Por Marcel Pereira – convidado

 

Impressiona muito a falta de auto-conhecimento que o Brasil e a sociedade brasileira tem de um modo geral em relação a si mesmo. Verdade que isto não é exclusividade brasileira, é um fenômeno latino-americano, cuja relação causa-consequência mais visível é o “Realismo Fantástico”, que sempre marcou a literatura e a cultura dos países de toda a região, gerando uma ampla gama de mitos e lendas, e uma imaginação ricamente fantasiosa. O futebol, naturalmente, não escapa a isto.



Estes fatores são ainda mais catalisados pelos tempos do Século XXI, quando a internet e as redes sociais passaram a representar um grande jardim de florescimento de toda sorte de estupidez, maluquice e sensacionalismo barato, com o tom azedo de tempos nos quais os textos jornalísticos já não são mais escritos pela genialidade de grandes mentes do passado, mas por um exército de estagiários, inexperientes e imaturos, como não poderia deixar de ser, e perdidos num mundo que lhes parece mais a terra de animais fantásticos e onde habitam. São garotos que se deixam impressionar por toda sorte de aberrações e teorias conspiratórias, mas que são meros marionetes de uma chefia jornalística que curte a onda de que o legal no futebol é polemizar. É o futebol não pelo que ele é, e aprendemos a gostar, mas como um reles picadeiro de circo.

Mas o Brasil é tão confuso que as próprias instituições que deveriam zelar por suas histórias, muitas vezes são as primeiras a atropelarem os fatos históricos e se embebedar neste realismo fantástico. A CBF é uma delas (com as Federações Estaduais e suas raízes coronelistas na mesma foto). A polêmica sobre 1987 está aí para nos relembrar toda hora. Outro caso clássico disto é a história de oficializar a Taça Brasil como uma conquista de Campeonato Brasileiro, sem dúvida a maior dentre as grandes aberrações (considerá-la um primórdio da Copa do Brasil seria lógico, do Campeonato Brasileiro ultrapassa os limites do razoável).

Neste realismo fantástico no futebol, um dos mitos mais recentes, este claramente causado pelos sucessivos rebaixamentos do Vasco à Série B entre 2008 e 2015, é o Mito do Rebaixamento do Flamengo. Torcedores do Vasco, desesperados com as traumáticas quedas à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro, criaram e alimentaram um fato que nunca existiu. Inventaram um rebaixamento à Série B no Campeonato Carioca de 1933 que nunca aconteceu.

Vamos então revisitar a história do futebol do Rio de Janeiro e do Brasil, porque sem isto não conseguimos separar mito e realidade. Os Estaduais foram criados por um único motivo: nos primórdios do futebol no Brasil, era caro demais deslocar os times por distâncias tão grandes. Por que outros países não tem Estadual? Porque não tem dimensões continentais. Todos os países com dimensões continentais ou não tinham futebol (Estados Unidos, China, Canadá, India e Austrália) ou tinham todas as equipes de futebol concentradas em uma única região metropolitana (Rússia, Argentina e México). Na época, o futebol era totalmente amador, como foi no Brasil até meados da década de 1930. Levar o Campeonato Carioca até Bangu já era uma façanha!

E eis que a partir de 1933 o futebol carioca se profissionalizou. Mas não sem confusão! A prova está em artigo publicado no Jornal do Brasil de 8 de novembro de 1933, no qual Luiz Vianna escreveu matéria com o título “O fracasso do profissionalismo no futebol carioca”, afirmando que a mercantilização tirava prestígio do futebol e certamente não duraria muito. Confusão formada, com resistências naturais à força de mudanças que pediam passagem por uma nova conjuntura, e, no fim, em 1933 houve dois Campeonatos Cariocas, o da AMEA (mantendo o amadorismo) e o da recém-criada Liga Carioca (LCF) sob um regime de remuneração dos jogadores. O Flamengo começou no torneio da AMEA, mas migrou para a LCF. A Liga Carioca reunia seis clubes: Flamengo, Fluminense, Vasco, América, Bangu e Bonsucesso. No campeonato amador estavam Botafogo, Olaria, Andaraí, Carioca, Brasil e cinco clubes que não haviam jogado o campeonato de 1932 (Mavílis, Cocotá, Confiança, Engenho de Dentro e River). Seis clubes disputaram o campeonato da liga, e o Flamengo terminou como 6º e último colocado. Eis as bases do mito! Mas não foi rebaixado, porque não havia 2ª Divisão, era uma competição por adesão, aos moldes da Primeira Liga, criada em 2016 por clubes da Região Sul, Minas Gerais e a dupla Fla-Flu.

