O que faz um presidente de clube de futebol ter um bom mandato? Qual é a medida, a régua, a base de avaliação para se discutir qualitativamente uma gestão?

 
José Bastos Padilha, mandatário entre 1933 e 1938, é apontado até hoje como um dos maiores – senão o maior – da história rubro-negra. E não poderia ser de outro modo. Senão, vejamos: logo em seu primeiro ano na presidência, levou o clube a aderir ao profissionalismo, afastando velhos caciques com vícios do período amador e chacoalhando as estruturas administrativas. Arrebanhou novos sócios contribuintes, garantindo a saúde financeira rubro-negra num momento em que os clubes não lucravam nada com o uso de suas marcas e a regulamentação da publicidade ainda era algo distante em muitas décadas.

Também arregaçou as mangas e construiu o estádio da Gávea – bairro então considerado longínquo – sobre um terreno no qual o Flamengo nunca havia mexido desde que recebeu sua cessão, em 1927, e onde hoje tem sua sede. Num passo ambicioso, trouxe da Europa o técnico Dori Kürschner para atualizar em termos táticos o futebol carioca e brasileiro. E, mais importante, abriu de vez as portas do Flamengo aos jogadores negros, contratando vários, com destaque para Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Fausto dos Santos, Jarbas e Valdemar de Brito, numa medida que aproximou de vez o Rubro-Negro das camadas mais populares, consolidando-o como o fenômeno de massa que é hoje.

Também expandiu essa popularidade por meio de ações de marketing, muito antes do termo se difundir por aqui: em parceria com Mario Filho, do Jornal dos Sports, criou concursos de slogans sobre o clube, de onde saíram frases famosas, como “Onde encontrares um flamengo, encontrarás um amigo” ou “O Flamengo ensina: amar o Brasil sobre todas as coisas”. Até filme, longa-metragem de cinema mesmo, com o Flamengo envolvendo o enredo foi feito durante sua gestão, estrelado pela nadadora Lygia Cordovil, um dos vários talentos dos chamados “esportes olímpicos” que defenderam o clube no período.

No blog: O verniz do improvável

Muito do que o Flamengo tem hoje – de material e imaterial – deve, portanto, a Padilha. Agora vejam que curioso: sabem quantos títulos de peso o Flamengo conquistou em seus seis anos de mandato? Zero. Nenhum. Nada. Em tempos mais recentes, talvez ele fosse tachado de “pé frio”, como o foi por um bom tempo George Helal nos anos 1980, e como vem sendo agora Eduardo Bandeira de Mello – ambos mandatários com erros e acertos, mas com ações importantes para o clube, cada qual ao seu modo.

Padilha foi sucedido no cargo pelo ex-jogador Gustavo Adolpho de Carvalho, o Gustavinho nos tempos de atleta rubro-negro, que herdou toda uma estrutura já pronta para o sucesso. Ainda assim, o fato “administrativo”, por assim dizer, mais marcante do período de Gustavo na presidência foi a briga pública que manteve por meses a fio com Leônidas, o maior ídolo do time, e que culminou na venda do jogador ao São Paulo no início de 1942. O destino, entretanto, quis que fosse ele – em seu primeiro ano de gestão! – o presidente rubro-negro na conquista do Carioca de 1939, tirando o clube do maior jejum de sua história (12 anos), e também o do portentoso título de “campeão de terra e mar” em 1942.

Gustavo de Carvalho, por sua vez, foi sucedido por Dario de Mello Pinto para o biênio 1943-44, no qual o Fla completou seu primeiro tricampeonato carioca, no time liderado em campo por Zizinho. No fim daquela década, Dario retornaria à presidência, cometendo o ato de suprema irresponsabilidade ao qual seu nome ficaria eternamente atrelado: a venda de Mestre Ziza ao Bangu por um capricho, poucos meses antes da Copa do Mundo de 1950, na qual o meia seria apontado como o melhor jogador do mundo. E o resultado foi o aprofundamento da crise técnica a qual o clube já vinha enfrentando nos anos anteriores.

