No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, sem se poder ver uns aos outros ou a si próprios. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam “homens e outras coisas viventes”. As pessoas caminham por detrás da parede de modo que os seus corpos não projetam sombras, mas sim os objetos que carregam. Os prisioneiros não podem ver o que se passa atrás deles, e veêm apenas as sombras que são projetadas na parede em frente a eles. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

 

O Flamengo perdeu para o Vasco. E o que poderia ser encarado como um resultado passível de acontecer visto que, além de ser uma partida decisiva contra o time de melhor performance no campeonato, é um clássico histórico. Claro, e como clássico, ninguém gosta de perder. Mas perdeu. Vasco jogou efetivamente melhor embora não tenha feito uma boa partida tecnicamente falando. É um time com jogadores experientes que se encontraram como uma última oportunidade, talvez. Bem armados por Jorginho, dentro de suas limitações, já têm sintonia um com outro. É um time, hoje, difícil de ganhar no futebol brasileiro. Não seria fácil. E não foi, como sabemos.
 
Mas e aí? Bem. Abriu-se as portas do inferno. Amargura, rancores, compensações emocionais, explosões de fúrias fizeram torcedores e analistas despejarem toda sorte de sortilégios e elucubrações sobre o Flamengo e seu funcionamento interno. Pessoas que sequer sabem onde se localiza o CT afirmam que “falta comando”, “jogadores não treinam”, “Joga quem quer”, “ninguém sabe o que fazer”, quando, sabemos todos (ou a maioria), que:
 
– Flamengo está aperfeiçoando bastante sua estrutura de treinamentos com campos de treinamento, equipamentos modernos fisiológicos, locais de repouso que permitem dois turnos de treinamento,  pessoal ultra-especializado, consultoria estrangeira, etc
– Flamengo contratou vários titulares de uma só vez, o que dificulta um entrosamento ótimo em pouco tempo. Rodinei, Cuellar, Arão, Mancuello, Juan. Não podemos negar que metade do elenco é novo.
– Flamengo contratou um técnico caracterizado por um trabalho eficiente em pontos corridos no campeonato brasileiro. Seu método é a repetição de time-esquema até este funcionar de forma a gerar boa performance.
– Flamengo não está jogando no Maracanã/Engenhão, sendo obrigado a deslocamentos constantes e a desgaste físico e emocional no elenco e comissão técnica.
– Ao que consta não há qualquer problema de indisciplina.

 
Em suma, há diversos fatores, atenuantes ou não. Assim como erros identificáveis, ou supostamente identificáveis por leigos como eu, seja na preparação tática, escolha de elenco, de formação e de locais de jogo. Tudo é passível de crítica. Mas, conforme a alegoria citada acima, quem não está dentro do negócio, isto é, quem não participa do dia-a-dia nem das decisões tomadas, não tem mais que SOMBRAS para formação de sua “verdade particular” do que estaria ocorrendo com o Flamengo. Mas é o que temos, quem torce, vê os resultados e o time em campo. Analisa material de imprensa interessada em amplificar fatos e divagações. Temos as sombras. Não vemos se determinado jogador treina mal. Se a performance física e fisiológica de jogador X ou Y está devendo. Se o esquema X tem uma superioridade não aparente sobre esquema Y, que será perceptível apenas com mais treinamentos e seleção de jogador mais apropriado. Não sabemos como é o relacionamento do VP de Futebol Godinho com Rodrigo Caetano, ou mesmo Fred Luz, o CEO. Há o auxilio do Plinio, com experiência prévia em futebol. São pessoas acostumadas ao comando. Como elucubrar que estes altos executivos, justamente no futebol, não cobrem nada, se comportam como office-boys embasbacados?
 
O presidente faz uma declaração em que, ao conferir excelência a preparação do time, mesmo após ser derrotado pelo Vasco, jogaram todo tipo de pedra nele. Ora, convenhamos. EBM não é idiota. Há n ações realizadas por ele que atestam sua qualidade e inteligência enquanto presidente. Fora o reconhecimento de seus pares, vice-presidentes, outros dirigentes, associados e grupos de associados.  Se ele diz que, para ele, a preparação do time é excelente temos que verificar que ele, EBM, fala como PRESIDENTE da instituição e tem ciência disso. Logo, se orienta (e faz isto desde 2013), a elogiar toda e qualquer atividade da instituição. Ele não critica em público. Ele não faz a caveira de nenhum dirigente ou profissional. Não faz terra arrasada de nada. Suas palavras sempre são positivas. Goste-se disso ou não, isto é o que ocorre. Fala institucionalmente. Pode-se, e se tem todo direito, de contestar, alegando que não seria a melhor forma de agir. Altamente respeitável esta ponderação, mas daí a supor que ele seja um idiota por causa disso além de ofensivo é desrespeitoso. Pode ser até que ele, realmente, ache excelente o trabalho executado por Muricy. Tenha acompanhado treinamentos. Sentido evolução. Como saber?
 
Marcio Braga, do alto de sua experiência, alegou em entrevista que “falta comando” ao Flamengo. Ora, o que não falta é comando. Há Presidente, VP de Futebol. CEO, Diretor Executivo e Muricy, que não é nenhum aparvalhado e sabe muito bem exercer sua autoridade sem depender de dirigente de plantão. E na mesma entrevista, Marcio Braga faz uma elegia à administração arcaica que encheu o clube de dívidas e fez do Flamengo um clube com baixo prestígio para contratação, pois demorava a pagar os jogadores. OK. Foi o presidente mais vencedor. Mas hoje não temos, por exemplo, a  Lei do Passe que retinha jogador. Os direitos trabalhistas vão em cima. Não tínhamos o modelo de exportação ostensivo de jovens talentos para Europa. É outro tempo que precisa e requer organização e sustentabilidade para atrair talentos. O que devemos saber é se o dito comando é exercido com eficiência de forma a proporcionar que  o futebol possa apresentar boa performance em campo com o elenco disponível, e se não ocorre este resultado então pode haver, claro, algum problema nesta cadeia de fluxo de decisões e de informação. Mas problema não é ausência.

 

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Flávio H Souza

Flávio H Souza

Blogueiro

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