A liga em 1934 passou a ter o São Cristóvão, subindo a 7 participantes. Em 1935 teve baixas, com Vasco, Bangu e São Cristóvão voltando ao campeonato amador (Portuguesa e Modesto aderiram à liga, que ficou de novo com seis clubes). Em 1936 manteve-se com 6 clubes, com o Modesto substituído pelo Jequiá. Até que em 1937 o futebol carioca se reunificou, voltando a ter um torneio único, que reuniu sete clubes que estavam na AMEA no ano anterior (Botafogo, Vasco, Bangu, São Cristóvão, Olaria, Madureira e Andaraí) e cinco dos seis que formavam a LCF (Flamengo, Fluminense, América, Bonsucesso e Portuguesa). Mas a instabilidade ainda não havia passado, e nos anos seguintes só nove clubes disputavam o torneio, e sem haver ascenso ou descenso. Pouco depois o número se estabeleceria em 12, que a partir de então foram, durante muitos anos, sempre os mesmos.

Para entender porque, é preciso entrar na história do Brasil. O Rio de Janeiro era o Distrito Federal, como permaneceu até 1960. Todos os clubes que disputavam o Campeonato Carioca eram da cidade do Rio. Não havia clubes da Baixada Fluminense ou do “interior” (que na época era o Estado do Rio de Janeiro). Não tinha 2ª Divisão, porque não tinha uma quantidade suficiente de times profissionais de futebol. Quando a capital federal foi para Brasília, de 1960 a 1974 o ex-Distrito Federal virou Estado da Guanabara. Só em 1974 houve a fusão entre os Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, mas os efeitos no futebol só chegaram em 1978, quando pela primeira vez clubes fluminenses, do “Antigo Estado do Rio”, foram convidados para jogar o Carioca. Ainda assim, a fusão entre a Federação Carioca (FCF) e a Federação Fluminense (FFF), para formação da Federação do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), só ocorreu em 1979 (e é por isto que em 1979 houve dois campeonatos estaduais, o último da FCF e o primeiro da FERJ). Assim, efetivamente só passou a existir campeonato de 2ª divisão no Rio de Janeiro a partir dos anos 1980. Antes disto, qualquer competição com esta nomenclatura era um torneio amador sem garantir vaga na 1ª divisão. Antes disto não faz sentido falar em rebaixamento.

O seleto grupo de clubes que jogou o Campeonato Carioca dos anos 1940 até 1977 era formado por Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, América, Bangu, São Cristóvão, Madureira, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa e Canto do Rio, este último substituído a partir de 1964 pelo Campo Grande. Um clubinho seleto e fechado, sem mudanças. Diferente do muito mais rico Estado de São Paulo, que tinha 2ª divisão, com clubes subindo e descendo à 1ª divisão todo ano. E em essência, só Rio e Sampa tinham força econômica para alavancar o futebol profissional no Brasil. Mas pelas características geopolíticas do país, sempre houve torneios estaduais sendo jogados por todos os lados: Mineiro, Gaúcho, Baiano, Pernambucano, Paranaense, etc.

O primeiro embrião de competições além dos limites estaduais surgiu após a Copa do Mundo de 1950. Com a construção de maiores estádios, passou a haver uma maior força econômica para estimular jogos além dos limites de cada estado. Mas a força econômica para isto era frágil. De 1950 a 1965 foi jogado o Torneio Rio-São Paulo, e também em moldes de “clube fechado”. Inicialmente eram apenas 8 clubes: Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Portuguesa de Desportos pelo lado paulista, e Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo pelo lado carioca. Depois expandiu-se a 10, entrando o Santos, e, pelo lado do Distrito Federal, primeiro o Bangu, que logo depois foi substituído pelo América. Assim foi até 1966, quando o Torneio Rio-SP não foi finalizado naquele ano, levando a uma revisão do modelo, expandindo a outras unidades federativas.

Entre 1967 e 1970 foi disputado o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou Taça de Prata. Ainda era um “clube fechado”, uma espécie de liga, sem haver 2ª divisão ou rebaixamento. Em 1967, aos 10 clubes que disputavam o Rio-São Paulo foram agregados cinco participantes: Atlético Mineiro, Cruzeiro, Internacional, Grêmio e Ferroviário do Paraná. Em 1968, este último saiu e entraram Bahia e Náutico. Em 1969, foi agregado o Coritiba, e o Náutico foi substituído pelo Santa Cruz. Em 1970 o Coritiba foi substituído pelo Atlético Paranaense. O futebol brasileiro vinha construindo maturidade econômica para a construção de competições em esfera nacional.

