Tudo indica que a Lagardère vai ser a nova administradora do Maracanã. A empresa tem laços estreitos com a BWA, com a FERJ e conta com a anuência do bizarro Governo Estadual, que se nega a trabalhar na confecção de um novo modelo de concessão, baseado na realidade atual, e não naquela em que o shopping e estacionamento seriam construídos, quando o Célio de Barros, o Júlio Delamare, a Escola Municipal Arthur Friedenreich e o Museu do Índio (ou algo que se pareça com isso) seriam demolidos. Há de se frisar que o contrato a ser repassado tem a contrapartida de investimentos na ordem de 300 milhões de reais para os próximos 32 anos e uma outorga anual na casa de 5,5 milhões de reais. E atenção: o complexo agora inclui apenas as jóias da coroa Maracanã e Maracanãzinho.

Como todos vocês sabem, o Flamengo mantinha um acordo com a GL Events/CSM para uma nova etapa de utilização do ex-maior estádio do mundo. Depois de um péssimo contrato de três anos com a Odebrecht, a atual diretoria vislumbrou que:

1) Havendo um novo edital, sem veto à participação de um clube no consórcio, concorre, formando a tríade GL Events/CSM/Flamengo;

2) Não havendo novo edital, a GL Events e a CSM compra a concessão. E mesmo não fazendo parte formalmente, visto que o repasse proíbe a entrada de clubes de futebol neste pool, o Flamengo tratou de fazer um arranjo com as duas empresas.

Durante anos a BWA teve contrato de bilhetagem para os jogos do Flamengo. A parceria foi rompida após muitos problemas e suspeitas. Doeu no lombo da gestão EBM o pagamento de dívidas contraídas junto à BWA, cujos juros altíssimos as tornaram exorbitantes. É uma empresa que o Flamengo não quer ver nem pintada de ouro à sua frente, muito menos de vermelho e preto.


A Lagardère declarou que a BWA não estará envolvida no negócio do Maracanã. Isto porque a BWA agora é da Lagardère. Foi comprada por ela e agora se chama Lu Arenas.

Não é só esse o problema. Por conta de episódios que não foram ainda muito bem esclarecidos*, a diretoria não quer papo com a Lagardère. Não vamos nos estender sobre isso aqui. Vocês podem pesquisar mais a respeito depois.

Mesmo que haja indícios de que o MP e o TCE estejam querendo anular a concessão, sinceramente não acredito em algo tão profundamente correto envolvendo o Maracanã. Acredito que a Lagardère será a nova dona do Maracanã. É isso, game over.**

Na última sexta-feira algumas pessoas questionaram alguns tuítes meus. Principalmente este:

Então vamos para algumas considerações que me levam a acreditar nisso?

A Lagardére tem expertise. Eu acredito que o Maracanã seja um negócio maravilhoso para ela. Primeiro que pagar 5,5 milhões por ano não é problema. 300 milhões até 2050? Não, também não. Não vou adentrar no marketing pois nem sou especialista, apesar de achar que tenho conhecimentos acima da média, já que escrevo, leio e converso com profissionais da área de forma bem recorrente. Tenho convicção de que o Maracanã e o Maracanãzinho podem render muito grana sem o Flamengo. E manter totalmente o negócio a longo prazo sem o Flamengo? Aí é lógico que não.

Porém, a razão entre quem sobrevive sem o outro é impregnada pelo fator tempo. Quem sentirá mais $audade do outro?

A Lagardère é uma empresa. Ela não tem torcida. E ela só vai ver pressão pública se não cuidar do Maracanã. Quando ele tiver todo bonitão de novo, finalmente de banho tomado, roupinha bonita e cabelo verde aparado, bau-bau pressão. Haverá alívio, deu-se a solução. O Maracanã estava às traças e agora vai ter restaurante de frente para o campo! E a opinião pública começa a trabalhar para a Lagardère. E a opinião pública também é composta de milhares de rubro-negros, certo?

