A rodada de abertura do Brasileirão-2017 trouxe para o Maracanã um embate entre dois prováveis concorrentes ao título. Flamengo e Atlético-MG empataram em 1 a 1 em um jogo cheio de possibilidades. A história tática da partida pode ser contada em três capítulos bem definidos e bem distintos.



Capítulo 1 — O primeiro tempo 

Zé Ricardo tem criado algumas variações de esquema nesse início de ano no Flamengo. Nos últimos jogos, todos chegaram à conclusão de que Guerrero vive grande fase, mas joga muito isolado no ataque. Depois da lesão de Diego, o Peruano vem saindo mais da área e tendo muito sucesso na construção das jogadas, mas falta alguém para finalizá-las.

O frágil ponta Gabriel foi centralizado algumas vezes nos últimos jogos: contra Botafogo (semifinal do Carioca), Atlético-PR e Universidad Católica (ambos pela Libertadores). Zé tentou criar uma opção, sempre no segundo tempo, de aproximação a Guerrero. Taticamente a coisa até funcionou, mas Gabriel não passa nenhuma confiança.

Hoje, sentindo a mesma necessidade, o treinador começou o jogo no 4–4–1–1 com Matheus Sávio fazendo essa ligação.

E assim se passou todo o primeiro tempo, com os dois times jogando em esquemas muito parecidos: duas linhas de 4, com Matheus Sávio e Robinho flutuando ao redor de Guerrero e Fred respectivamente.

Um lance de sorte levou ao gol do Flamengo, mas o resultado foi justo, pois o time se impôs e conseguiu controlar minimamente o jogo nessa configuração.

Capítulo 2 —As primeiras mudanças

O Atlético voltou do intervalo com uma substituição aparentemente simples: Cazares entrou no lugar de Otero para, teoricamente, exercer a mesma função.

Ledo engano. O desenho tático do Galo mudou completamente, com Elias menos preso ao lado direito, podendo entrar pelo meio, e Cazares jogando ao lado de Robinho em uma espécie de 4–3–2–1.

Contudo a maior mudança foi na saída de bola. A gente gosta muito de olhar o último terço do campo, e às vezes esquece do primeiro. Robinho poderia ter feito a diferença no primeiro tempo jogando entre as linhas do Flamengo, mas a bola sempre chegava quebrada.
Até então, o ataque do Flamengo conseguia domar bem a saída do Galo: Guerrero e Matheus Sávio faziam uma meia-pressão nos zagueiros, Berrío e Everton colavam nos laterais e, quando necessário, Arão ou Márcio Araújo perseguiam um volante que tentasse dar uma ajuda a mais.

No segundo tempo, Roger mudou. O Atlético começava as jogadas com os laterais espetados em posições muito mais adiantadas (agora não tinham Elias e Otero à sua frente), forçando os pontas do Fla a recuarem e se manterem muito abertos; Elias derivava da direita para o centro, ocupando os nossos volantes; e um dos volantes recuava para criar uma“saída de três”, iniciando o jogo de frente, na mesma linha dos zagueiros.

Os três saíam com a bola dominada e passavam facilmente pela linha ofensiva do Flamengo (Guerrero e Matheus Sávio). A segunda linha estava mais recuada (e portanto mais distante), pois os laterais do Atlético empurravam nossos pontas para trás. Por fim, Arão e Márcio Araújo ficaram completamente sobrecarregados, com Robinho e Cazares buscando o espaço entre as linhas. Resultado: início arrasador com domínio do Galo.

A saída de bola do Galo no primeiro e no segundo tempo

Zé Ricardo percebeu rápido o que estava errado e reagiu. Mas não rápido o suficiente: quando passava instruções a Renê na beira do gramado, saiu o gol do adversário.

Mesmo assim, Zé manteve a substituição: desmontou o 4–4–1–1 e mudou para um 4–1–4–1, admitindo perder de vez a pressão na saída de bola do adversário, mas trazendo Márcio Araújo para cuidar do problema criado entre as linhas. Funcionou em parte: conseguiu segurar o ímpeto do adversário, mas deixou de criar, principalmente pela má atuação de Trauco jogando centralizado.

Capítulo 3 — Zé propõe e Roger responde

Sem poder de fogo, o Flamengo voltou à formação anterior menos de 15 minutos depois da mudança. Ederson entrou no lugar de Trauco, retornando ao 4–4–1–1.

Cinco minutos depois, Roger também remontou o esquema original. Tirou Robinho e colocou Maicossuel aberto pela esquerda, abrindo de novo Elias pela direita e centralizando de vez o equatoriano Juan Cazares. Também tirou o cansado Fred para colocar Rafael Moura.

Enquanto as substituições do Galo eram processadas, Zé Ricardo chamou Vinicius Jr, o menino de ouro do Flamengo, e a torcida foi ao delírio.

A mudança, no entanto, tinha um fundo tático: com as duas linhas de 4 remontadas pelo adversário, o treinador rubro-negro queria pressionar a partir de um 4-2-3-1, invertendo os pontas para que eles passassem a entrar na diagonal, abrindo espaço para a ultrapassagem dos laterais. Como Berrío não tem a opção do drible curto (e por isso só pode jogar pela direita), a solução foi o menino de 16 anos.

Tivemos pouco tempo para ver essa opção funcionando de fato. Apenas a última jogada perigosa, com cruzamento de Renê e chute de Ederson, saiu exatamente da forma como Zé planejou.

Conclusões

Por muito tempo os treinadores brasileiros foram criticados pelo seu estilo Elifoot de pensar o futebol: se está perdendo, coloca um atacante, mas se está ganhando, coloca um volante ou um zagueiro. Zé Ricardo e Roger mostraram (mais uma vez) que são diferentes. Ambos têm suas convicções e alternam as fases do jogo, ora propondo novas opções, ora reagindo ao adversário.

As diferentes etapas do jogo

Zé inventou o esquema com quatro laterais no jogo contra a Católica. Quando Guerrero desempatou o jogo, Renê estava na beira do gramado, pronto para entrar no lugar de Gabriel — uma substituição que muitos considerariam “defensiva” para quem precisava ganhar o jogo.

O mesmo aconteceu contra o Galo, mas o gol saiu do lado de lá. Mais uma vez Renê entraria para corrigir um problema específico encontrado pelo treinador.

Pessoalmente, ainda tenho críticas a Zé Ricardo, mas pelo menos esse time mostra que tem uma ideia — ou várias — para colocar dentro de campo.

 
Autor: Téo Ferraz Benjamin 

Foto: Gilvan de Souza 


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