Contar com craques e ídolos para lhes dar os títulos e depois vende-los sem cerimônia parece pródigo de alguns mandatários rubro-negros. O período mais vitorioso, para bem além das divisas estaduais, na história do Flamengo se deu durante a gestão de Antônio Augusto Dunshee de Abranches. Se o critério são os títulos (sobretudo os de grande relevância), então ele ocupa o primeiro posto entre os presidentes do clube em todos os tempos: venceu dois Brasileiros, a Taça Libertadores e o Mundial Interclubes.

José Bastos Padilha

Entretanto, pelo que a história conta, aquelas conquistas podem ser atribuídas de maneira muito mais precisa a diversos outros nomes que não o dele. Em primeiro lugar, a Zico, o Messias rubro-negro. Depois, a um elenco de craques com talento, identificação com o clube e fome de conquistas acima de qualquer discussão. Há ainda, em boa medida, que se fazer menção ao competente trabalho da comissão técnica, da preparação física e do saudoso supervisor Domingo Bosco.

Dunshee, por seu lado, ajudou quando não atrapalhou. Em abril de 1981, contratou o técnico Dino Sani sem sequer conhecer seu trabalho, apenas por indicação do vice de finanças Joel Teppet. E depois, demitiu o treinador (que havia entrado em atrito com Raul, Adílio, Mozer e Leandro em seus turbulentos meses na Gávea) da mesa de um restaurante no Leblon, por meio de um telefonema para Kléber Leite, então repórter da Rádio Globo. Mas os momentos mais patéticos de sua passagem pelo cargo se deram dois anos depois.

O primeiro foi a venda de Zico, no início de junho de 1983, dias depois da conquista do tricampeonato brasileiro – título este que reabilitou uma equipe que vinha sendo massacrada pela torcida. No dia do anúncio, na coletiva de imprensa, Dunshee se fez fotografar supostamente enxugando numa camisa 10 rubro-negra suas lágrimas de pesar pela saída do ídolo. Não contava com um impulso do fotógrafo do jornal O Globo, que registrou, logo no momento seguinte, um sorriso largo e satisfeito do mandatário.

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Pior viria depois: vendido Zico, nos três meses que se seguiram o Flamengo se arrastou, sem norte, perdido, acumulando revezes indesculpáveis. Mesmo Leandro, Adílio ou Junior pareciam incrivelmente mal. Em 14 de agosto, o time saiu de vez dos eixos com uma derrota acachapante de 3 a 0 para o Botafogo pela Taça Guanabara. Parecia o fundo do poço (só depois saberíamos que o poço tinha um fundo falso). E o que fez Dunshee nesta hora delicada? Renunciou à presidência ainda no vestiário do Maracanã, agravando a crise no time e no clube, e acarretando uma disputa eleitoral precipitada. Anos depois, durante a gestão Patrícia Amorim, ele seria homenageado como “o presidente campeão do mundo”. Sim, mas…

Pela presidência do Flamengo ao longo da história passaram homens bem e mal-intencionados. Bem e mal assessorados. Ineptos e argutos. Sortudos e azarados. Discretos e fanfarrões. Apaixonados e covardes. Em sua maioria maus administradores, e que pecaram de diferentes modos. Num clube tão vitorioso como o Flamengo, aliás, chega a ser incongruente a quantidade de títulos na comparação com a de boas gestões. As taças vieram muito mais apesar dos dirigentes do que por causa deles: um bom exemplo é a do Brasileiro de 1992, conquistada mesmo com quatro meses de salários atrasados, e fundamentalmente a partir da liderança dos jogadores mais experientes e da união do elenco.

A grandeza do Flamengo, contudo – e felizmente –, não se explica só pelos (muitos) títulos.
 


Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.


 

Foto destacada no post e nas redes sociais: Reprodução

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