Só a título de curiosidade, no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969 eram 17 participantes, e os dois últimos colocados foram Flamengo (16º) e Vasco (17º). Em 1970 o Vasco repetiu a 17ª e última colocação. Em ambos os casos não houve rebaixamento e não houve virada de mesa, porque não existia 2ª divisão, era uma espécia de liga, por adesão, o grupo que disputava a competição era restritivo, com número de participantes por estado.

Paralelamente a toda esta história, entre 1959 e 1968 foi jogada a Taça Brasil, competição mata-mata que reunia os campeões dos Campeonatos Estaduais realizados por todo o Brasil. Economicamente mais fortes, os campeões de Campeonato Paulista e do Campeonato Carioca entravam direto na semi-final, aguardando as eliminatórias entre as equipes dos demais estados para saber quem seriam seus adversários. O modelo de competição entre campeões estaduais foi então abandonado, só vindo a ser retomado com a criação da Copa do Brasil a partir de 1989, uma competição também eliminatória, em jogos de ida e volta, e inicialmente restrita à participação dos campeões estaduais.

De 1971 a 1986 o modelo do futebol brasileiro mudou. Deu-se fim às competições restritivas, e a ordem agora era abrigar o máximo possível de clubes. Nestes anos o torneio, agora chancelado como Campeonato Brasileiro, passou a ter mais de 40 clubes por edição. As regras de participação variavam e não estavam claramente definidas, atendendo muito mais a critérios políticos do que técnicos. A fórmula de competição mudava todo ano. O tempo de duração também, tendo o ápice sido o Campeonato Brasileiro de 1979, que afetado pelas confusões políticas que levaram à disputa de dois campeonatos no Rio de Janeiro naquele ano, teve um recorde de 94 participantes, mas com a duração mais curta dentre todas as edições, disputado em apenas três meses. E embora tenham havido torneios de Segunda Divisão neste período, ascensão e rebaixamento eram caixinhas de surpresa, sem um critério técnico e objetivo claramente determinado. O desempenho estava vinculado à participação no Campeonato Estadual, e não no Campeonato Brasileiro do ano anterior.

O modelo era amplamente abrangente e economicamente inviável para os grandes clubes. Assim chegou-se a um novo ponto de inflexão e turbulência política: 1987. Foi fundada uma “nova liga”, o Clube dos 13, composto por Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Bahia. Eles romperam com a CBF e organizaram seu torneio próprio, a Copa União, para a qual foram convidados outros três clubes: Coritiba, Goiás e Santa Cruz. O clube restritivo agora tinha dezesseis agremiações, e se pretendia que fosse um grupo fechado, ao estilo das grandes ligas profissionais dos Estados Unidos, e aos moldes do que o Brasil havia experimentado com o Torneio Rio-São Paulo e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. A proposta era de que nos anos seguintes a competição tivesse sempre 16 clubes. Não haveria ascenso ou descenso. Tanto que na Copa União de 1987 as duas últimas colocações foram de Santos (15º lugar) e Corinthians (16º lugar), e não houve qualquer rebaixamento.

A Copa União de 1988, no entanto, marcou um modelo de reaproximação: nem a liga restrita a 16, nem o modelo de mais de 50 participantes pré-1986. O torneio teve inicialmente 24 clubes, tendo posteriormente sido gradativamente reduzido a 20. Só a partir de então, posteriormente a 1988 portanto, é que faz algum sentido se falar seriamente sobre Série B no Brasil. A partir de então o modelo do futebol brasileiro esteve mais estável, com um ponto de inflexão seguinte só ocorrendo com a instauração do campeonato por pontos corridos, a partir de 2003. A história é esta, todo o resto é mito, fabricado pelo realismo fantástico brasileiro.

Definitivamente, o Brasil é um caso complexo, que não cabe em explicações simples. A lógica racional é quase sempre suprimida por acordos políticos e negociações confusas, quase sempre propositalmente construídas para driblar a razão. É muito difícil explicar tantas particularidades para aqueles que estão acostumados a padrões evoluídos de desenvolvimento. Mas convenhamos que tantas confusões assim são difíceis para explicação e compreensão até aos acostumados a padrões mais desorganizados e mais subdesenvolvidos.


Marcel Pereira é escritor, autor do livro “A Nação” (Editora Maquinária) e escreve no blog A Nação .
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