um milagre em cabeçada de Guerrero.

Pressão total. Autuori colocou mais um zagueiro. Zé Ricardo adiantou os laterais, liberou Arão e espetou os pontas. Damião era uma preocupação constante. Mais uma vez, a bola não entrava.

Mas Zé queria mais pressão: tirou o único jogador que cuidava da entrada da área e limpava os eventuais contra-ataques, Márcio Araújo, e colocou Mancuello. Talvez a esperança fosse uma bola parada, ou uma saída mais qualificada. O resultado foi o gol do Atlético exatamente na posição que deveria ser ocupada por Márcio Araújo, feito exatamente pelo jogador que ele tomava conta.

O Flamengo até descontou no placar – em uma bola parada (qualificada) de Mancuello. Mas já era tarde demais.

As substituições funcionaram, mas demoraram demais.

San Lorenzo 2 x 1 Flamengo – Uma profecia certeira

Zé Ricardo surpreendeu: começou num 4-4-1-1, com Gabriel se aproximando de Guerrero e com Everton e Berrío abertos. Escolheu Trauco, o lateral que não sabe marcar, em vez de Renê, o que só sabe defender – uma escolha no mínimo estranha.

Começamos com um golpe de sorte: Rodinei abriu o placar logo no começo. Além disso, a Católica vencia no Chile e garantia a vaga do Flamengo.

O jogo ficou morno. Nenhum dos times conseguia manter a bola e nem ameaçar o adversário. O Flamengo estava em situação confortável e o San Lorenzo parecia não ter forças para reagir. No intervalo, ninguém mudou e o panorama continuou amplamente favorável. Zé resolveu garantir ainda mais o resultado e colocou Rômulo aos 15 minutos, mudando o time para um 4-1-4-1, agora com Gabriel pela direita. Melhor prevenir do que remediar, deve ter pensado o treinador. Guerrero fica ainda mais isolado e o Flamengo passou a rifar a bola em sua direção.

A mudança essencial do San Lorenzo se deu na marcação da nossa saída de bola. A linha de frente passou a fazer forte pressão no homem da bola, evitando que os lançamentos saíssem com precisão. Nem mesmo o tiro de meta curto, de pé em pé, que é marca desse time, tinha espaço para acontecer. Quando eventualmente a bola chegava a Guerrero, a zaga argentina usava a melhor estratégia para marcar um atacante que sai muito da área jogando de costas: a falta cínica.

Nas poucas vezes que Guerrero conseguiu ficar com a bola, não havia opções. Everton pela esquerda e Gabriel pela direita davam largura, mas não profundidade. Quando os pontas recebiam, buscavam a linha de fundo. Sem aproximação, havia um deserto monstruoso na linha de ataque. Um espaço vazio que tornava qualquer jogada infrutífera.

O que poderia ter feito Zé Ricardo? Poderia ter colocado Matheus Sávio ou Ederson (ou mesmo Gabriel) pelo lado esquerdo, invertendo Everton pela direita. Assim, Guerrero teria companheiros se aproximando em diagonal, na direção do gol, com a possibilidade de uma jogada mais aguda.

O espaço vazio no ataque e como poderia ser fechado

Zé Ricardo decidiu dar sangue novo e colocou Matheus Sávio. A substituição se mostrou catastrófica, é verdade. O garoto falhou nos dois gols. De fato, parecia que aquele não era um jogo para o jovem, mas não era possível prever um impacto tão grande no resultado. Ninguém tem bola de cristal.

O que poderia se saber, sim, é que o Flamengo não criaria nada com essa formação. Com a incapacidade de manter a bola no ataque, o San Lorenzo foi avançando. E quanto mais avançava, mais o Flamengo recuava. Aguirre, obviamente, adorou.

No final do jogo, Everton deu lugar a Juan. A ideia era popular a área e não sofrer com a bola aérea. Mas isso abriu completamente os lados para que os cruzamentos saíssem. “Água mole em pedra dura”, diz o ditado… O time, que não consegue fazer seu papel lá na frente nos momentos decisivos, também se mostrou terrível lá atrás. Mais uma vez, em um cruzamento.

A escalação inicial tinha pouca chance de sucesso e as substituições foram criando os espaços que o adversário precisava.

Conclusão

O grande problema do Flamengo parece ser poder de decisão. O time tem dificuldades para matar o jogo, perde muitos gols e às vezes sofre para segurar o resultado. Até Guerrero, que vive grande fase, não é um jogador decisivo.

Sem Diego, o centro-avante peruano passou a jogar muito isolado e o treinador não conseguiu encontrar uma saída. Insistiu com Gabriel centralizado e viu a aposta dar errado repetidamente. A Libertadores é um torneio difícil, com muita pressão. Todo jogo é decisivo. Zé Ricardo, que é muito estudioso taticamente, não conseguiu criar uma proposta robusta para jogar fora de casa.

Não é muito útil falar em uma escalação ou substituição necessariamente boa ou ruim. Analisando depois, é muito fácil apontar o que deu certo e o que não deu. O importante é tentar se colocar na cabeça do treinador no momento da escolha – sem ainda saber o resultado – para entender o que fazia sentido ou não. Nesse sentido, cada derrota teve a sua história, mas Zé acabou errando em todos os jogos.

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb

 
Foto: Staff Images/ Flamengo

 


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