Não há como enfrentar o Atlético Mineiro em Belo Horizonte, ao menos para os mais velhos como eu, sem lembrar de 2 de dezembro de 1987. Dizendo aos mais jovens percebo o quanto é difícil colocar em palavras o que foram aqueles dias. Porque agora, com a história feita, é muito claro que ganhou o melhor, mas naqueles dias a imprensa esportiva do país tinha uma certeza: o invicto Atlético de Telê Santana passaria pelo Flamengo nas semifinais vencendo os dois jogos, no Rio e em Beagá.

É bom que se diga, os números justificavam o favoritismo mineiro. O Atlético havia feito gato e sapato de seus adversários desde a goleada na estreia contra o Santos, era um time equilibrado, atacava com dez e defendia com sete, era bonito de se ver o Atlético do Telê. O Flamengo havia feito um primeiro turno ruim e um segundo turno razoável, assegurando a vaga na semifinal na última rodada com um hat trick de Zico contra o Santa Cruz. Um show do camisa dez, seu primeiro naquela temporada, mas que havia terminado não tão bem: uma lesão no combalido joelho esquerdo ao comemorar o golaço de falta no último minuto da vitória contra os pernambucanos.

No jogo de ida no Maracanã ficou claro que o joelho de Zico não era o mesmo dos jogos anteriores: foi um jogador menos incisivo e o Atlético só não venceu porque Zé Carlos fez milagres aos pés de Renato e Sérgio Araújo.

No jogo de ida no Maracanã ficou claro que a genialidade de Zico era a mesma de sempre: um passe de costas, já no fim do jogo, deu a Bebeto o gol da vitória e da quebra do lacre atleticano. O campeonato não tinha mais invictos.

Zico passou em claro a madrugada de 1 para 2 de dezembro, tratando o joelho no hotel. O Flamengo jogaria pelo empate, mas nem a vitória no Rio fazia a crônica esportiva acreditar que seria possível tirar o Atlético da final. Chegavam a dizer que havia sido um grande feito tirar a invencibilidade do adversário, e que isso deveria bastar para orgulhar os rubro-negros.
 

 
Esse era o mesmo sentimento do Mineirão superlotado naquela noite histórica. Um estádio em chamas, movido tanto pelo sentimento de que provariam os atleticanos ter o melhor time do campeonato, quando pelo desejo de vingança dos 5×1 de 1979, do Brasileiro de 1980, da Libertadores de 1981. A verdade: o Mineirão tremia de tanto desejar vingança. A porrada comeu solta na arquibancada. Radialistas cariocas eram intimidados nas cabines. Era uma guerra.

Nos primeiros quarenta e cinco minutos, os idiotas da objetividade tiveram trabalho para juntar seus queixos que caíram ao chão. Comandando por Zico, o Flamengo jogou melhor futebol de toda a Copa União. Um baile inaugurado com uma cabeçada magnífica do camisa 10, que mesmo com o joelho bambo subiu mais alto que os beques e executou, aos costumes de anos passados, a vítima João Leite. Bebeto fez 2×0 e o Flamengo poderia ter goleado o desesperado Atlético que, sem conseguir jogar seu futebol, foi violento. Mas o Flamengo não goleou e veio o segundo tempo.

Jogando a vida, o Atlético empatou em 2×2. O Mineirão balançava e esperava pela estocada final, pelo golpe definitivo, pela virada épica que seria contada por gerações e gerações através dos séculos, tomaria o lugar da Inconfidência nos livros de história, sepultaria ali em solo mineiro o antigo algoz chamado de O Flamengo de Zico.

Zico que, depois de muita luta, saiu com o joelho parecendo uma bola de boliche e cuspindo marimbondos, esbravejando contra os gols perdidos, lances que ele criou para os outros desperdiçarem.

Sem Zico em campo, o Atlético atacava o Flamengo, cercava, encurralava, o Mineirão balançava como uma nau na tempestade em alto mar.

De repente, Renato Gaúcho.
 

 
Uma arrancada gloriosa, definitiva, invencível. Deixou os beques pelo caminho, passou por João Leite como se fosse um goleiro de futebol de botão e deu um tapa displicente pro fundo do gol.

E então a crônica esportiva esqueceu-se de seus próprios prognósticos burros.

Como se curada da cegueira, percebeu que aquele time que tinha Zé Carlos, Edinho, Leandro, Leonardo, Andrade em noite de gala, Zico, Bebeto e Renato Gaúcho era o verdadeiro melhor time do país.

Os últimos minutos da noite de 2 de dezembro de 1987 foram de elogios rasgados ao futuro campeão da Copa União, como se os analistas quisessem se desculpar por ter errado tão grosseiramente nos dias anteriores.

Mas nós não queríamos ouvir desculpas.

Queríamos ficar em silêncio, e curtir cada instante daquele que sabíamos ser um dos últimos grandes feitos do Flamengo de Zico, e que seria lembrado a cada vez que o Flamengo fosse a Belo Horizonte enfrentar o Atlético Mineiro, como lembro agora, com saudade daquele Flamengo, de Zico e da velha alegria de ser rubro-negro.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler
 


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