O estádio da Ilha só venderá 16 mil ingressos. Lembro que a previsão orçamentária para 2017 é de 61 milhões de reais em arrecadação de bilheteria. Quanto custará cada um desses 16 mil ingressos? E mais: a diretoria já te informou quantos sócios torcedores cada categoria de plano (são sete) têm? E você sabe bem que o principal fator que leva um sócio torcedor a pagar mais caro que outro é a prioridade de ingresso, não sabe?

Aqui no Flamengo vai virar crime 16 mil ingressos vendidos apenas para sócios Paixão e Amor em um jogo da Libertadores. Vocês sabem que isso vai dar merda nível Procon.

Dizem que mais de 80% do NRN é composto de associados ao Plano Raça. Ou seja, cerca de 72 mil cabeças. Vamos pensar que metade disso mora aqui no Rio ou cidades próximas. Não vai dar vazão, filhão. Todo mundo quer ver Diego & Cia estourando no Brasileiro e Libertadores.

E quem não é sócio torcedor? E as Organizadas?

Flamengildo quando não conseguir ingresso para um jogo vai entender. No segundo jogo que não conseguir, vai bolar. No terceiro, Flamengildo vai soltar o verbo contra o clube, puto pra cacete. No quarto decide que não vai renovar essa “porcaria de ST”.

Bem, quando chegarmos a este ponto a coisa vai estar bastante feia para a diretoria. Nem os torcedores que defenderam o veto ao Maracanã vão estar tão convictos deste posicionamento. Vai ter protesto. Vai ter torcedor chamando o outro de Nutella de Elite. Vai ter comentarista dizendo que não tem favelado, só tem coxinha. Que o Flamengo tem que voltar para o Maracanã, que pelo menos umas meias dúzias de torcedor-raiz iam conseguir entrar pra não tirar selfie.

Matérias na imprensa mostrarão o quanto o Flamengo está perdendo em não jogar no Maracanã, mesmo que, sei lá, fique apenas com 30% do lucro, em comparação com a Ilha. O torcedor de orçamento vai chiar.

Um outro argumento que vai ganhar muita força é o de que a diretoria está sendo birrenta, pirracenta. Que está se comportando com imaturidade, ao não deixar as “desavenças” de lado. Que não vai dar nem pra culpar a imprensa nesta, se a gente diz o mesmo sobre o presidente do Botafogo.

Se chegarmos à semifinal da Libertadores precisaremos pedir com dez dias de antecedência a mudança de praça, pois é preciso um estádio para 30 mil. O Pacaembu é opção.

Já para a final é necessário uma arena para mais de 40 mil. E os adversários devem aprovar a mudança. Já pensou se a gente pega o Botafogo, ou Palmeiras. Alguém quer ficar na mão desses caras? E vamos nós para Brasília, numa semifinal de Libertadores. Ou é melhor nem chegar na semifinal da Libertadores?!

Voltando para a Lagardère, acho que ela pode ficar um bom tempo se segurando sem o Flamengo, tomando prejuízo.

Acredito que ela terá todo o apoio do Governo do Estado. O Flamengo não. Por conta da pressão exercida pela própria torcida e por grande parte da imprensa. Um “movimento” será formado naturalmente. Candidatos a interlocutores vão aparecer do nada. Todo tipo de gente sem caráter vai opinar. Vai ter hashtag, vai ter enquete, vai ter esquete, charge e treta na FlaTT.

E quando o Flamengo finalmente procurar a Lagardère para uma partida pontual?

Os dirigentes atuais perderão o apoio daqueles que compraram o discurso de rompimento absoluto. O cara vai se sentir traído, não é verdade? Se você diz que não jogará no Maracanã enquanto ele for administrado pela Lagardère e depois volta atrás, será visto como fraco por aqueles que admiravam sua postura anterior.

