Desde que me entendo por gente vivo uma bipolaridade entre comemorar a grande fase do Flamengo rumo a todos os títulos da Via Láctea e na semana seguinte estar fazendo contas de quantos jogos precisamos vencer para escapar do rebaixamento.



Mas a verdade é que existe uma série de coisas que mudaram no futebol brasileiro e no próprio Flamengo e a combinação disso nos jogou em um limbo existencial entre o Ser Rubro-Negro que fomos e o Ser Rubro-Negro que vivenciamos hoje.

Depois de mais de um século administrado como um clube qualquer, descobrimos nos últimos anos que com o mínimo de competência e equilíbrio, temos potencial para sermos uma Nação não apenas como torcida, mas como instituição esportiva. O Flamengo hoje é um clube profissional, com todos os ônus e bônus que isso carrega, e isso é uma novidade para nós torcedores.

Vou ilustrar meu argumento com o exemplo razoavelmente recente do título brasileiro de 2009:
Adriano voltava ao clube simplesmente por ser Didico, torcedor como todos nós, não por habilidade dos cartolas. Criaram uma campanha de marketing para a torcida escolher com qual número de camisa ele deveria jogar, a 9 ou a 10. A 9 ganhou de lavada mas ele quis a 10. Didico tem desses caprichos. Então ele jogou um ou dois jogos com a 9 e ficou por isso mesmo. Foda-se.

Segue: nosso meia de criação na heroica conquista do hexa foi o Pet. Que só estava no elenco por conta de um acordo judicial pela dívida milionária que o clube tinha com ele. Não havia nem plano real de utilizá-lo. Jogar o fino que ele jogou então foi a surpresa do século.

E o técnico? Andrade era o auxiliar que foi efetivado no modo “vai tu mesmo” depois que vazaram com o Cuca…

Tudo, amigos, literalmente tudo era mambembe, improviso. Nosso mística é que brilhou porque o Flamengo nasceu para brilhar.

Hoje não. Nosso elenco é profissional. Qualificado. Planejado por um diretor de futebol de currículo vitorioso. Foi mapeado no mercado levando em conta oferta e necessidade. Há verba cada vez mais alta para investir graças a bem costurados acordos de patrocínio, ao corretamente implantado plano sócio-torcedor. Nosso técnico é um dos principais nomes do continente, sempre especulado em importantes seleções — essa semana foi a do Chile.

Isso tem resultado em títulos?

Não.

Sabemos lidar com esse fato?

Nem fudendo.

Embanana nossa cabeça mesmo.

Mas…

Aquela gangorra entre lutar para não cair em um ano e querer ser campeão no ano seguinte mesmo sem organização pra isso parece cada vez mais distante. Hoje temos uma realidade equilibrada que nos permite realmente almejar a conquista de toda competição que encaramos. Estar disputando nas cabeças é uma obrigação não mais por conta “de sermos Flamengo” mas porque de fato temos uma das equipes mais qualificadas e caras dos campeonatos que disputamos.

Isso para nós torcedores ainda é novidade. Sempre fomos o time da massa. Nunca da verba. O time da entrega, nunca o do pragmatismo. Nosso Deus é de Quintino e usava fralda vermelha e preta. É complicado para nosso sangue borbulhante não questionar um camisa 10 que chega com trinta anos a peso de ouro, muita rodagem e títulos pelo mundo, mas que nem sempre fala o que o torcedor quer ouvir quando o time perde.

Paralelo a isso, o Brasileirão mudou. O Flamengo, que sabemos bem ser uma torcida que tem um time e não contrário, sempre jogou no modo deixou-chegar-fudeu. Mata-mata é nossa essência. Então o campeonato passa a ser de pontos corridos. Valendo a mesma coisa vencer o primeiro jogo lá em abril ou o último quase em dezembro. Tem que ter uma frieza europeia para lidar com essa fórmula. E somos apenas rapazes (e moças) latino-americanos.

Aí chega outubro de 2017, vencemos o Carioquinha, fomos eliminados na primeira fase da Libertadores, chegamos na final da Copa do Brasil, estamos brigando por vaga na Libertadores no Brasileiro sem jamais ter disputado a liderança de verdade e temos a reta final da Sul-Americana para disputar.

O que achar dessa temporada?

Dizer que é uma bosta seria exagero. Qualifica-la de boa, pelo menos por hora, excesso de boa vontade.

Não anda fácil ser Flamengo. Temos uma crise de identidade entre nossa essência e a nova realidade para encarar.


 


Pedro Henrique Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1982, já com uma camisa do Flamengo pendurada na porta do quarto na maternidade. Desde que estreou profissionalmente em 2001, alterna-se com sucesso nas funções de ator, diretor, roteirista e dramaturgo em peças, filmes, novelas e seriados. É autor do romance “Gigantes” (Editora Paralela/Companhia das Letras – 2015). Siga-o no Twitter: @pedroneschling

 

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Imagem destacada no post e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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