E sabe o que é pior? A Lagardère pode receber o EBM com um sorriso colgate e cafezinho pilão, mas não aceitar ceder o Maracanã para um jogo pontual.***

Vai querer tirar aquele contrato maroto da gaveta. E com certeza esse não será o melhor momento para fazer um bom acordo.

Muito se fala do estádio próprio. Que talvez seja a única solução. Também acho.

Contudo, ele não fica pronto da noite para o dia. Um anúncio com este ia zerar nossa vida nesse mundo, mas e depois? Depois a gente vai lutar pra concretizar o anúncio, né. Vejam aí a dificuldade com um ginásio multiuso, pensem então em um novo estádio à sombra do Mário Filho.

E por mais que haja a possibilidade de um terreno na Barra, um aceno de um político, o Morro da Viúva pra rolo e mais umas propostas estilo Guaratiba, é preciso entender que isso demanda tempo, e demanda um modelo de negócio viável.

Eu sou de uma ala que não consegue deixar de ser pragmática quanto ao tema “estádio próprio do Flamengo no Rio”.

Como assim?? Tá achando que o prefeito de Niterói quer se promover às custas do Flamengo?

Não. Que isso…

Sobre o estádio na Ilha agora. Temos vários problemas. Vai ser uma dificuldade enorme inaugurar a parada. Vai aparecer exigência de tudo quanto é tipo de coisa.

Eu não vou falar muito sobre isso. A gente até tenta acreditar que Berrío é craque mas ninguém é burro o suficiente para não sacar que vão atrapalhar de todas as formas a vida do Flamengo por lá. E o que tem de creatura sórdida rondando a Ilha do Governador não tá no gibi.

E se a porrada estancar no entorno do estádio? Se acontecer um bagulho mandado, alguém se ferir, um inocente… Imagine apenas se uma merda grande acontecer por lá. Gente, vão interditar nosso estádio provisório. Levanta a mão aí quem não acredita nisso.

Não preciso parecer conspiracionista. Basta lembrar o que fizeram com aquele fechamento do Engenhão para que o Flamengo fosse obrigado a fechar com a Odebrecht. E com o Luso-Brasileiro fechado vamos jogar onde, já que a CBF proibiu mandos de campo fora do Rio? Volta Redonda? Engenhão não vai rolar. E quem tá sorrindo todo arreganhando pra nós? Ele mesmo… O Maracanã da Lagardère.

Para fechar. Se a diretoria estiver fazendo tudo isso como um maravilhoso mise en scene, para angariar melhores condições. Bato palmas. Sei que ela será taxada de tudo quanto é nome. Perderá muito apoio nas redes sociais também. Se o Flamengo fechar um belo pacote de condições, igualzinho ao que seria fechado com a GL Events (partindo do princípio que era um bom acordo), vai tá tranquilão. Pra mim.

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*O EBM tratou de falar mais sobre essa questão numa entrevista à Rádio Globo. Uma coluna do jornalista Rodrigo Mattos também disseca um pouco mais essa relação. Ainda não li tal coluna e nem ouvi a entrevista. De qualquer forma tenho absoluta convicção de que não mudará em nada a essência do que eu quis transmitir neste post.

**Algumas considerações a favor do Flamengo são relevantes. Com a compra da concessão e o gasto imediato na manutenção do complexo, a Lagardère vai gastar uma bela grana. O Fluminense joga de graça praticamente. Botafogo e Vasco possuem suas casas. Tudo isso reforça a ideia de que o Flamengo é indispensável. Quem se envolveria em algo tão arriscado assim?

***Não sei se a concessionária pode simplesmente vetar a intenção de um clube carioca de jogar no Maracanã por não ter um contrato de longo prazo.

 
Diogo Almeida é um ex-beatnick boleiro. Escreve no Cultura RN quando consegue colocar as ideias no lugar. Siga-o no Twitter: @DidaZico.
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